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    <title>connell &amp;mdash; Kuir - cultura e inspiração Cuir</title>
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    <description>Pensar cuir desde as margens. Escrever contra a norma.&lt;br&gt;&lt;b&gt;Orlando Figueiredo&lt;/b&gt;&lt;br&gt; &lt;a href=&#34;mailto:queerlab@kuircuir.pt&#34;&gt;queerlab@kuircuir.pt&lt;/a&gt;</description>
    <pubDate>Mon, 08 Jun 2026 20:59:48 +0000</pubDate>
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      <title>Que corpos contam? - Texto 2: Os monstros da masculinidade</title>
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      <description>&lt;![CDATA[Que corpos abjetos precisa a hegemonia de criar?&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Em 1818, Mary Shelley imaginou uma criatura fabricada por mãos humanas que, no momento em que ganha vida, se torna insuportável para o seu criador. O monstro de Frankenstein não nasce monstruoso — é produzido como tal pelo olhar de quem o fez e pela recusa de quem o deveria reconhecer. Há algo nesta ficção que ilumina com precisão cirúrgica o funcionamento da masculinidade hegemónica: ela não se limita a excluir certas formas de ser homem. Precisa de as fabricar. Precisa de produzir os corpos que depois rejeita, porque sem eles não consegue definir-se. Os monstros da masculinidade não são acidentes da fábrica — são a sua condição de funcionamento.&#xA;&#xA;Fotografia de Nick Andréka (2024) — Uso gratuito sob Licença Unsplash.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;O exterior que sustenta o centro&#xA;&#xA;No texto anterior, vimos como a masculinidade hegemónica opera como uma fábrica — um regime material-discursivo que produz os corpos que contam. Mas toda a fábrica produz também resíduos. Ou melhor: aquilo que o regime apresenta como resíduo é, na verdade, parte essencial da sua engenharia.&#xA;&#xA;Connell mostrou que a masculinidade hegemónica não existe isoladamente. Define-se sempre em relação a outras formas de masculinidade — subordinadas, marginalizadas, cúmplices — que ocupam posições inferiores na hierarquia. Howson e Hearn desenvolvem esta ideia ao sublinharem que a hegemonia se constitui em relação ao seu exterior radical: masculinidades que, embora excluídas do centro, são componentes indispensáveis do próprio sistema. \[nota: verificar referência exata de Howson e Hearn antes de publicar\] Sem o subordinado, o hegemónico não tem contra o que se medir. Sem a fronteira, o centro dissolve-se.&#xA;&#xA;Esta é uma ideia que merece ser levada a sério nas suas consequências políticas. Se a exclusão das masculinidades cuir — gays, bissexuais, trans, não-conformes — não é um defeito do sistema mas a sua condição de possibilidade, então estamos perante uma arquitetura de poder que não pode ser reformada apenas por inclusão. Incluir os excluídos sem desmontar o mecanismo que os produz como excluíveis é, no limite, alimentar a máquina com combustível novo. A hegemonia absorve, recicla e prossegue.&#xA;&#xA;O monstro gay: vigilância, insulto e regulação&#xA;&#xA;De todas as masculinidades subordinadas, a masculinidade gay ocupa o lugar mais visível e mais estudado. E não por acaso: ao desligar masculinidade de heterossexualidade, a existência de homens gays expõe a contingência daquilo que a hegemonia apresenta como dado natural. Se é possível ser homem e desejar homens, então a equação masculinidade-heterossexualidade-dominância não é uma lei da natureza — é uma construção política. E construções políticas podem ser desmontadas.&#xA;&#xA;É precisamente por isso que a masculinidade gay é tão intensamente vigiada. Como nota Tim Barrett, dada a centralidade da heterossexualidade na definição normativa de masculinidade, as masculinidades gays ocupam necessariamente o degrau mais baixo da hierarquia. Mas esta subordinação não se exerce apenas através de discriminação direta. Opera, sobretudo, através de mecanismos subtis de regulação quotidiana que disciplinam todos os homens — gays ou não.&#xA;&#xA;C.J. Pascoe oferece uma das análises mais penetrantes destes mecanismos com o conceito de fag discourse. Estudando adolescentes norte-americanos, Pascoe mostra que o insulto fag não funciona apenas como expressão de homofobia. É uma prática regulatória de género que policia comportamentos, disposições e relações, empurrando todos os homens para dentro dos limites da masculinidade aceitável. O rapaz que mostra emoção, que se move de determinada forma, que fala com determinado tom — todos são potenciais alvos, independentemente da sua orientação sexual. O fag discourse disciplina pela ameaça: não precisas de ser gay para ser punido como se fosses.&#xA;&#xA;Mas Pascoe vai mais longe. Mostra que este discurso é simultaneamente sexualizado e racializado. O insulto não atinge todos os corpos da mesma forma. As expetativas de performance masculina variam com a raça: há masculinidades que são lidas como excessivas e outras como insuficientes, conforme a cor da pele de quem as habita. Pascoe conclui que algo mais do que simples homofobia está em jogo nestas interações — o que opera é um regime de vigilância que articula género, sexualidade e raça na produção de corpos conformes e corpos desviantes. Homens gays racializados não enfrentam apenas homofobia: enfrentam uma articulação de racismo e heteronormatividade que os posiciona simultaneamente como ameaça, fetiche ou excesso.&#xA;&#xA;O monstro invisível: a bissexualidade e o paradoxo do apagamento&#xA;&#xA;Se a masculinidade gay é o monstro mais visível da hegemonia, a bissexualidade masculina é o seu monstro mais paradoxal. Num regime que precisa de categorias estáveis para funcionar — heterossexual e homossexual, masculino e feminino, normal e desviante —, a bissexualidade é uma perturbação estrutural. Não porque seja ambígua, mas porque recusa os termos do jogo.&#xA;&#xA;Os homens bissexuais são frequentemente representados como indecisos, hipersexuais ou incapazes de cumprir o ideal de masculinidade coerente e estável. Esta representação não é inocente: serve para neutralizar a ameaça que a bissexualidade representa para o regime binário que sustenta a hegemonia. Se é possível desejar sem se fixar numa categoria, então as categorias não são naturais — são instrumentos de poder.&#xA;&#xA;O resultado, como mostra Stephen Lawton na sua investigação sobre homens bi+ e as suas relações íntimas, é um fenómeno paradoxal: hipervisibilidade estigmatizante — enquanto risco, imoralidade ou patologia — e apagamento institucional simultâneo. Os homens bissexuais estão quase ausentes dos discursos de saúde pública, das políticas específicas, da representação mediática e mesmo dos espaços de organização cuir. A hegemonia não precisa apenas de os estigmatizar — precisa de os tornar invisíveis, porque a sua existência desestabiliza a lógica binária que sustenta todo o edifício.&#xA;&#xA;Mas há uma camada que esta análise ainda não tocou, e que importa não deixar de lado. Os homens bissexuais são monstruosos para a hegemonia heterossexual, porque recusam a heterossexualidade compulsória — isso é esperado. O que é mais incómodo de reconhecer é que também são monstruosos para certos setores da própria comunidade cuir. Nestes espaços, a bissexualidade masculina é frequentemente lida como privilégio disfarçado, como recusa de comprometimento político ou como suspeita de heterossexualidade encoberta. O gatekeeping cuir sobre a bissexualidade reproduz, noutros termos, a mesma exigência de estabilidade identitária e coerência categorial que a hegemonia impõe a todos os corpos. O monstro invisível é aquele que nenhum campo reivindica inteiramente — e que a comunidade que deveria acolhê-lo contribui, frequentemente, para apagar.&#xA;&#xA;O monstro fabricado na carne: transmasculinidade e os aparelhos de produção de género&#xA;&#xA;Se há experiências que tornam visível, de forma particularmente crua, que a masculinidade não é um dado natural mas um produto de aparelhos institucionais, são as experiências de homens trans. Não porque a transmasculinidade seja mais artificial do que a masculinidade cisgénero — pelo contrário: é precisamente por tornar visíveis os mecanismos de produção que a hegemonia trabalha para esconder que ela se torna tão perturbadora para a ordem estabelecida.&#xA;&#xA;Henry Rubin, em Self-Made Men (2003), demonstrou que o acesso à masculinidade trans depende da conformidade com regimes médico-psiquiátricos que exigem narrativas coerentes de género e avaliações externas de legitimidade. Para ser reconhecido como homem, um homem trans precisa de convencer gatekeepers institucionais — médicos, psicólogos, comissões — de que a sua masculinidade é suficientemente real, suficientemente estável, suficientemente conforme ao modelo esperado. Este ónus de prova não recai sobre homens cisgénero. A masculinidade cis é presumida; a masculinidade trans é interrogada, avaliada e condicionalmente concedida.&#xA;&#xA;As práticas médicas e psiquiátricas não se limitam a responder a identidades trans — participam ativamente na produção dos sujeitos de género que podem existir. Exames médicos, avaliações psicológicas, documentação legal e práticas de vigilância institucional operam como verdadeiros aparelhos de produção de género: dispositivos que não apenas classificam corpos mas os fabricam enquanto inteligíveis ou abjetos. Karen Barad, em Meeting the Universe Halfway (2007), dá o nome mais preciso a esta operação — aparelhos material-discursivos — e mostra que o que eles produzem não são representações de realidades pré-existentes, mas os próprios contornos do que pode existir como real.&#xA;&#xA;Jamison Green aprofunda esta análise ao mostrar que a masculinidade trans é frequentemente condicionada pela passabilidade — a capacidade de ser lido como homem cisgénero — e pelo acesso desigual a tecnologias corporais. O reconhecimento é contingente e reversível: depende de recursos económicos, de contextos geográficos, de raça, de classe. Um homem trans branco e de classe média que &#34;passa&#34; acede a um estatuto masculino que permanece vedado a homens trans racializados, pobres ou sem acesso a cuidados de saúde. Como sintetizam Miriam Abelson e Tristan Kade, a masculinidade trans não é apenas culturalmente contestada — é materialmente produzida enquanto vulnerável por um conjunto de dispositivos que regulam o acesso ao estatuto masculino legitimado. Os corpos são lugares cruciais onde a masculinidade se materializa. E onde a exclusão se inscreve.&#xA;&#xA;Os monstros dentro de casa&#xA;&#xA;Seria reconfortante pensar que a masculinidade hegemónica opera apenas de fora — como força externa que oprime comunidades cuir unidas na resistência. Mas a realidade é mais incómoda. Como Connell argumenta, a hegemonia não atua apenas do exterior: é reproduzida dentro das próprias comunidades LGBT+.&#xA;&#xA;Padrões hegemónicos de masculinidade — branquitude, musculosidade, classe média, estética normativamente masculina — estruturam o desejo, o reconhecimento e a pertença em espaços gays. As hierarquias não desaparecem quando se entra num bar cuir ou se abre uma app de encontros. Reconfiguram-se. Homens gays racializados são fetichizados ou excluídos. Homens trans são frequentemente invisibilizados ou questionados enquanto homens suficientes. Homens bissexuais enfrentam suspeição e gatekeeping. Homens pobres ou migrantes são excluídos de espaços cuir estruturados por capital económico e cultural.&#xA;&#xA;Estas exclusões não são meros efeitos culturais ou falhas individuais de sensibilidade. São práticas material-discursivas — no sentido que Barad permite recuperar — que produzem materialmente quem conta como parte da comunidade e quem é fabricado como figura liminar, tolerada mas não plenamente reconhecida. A hegemonia infiltra-se nos espaços de resistência e reorganiza-os segundo a sua lógica. Desmontar a máquina não basta fora de portas: é preciso reconhecê-la dentro de casa.&#xA;&#xA;Os monstros como matéria política&#xA;&#xA;As masculinidades cuir — gays, bissexuais, trans, não-conformes — ocupam uma posição paradoxal na arquitetura da hegemonia. São simultaneamente indispensáveis e descartáveis. A hegemonia precisa delas para se definir, mas precisa igualmente de as manter à distância para se estabilizar. São a fronteira simbólica que demarca o que a masculinidade legítima não deve ser, o recurso disciplinar que mantém todos os homens sob vigilância, a prova viva — pelo simples facto de existirem — de que o edifício inteiro poderia ser de outro modo.&#xA;&#xA;É esta última dimensão que os torna politicamente perigosos. Não se trata apenas de corpos que sofrem discriminação — trata-se de posições produzidas pelos próprios dispositivos de poder que as excluem. Se as masculinidades cuir não são resíduos naturais de um sistema que funciona bem, mas produtos necessários de um regime que precisa de exclusão para se manter, então cada corpo cuir é uma evidência de que a máquina é contingente, histórica e desmontável. A abjeção não é um destino. É uma fabricação. E o que é fabricado pode ser desmontado.&#xA;&#xA;Mary Shelley sabia-o há dois séculos: o monstro não é o problema. O problema é a fábrica que o produz — e o criador que recusa reconhecer a sua obra.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Leituras&#xA;&#xA;Raewyn Connell, Masculinities (1995, 2.ª edição 2005). A obra de referência para compreender a hierarquia das masculinidades e o conceito de masculinidade hegemónica. Connell mostra que a subordinação de certas masculinidades não é um efeito lateral, mas uma condição estrutural do sistema. Indispensável para quem quer pensar as masculinidades cuir como questão política e não apenas identitária.&#xA;&#xA;C.J. Pascoe, &#34;&#39;Dude, You&#39;re a Fag&#39;: Adolescent Masculinity and the Fag Discourse&#34; (2005). Um estudo etnográfico decisivo que mostra como o insulto homofóbico funciona como prática regulatória de género, disciplinando todos os homens — e não apenas os gays. Pascoe revela que o fag discourse é simultaneamente sexualizado e racializado, oferecendo uma leitura intersecional do policiamento da masculinidade.&#xA;&#xA;C.J. Pascoe e Tristan Bridges, &#34;Fag Discourse in a Post-Homophobic Era&#34; (2018). Uma atualização do conceito de fag discourse que analisa como a regulação da masculinidade persiste mesmo em contextos aparentemente mais tolerantes. A tolerância liberal não elimina a vigilância — reconfigura-a.&#xA;&#xA;Tim Barrett, &#34;Multiple Forms of Masculinity in Gay Male Subcultures&#34; (2020). Barrett analisa a pluralidade de masculinidades dentro das subculturas gays, mostrando que a subordinação não é homogénea. Diferentes formas de masculinidade gay articulam-se com raça, classe e estética corporal de modos que reproduzem hierarquias internas.&#xA;&#xA;Stephen Lawton, Bi+ Men and Their Intimate Partners: Sexual Identities, Intimate Relationships and Binegativity (2023). A investigação de Lawton sobre homens bi+ e as suas relações é um dos poucos trabalhos que leva a sério a especificidade da experiência bissexual masculina, mostrando como a binegatividade opera tanto nos espaços heteronormativos como nos espaços cuir.&#xA;&#xA;Henry Rubin, Self-Made Men: Identity and Embodiment among Transsexual Men (2003). Rubin demonstra como o sistema médico-psiquiátrico não se limita a responder às identidades trans — participa na sua produção, definindo quem pode existir como sujeito de género legítimo. Uma leitura essencial para compreender a transmasculinidade como fenómeno materialmente produzido.&#xA;&#xA;Jamison Green, &#34;Look! No, Don&#39;t! The Visibility Dilemma for Transsexual Men&#34; (2006). Green aborda o dilema da visibilidade trans masculina: ser visível expõe à violência, ser invisível apaga a existência. A passabilidade, longe de ser um privilégio simples, é um campo minado de classe, raça e acesso desigual a tecnologias corporais.&#xA;&#xA;Miriam Abelson e Tristan Kade, &#34;Trans Masculinities&#34; (2020). Uma síntese contemporânea que sublinha que os corpos são lugares cruciais onde a masculinidade se materializa, articulando experiências trans com teoria feminista e estudos críticos de masculinidade.&#xA;&#xA;Karen Barad, Meeting the Universe Halfway (2007) e &#34;TransMaterialities&#34; (2022). Barad oferece as ferramentas ontológicas para compreender que as masculinidades cuir não são identidades pré-existentes que são depois discriminadas, mas posições produzidas por práticas material-discursivas. &#34;TransMaterialities&#34; aprofunda esta leitura no campo específico das existências trans.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;#cuir #kuir #masculinidades #hegemoniamasculina #abjeção #transmasculinidade #bissexualidade #fagdiscourse #teoria #barad #connell #pascoe #Caderno2 #desdeasmargens&#xA;&#xA;phr style=&#34;border: none; border-top: 1px solid #ff69b4;&#34;&#xD;&#xA;emPor Orlando Figueiredo, desde as margens./em/pbr---brpQueres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! br&#xD;&#xA;!--emailsub--/p]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<h2 id="que-corpos-abjetos-precisa-a-hegemonia-de-criar" id="que-corpos-abjetos-precisa-a-hegemonia-de-criar">Que corpos abjetos precisa a hegemonia de criar?</h2>

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<p>Em 1818, Mary Shelley imaginou uma criatura fabricada por mãos humanas que, no momento em que ganha vida, se torna insuportável para o seu criador. O monstro de Frankenstein não nasce monstruoso — é produzido como tal pelo olhar de quem o fez e pela recusa de quem o deveria reconhecer. Há algo nesta ficção que ilumina com precisão cirúrgica o funcionamento da masculinidade hegemónica: ela não se limita a excluir certas formas de ser homem. Precisa de as fabricar. Precisa de produzir os corpos que depois rejeita, porque sem eles não consegue definir-se. Os monstros da masculinidade não são acidentes da fábrica — são a sua condição de funcionamento.</p>

<p><img src="https://i.snap.as/fAvJSgrU.jpg" alt=""/></p>

<h6 id="fotografia-de-nick-andréka-2024-https-unsplash-com-pt-br-fotografias-uma-foto-em-preto-e-branco-de-um-homem-com-a-cabeca-nas-maos-uara9a02kvk-uso-gratuito-sob-licença-unsplash-https-unsplash-com-pt-br-licen-c3-a7a" id="fotografia-de-nick-andréka-2024-https-unsplash-com-pt-br-fotografias-uma-foto-em-preto-e-branco-de-um-homem-com-a-cabeca-nas-maos-uara9a02kvk-uso-gratuito-sob-licença-unsplash-https-unsplash-com-pt-br-licen-c3-a7a">Fotografia de <a href="https://unsplash.com/pt-br/fotografias/uma-foto-em-preto-e-branco-de-um-homem-com-a-cabeca-nas-maos-UArA9A02Kvk">Nick Andréka (2024)</a> — Uso gratuito sob <a href="https://unsplash.com/pt-br/licen%C3%A7a">Licença Unsplash</a>.</h6>

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<h3 id="o-exterior-que-sustenta-o-centro" id="o-exterior-que-sustenta-o-centro">O exterior que sustenta o centro</h3>

<p>No <a href="https://kuircuir.pt/que-corpos-contam-cuirografia-de-masculinidade-e-poder-texto-1-a-fabrica-da">texto anterior</a>, vimos como a masculinidade hegemónica opera como uma fábrica — um regime material-discursivo que produz os corpos que contam. Mas toda a fábrica produz também resíduos. Ou melhor: aquilo que o regime apresenta como resíduo é, na verdade, parte essencial da sua engenharia.</p>

<p>Connell mostrou que a masculinidade hegemónica não existe isoladamente. Define-se sempre em relação a outras formas de masculinidade — subordinadas, marginalizadas, cúmplices — que ocupam posições inferiores na hierarquia. Howson e Hearn desenvolvem esta ideia ao sublinharem que a hegemonia se constitui em relação ao seu exterior radical: masculinidades que, embora excluídas do centro, são componentes indispensáveis do próprio sistema. [nota: verificar referência exata de Howson e Hearn antes de publicar] Sem o subordinado, o hegemónico não tem contra o que se medir. Sem a fronteira, o centro dissolve-se.</p>

<p>Esta é uma ideia que merece ser levada a sério nas suas consequências políticas. Se a exclusão das masculinidades cuir — gays, bissexuais, trans, não-conformes — não é um defeito do sistema mas a sua condição de possibilidade, então estamos perante uma arquitetura de poder que não pode ser reformada apenas por inclusão. Incluir os excluídos sem desmontar o mecanismo que os produz como excluíveis é, no limite, alimentar a máquina com combustível novo. A hegemonia absorve, recicla e prossegue.</p>

<h3 id="o-monstro-gay-vigilância-insulto-e-regulação" id="o-monstro-gay-vigilância-insulto-e-regulação">O monstro gay: vigilância, insulto e regulação</h3>

<p>De todas as masculinidades subordinadas, a masculinidade gay ocupa o lugar mais visível e mais estudado. E não por acaso: ao desligar masculinidade de heterossexualidade, a existência de homens gays expõe a contingência daquilo que a hegemonia apresenta como dado natural. Se é possível ser homem e desejar homens, então a equação masculinidade-heterossexualidade-dominância não é uma lei da natureza — é uma construção política. E construções políticas podem ser desmontadas.</p>

<p>É precisamente por isso que a masculinidade gay é tão intensamente vigiada. Como nota Tim Barrett, dada a centralidade da heterossexualidade na definição normativa de masculinidade, as masculinidades gays ocupam necessariamente o degrau mais baixo da hierarquia. Mas esta subordinação não se exerce apenas através de discriminação direta. Opera, sobretudo, através de mecanismos subtis de regulação quotidiana que disciplinam todos os homens — gays ou não.</p>

<p>C.J. Pascoe oferece uma das análises mais penetrantes destes mecanismos com o conceito de <em>fag discourse</em>. Estudando adolescentes norte-americanos, Pascoe mostra que o insulto <em>fag</em> não funciona apenas como expressão de homofobia. É uma prática regulatória de género que policia comportamentos, disposições e relações, empurrando todos os homens para dentro dos limites da masculinidade aceitável. O rapaz que mostra emoção, que se move de determinada forma, que fala com determinado tom — todos são potenciais alvos, independentemente da sua orientação sexual. O <em>fag discourse</em> disciplina pela ameaça: não precisas de ser gay para ser punido como se fosses.</p>

<p>Mas Pascoe vai mais longe. Mostra que este discurso é simultaneamente sexualizado e racializado. O insulto não atinge todos os corpos da mesma forma. As expetativas de performance masculina variam com a raça: há masculinidades que são lidas como excessivas e outras como insuficientes, conforme a cor da pele de quem as habita. Pascoe conclui que algo mais do que simples homofobia está em jogo nestas interações — o que opera é um regime de vigilância que articula género, sexualidade e raça na produção de corpos conformes e corpos desviantes. Homens gays racializados não enfrentam apenas homofobia: enfrentam uma articulação de racismo e heteronormatividade que os posiciona simultaneamente como ameaça, fetiche ou excesso.</p>

<h3 id="o-monstro-invisível-a-bissexualidade-e-o-paradoxo-do-apagamento" id="o-monstro-invisível-a-bissexualidade-e-o-paradoxo-do-apagamento">O monstro invisível: a bissexualidade e o paradoxo do apagamento</h3>

<p>Se a masculinidade gay é o monstro mais visível da hegemonia, a bissexualidade masculina é o seu monstro mais paradoxal. Num regime que precisa de categorias estáveis para funcionar — heterossexual e homossexual, masculino e feminino, normal e desviante —, a bissexualidade é uma perturbação estrutural. Não porque seja ambígua, mas porque recusa os termos do jogo.</p>

<p>Os homens bissexuais são frequentemente representados como indecisos, hipersexuais ou incapazes de cumprir o ideal de masculinidade coerente e estável. Esta representação não é inocente: serve para neutralizar a ameaça que a bissexualidade representa para o regime binário que sustenta a hegemonia. Se é possível desejar sem se fixar numa categoria, então as categorias não são naturais — são instrumentos de poder.</p>

<p>O resultado, como mostra Stephen Lawton na sua investigação sobre homens bi+ e as suas relações íntimas, é um fenómeno paradoxal: hipervisibilidade estigmatizante — enquanto risco, imoralidade ou patologia — e apagamento institucional simultâneo. Os homens bissexuais estão quase ausentes dos discursos de saúde pública, das políticas específicas, da representação mediática e mesmo dos espaços de organização cuir. A hegemonia não precisa apenas de os estigmatizar — precisa de os tornar invisíveis, porque a sua existência desestabiliza a lógica binária que sustenta todo o edifício.</p>

<p>Mas há uma camada que esta análise ainda não tocou, e que importa não deixar de lado. Os homens bissexuais são monstruosos para a hegemonia heterossexual, porque recusam a heterossexualidade compulsória — isso é esperado. O que é mais incómodo de reconhecer é que também são monstruosos para certos setores da própria comunidade cuir. Nestes espaços, a bissexualidade masculina é frequentemente lida como privilégio disfarçado, como recusa de comprometimento político ou como suspeita de heterossexualidade encoberta. O <em>gatekeeping</em> cuir sobre a bissexualidade reproduz, noutros termos, a mesma exigência de estabilidade identitária e coerência categorial que a hegemonia impõe a todos os corpos. O monstro invisível é aquele que nenhum campo reivindica inteiramente — e que a comunidade que deveria acolhê-lo contribui, frequentemente, para apagar.</p>

<h3 id="o-monstro-fabricado-na-carne-transmasculinidade-e-os-aparelhos-de-produção-de-género" id="o-monstro-fabricado-na-carne-transmasculinidade-e-os-aparelhos-de-produção-de-género">O monstro fabricado na carne: transmasculinidade e os aparelhos de produção de género</h3>

<p>Se há experiências que tornam visível, de forma particularmente crua, que a masculinidade não é um dado natural mas um produto de aparelhos institucionais, são as experiências de homens trans. Não porque a transmasculinidade seja mais artificial do que a masculinidade cisgénero — pelo contrário: é precisamente por tornar visíveis os mecanismos de produção que a hegemonia trabalha para esconder que ela se torna tão perturbadora para a ordem estabelecida.</p>

<p>Henry Rubin, em Self-Made Men (2003), demonstrou que o acesso à masculinidade trans depende da conformidade com regimes médico-psiquiátricos que exigem narrativas coerentes de género e avaliações externas de legitimidade. Para ser reconhecido como homem, um homem trans precisa de convencer <em>gatekeepers</em> institucionais — médicos, psicólogos, comissões — de que a sua masculinidade é suficientemente real, suficientemente estável, suficientemente conforme ao modelo esperado. Este ónus de prova não recai sobre homens cisgénero. A masculinidade cis é presumida; a masculinidade trans é interrogada, avaliada e condicionalmente concedida.</p>

<p>As práticas médicas e psiquiátricas não se limitam a responder a identidades trans — participam ativamente na produção dos sujeitos de género que podem existir. Exames médicos, avaliações psicológicas, documentação legal e práticas de vigilância institucional operam como verdadeiros aparelhos de produção de género: dispositivos que não apenas classificam corpos mas os fabricam enquanto inteligíveis ou abjetos. Karen Barad, em Meeting the Universe Halfway (2007), dá o nome mais preciso a esta operação — aparelhos material-discursivos — e mostra que o que eles produzem não são representações de realidades pré-existentes, mas os próprios contornos do que pode existir como real.</p>

<p>Jamison Green aprofunda esta análise ao mostrar que a masculinidade trans é frequentemente condicionada pela passabilidade — a capacidade de ser lido como homem cisgénero — e pelo acesso desigual a tecnologias corporais. O reconhecimento é contingente e reversível: depende de recursos económicos, de contextos geográficos, de raça, de classe. Um homem trans branco e de classe média que “passa” acede a um estatuto masculino que permanece vedado a homens trans racializados, pobres ou sem acesso a cuidados de saúde. Como sintetizam Miriam Abelson e Tristan Kade, a masculinidade trans não é apenas culturalmente contestada — é materialmente produzida enquanto vulnerável por um conjunto de dispositivos que regulam o acesso ao estatuto masculino legitimado. Os corpos são lugares cruciais onde a masculinidade se materializa. E onde a exclusão se inscreve.</p>

<h3 id="os-monstros-dentro-de-casa" id="os-monstros-dentro-de-casa">Os monstros dentro de casa</h3>

<p>Seria reconfortante pensar que a masculinidade hegemónica opera apenas de fora — como força externa que oprime comunidades cuir unidas na resistência. Mas a realidade é mais incómoda. Como Connell argumenta, a hegemonia não atua apenas do exterior: é reproduzida dentro das próprias comunidades LGBT+.</p>

<p>Padrões hegemónicos de masculinidade — branquitude, musculosidade, classe média, estética normativamente masculina — estruturam o desejo, o reconhecimento e a pertença em espaços gays. As hierarquias não desaparecem quando se entra num bar cuir ou se abre uma app de encontros. Reconfiguram-se. Homens gays racializados são fetichizados ou excluídos. Homens trans são frequentemente invisibilizados ou questionados enquanto homens suficientes. Homens bissexuais enfrentam suspeição e <em>gatekeeping</em>. Homens pobres ou migrantes são excluídos de espaços cuir estruturados por capital económico e cultural.</p>

<p>Estas exclusões não são meros efeitos culturais ou falhas individuais de sensibilidade. São práticas material-discursivas — no sentido que Barad permite recuperar — que produzem materialmente quem conta como parte da comunidade e quem é fabricado como figura liminar, tolerada mas não plenamente reconhecida. A hegemonia infiltra-se nos espaços de resistência e reorganiza-os segundo a sua lógica. Desmontar a máquina não basta fora de portas: é preciso reconhecê-la dentro de casa.</p>

<h3 id="os-monstros-como-matéria-política" id="os-monstros-como-matéria-política">Os monstros como matéria política</h3>

<p>As masculinidades cuir — gays, bissexuais, trans, não-conformes — ocupam uma posição paradoxal na arquitetura da hegemonia. São simultaneamente indispensáveis e descartáveis. A hegemonia precisa delas para se definir, mas precisa igualmente de as manter à distância para se estabilizar. São a fronteira simbólica que demarca o que a masculinidade legítima não deve ser, o recurso disciplinar que mantém todos os homens sob vigilância, a prova viva — pelo simples facto de existirem — de que o edifício inteiro poderia ser de outro modo.</p>

<p>É esta última dimensão que os torna politicamente perigosos. Não se trata apenas de corpos que sofrem discriminação — trata-se de posições produzidas pelos próprios dispositivos de poder que as excluem. Se as masculinidades cuir não são resíduos naturais de um sistema que funciona bem, mas produtos necessários de um regime que precisa de exclusão para se manter, então cada corpo cuir é uma evidência de que a máquina é contingente, histórica e desmontável. A abjeção não é um destino. É uma fabricação. E o que é fabricado pode ser desmontado.</p>

<p>Mary Shelley sabia-o há dois séculos: o monstro não é o problema. O problema é a fábrica que o produz — e o criador que recusa reconhecer a sua obra.</p>

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<h3 id="leituras" id="leituras">Leituras</h3>

<p>Raewyn Connell, Masculinities (1995, 2.ª edição 2005). A obra de referência para compreender a hierarquia das masculinidades e o conceito de masculinidade hegemónica. Connell mostra que a subordinação de certas masculinidades não é um efeito lateral, mas uma condição estrutural do sistema. Indispensável para quem quer pensar as masculinidades cuir como questão política e não apenas identitária.</p>

<p>C.J. Pascoe, “&#39;Dude, You&#39;re a Fag&#39;: Adolescent Masculinity and the Fag Discourse” (2005). Um estudo etnográfico decisivo que mostra como o insulto homofóbico funciona como prática regulatória de género, disciplinando todos os homens — e não apenas os gays. Pascoe revela que o fag discourse é simultaneamente sexualizado e racializado, oferecendo uma leitura intersecional do policiamento da masculinidade.</p>

<p>C.J. Pascoe e Tristan Bridges, “Fag Discourse in a Post-Homophobic Era” (2018). Uma atualização do conceito de fag discourse que analisa como a regulação da masculinidade persiste mesmo em contextos aparentemente mais tolerantes. A tolerância liberal não elimina a vigilância — reconfigura-a.</p>

<p>Tim Barrett, “Multiple Forms of Masculinity in Gay Male Subcultures” (2020). Barrett analisa a pluralidade de masculinidades dentro das subculturas gays, mostrando que a subordinação não é homogénea. Diferentes formas de masculinidade gay articulam-se com raça, classe e estética corporal de modos que reproduzem hierarquias internas.</p>

<p>Stephen Lawton, Bi+ Men and Their Intimate Partners: Sexual Identities, Intimate Relationships and Binegativity (2023). A investigação de Lawton sobre homens bi+ e as suas relações é um dos poucos trabalhos que leva a sério a especificidade da experiência bissexual masculina, mostrando como a binegatividade opera tanto nos espaços heteronormativos como nos espaços cuir.</p>

<p>Henry Rubin, Self-Made Men: Identity and Embodiment among Transsexual Men (2003). Rubin demonstra como o sistema médico-psiquiátrico não se limita a responder às identidades trans — participa na sua produção, definindo quem pode existir como sujeito de género legítimo. Uma leitura essencial para compreender a transmasculinidade como fenómeno materialmente produzido.</p>

<p>Jamison Green, “Look! No, Don&#39;t! The Visibility Dilemma for Transsexual Men” (2006). Green aborda o dilema da visibilidade trans masculina: ser visível expõe à violência, ser invisível apaga a existência. A passabilidade, longe de ser um privilégio simples, é um campo minado de classe, raça e acesso desigual a tecnologias corporais.</p>

<p>Miriam Abelson e Tristan Kade, “Trans Masculinities” (2020). Uma síntese contemporânea que sublinha que os corpos são lugares cruciais onde a masculinidade se materializa, articulando experiências trans com teoria feminista e estudos críticos de masculinidade.</p>

<p>Karen Barad, Meeting the Universe Halfway (2007) e “TransMaterialities” (2022). Barad oferece as ferramentas ontológicas para compreender que as masculinidades cuir não são identidades pré-existentes que são depois discriminadas, mas posições produzidas por práticas material-discursivas. “TransMaterialities” aprofunda esta leitura no campo específico das existências trans.</p>

<hr/>

<p><a href="https://kuircuir.pt/tag:cuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">cuir</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:kuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">kuir</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:masculinidades" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">masculinidades</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:hegemoniamasculina" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">hegemoniamasculina</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:abje%C3%A7%C3%A3o" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">abjeção</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:transmasculinidade" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">transmasculinidade</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:bissexualidade" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">bissexualidade</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:fagdiscourse" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">fagdiscourse</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:teoria" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">teoria</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:barad" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">barad</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:connell" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">connell</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:pascoe" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">pascoe</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:Caderno2" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">Caderno2</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:desdeasmargens" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">desdeasmargens</span></a></p>

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<em>Por Orlando Figueiredo, desde as margens.</em></p><br>---<br><p>Queres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! <br>
</p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://kuircuir.pt/que-corpos-contam-texto-2-os-monstros-da-masculinidade-fcj6</guid>
      <pubDate>Wed, 06 May 2026 21:15:33 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Que corpos contam? - Texto 1: A fábrica da masculinidade</title>
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      <description>&lt;![CDATA[Como a masculinidade hegemónica produz os corpos que contam&#xA;&#xA;A masculinidade hegemónica não descreve um tipo de homem. Descreve uma máquina. Um regime de produção que decide, em cada contexto, que corpos são reconhecidos como legítimos, que vidas merecem protecção e que existências podem aparecer no espaço público sem risco de violência. Compreender isto — que a masculinidade dominante não é uma identidade mas um aparelho — é o ponto de partida deste caderno.&#xA;&#xA;Este texto abre o segundo caderno do Kuir Cuir. O primeiro percorreu a repressão e a resistência cuir do pós-guerra a Stonewall. Este segundo caderno, Que corpos contam?, propõe uma cuirografia de masculinidade e poder — uma escrita situada, politicamente comprometida, que interroga como a hegemonia masculina fabrica hierarquias entre corpos, entre vidas, entre formas de existir. Os textos que se seguem nasceram de um trabalho académico no âmbito de um mestrado em Estudos Interdisciplinares de Género e Sexualidade, mas precisavam de outra língua e de outra casa. A armadura institucional protegia o argumento e sufocava-o ao mesmo tempo. Este caderno é o gesto de o libertar — não para o simplificar, mas para o devolver ao lugar onde o pensamento respira melhor: nas margens.&#xA;&#xA;Cada texto é acompanhado de uma secção de leituras que situa as referências mobilizadas; no final do caderno, uma bibliografia comentada reúne o conjunto das filiações intelectuais que sustentam esta cuirografia.&#xA;&#xA;Fotografia de Julee Juu (2026) - Uso gratuito sob a Licença Unsplash&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;A hierarquia e o seu exterior&#xA;&#xA;A teoria das masculinidades, tal como Raewyn Connell a sistematizou na sua obra fundadora Masculinities, descreve a existência de uma hierarquia relacional entre diferentes formas de ser homem. No topo, a masculinidade hegemónica — não necessariamente a mais comum, nem sequer a mais visível, mas a culturalmente dominante: aquela que organiza o consenso sobre o que um homem deve ser, como deve agir, que desejos pode ter e que corpo deve habitar. A hegemonia não se impõe apenas pela força. Funciona por liderança, por persuasão, por aquilo que se apresenta como óbvio e que, por parecer óbvio, deixa de ser questionado. É poder tornado legítimo — ou, como sintetizam Richard Howson e Jeff Hearn, autoridade que resulta da fusão entre poder e legitimidade.&#xA;&#xA;Abaixo da hegemonia, Connell identifica outras posições. As masculinidades cúmplices são aquelas que não encarnam o ideal hegemónico mas beneficiam dele — o dividendo patriarcal, como lhe chama Connell, distribui-se mesmo entre homens que nunca exercem directamente a dominação. A cumplicidade é silenciosa, confortável, quase invisível: é o homem que não agride mas que lucra com um sistema que agride por ele. As masculinidades subordinadas ocupam o polo oposto — são aquelas que a hegemonia empurra para baixo porque ameaçam a sua coerência. A masculinidade gay é o caso paradigmático: ao desligar masculinidade de heterossexualidade, expõe a contingência daquilo que a hegemonia apresenta como natural. E há ainda as masculinidades marginalizadas, estruturadas não apenas por género mas por raça, classe e nacionalidade — masculinidades que, mesmo quando heterossexuais, são excluídas do centro porque os corpos que as habitam são lidos como excesso, risco ou ameaça.&#xA;&#xA;Esta hierarquia não é estática. A hegemonia reconfigura-se, adapta-se, absorve seletivamente aquilo que lhe convém. Masculinidades híbridas, como lhes chamam alguns autores, incorporam práticas cuir, estéticas femininas ou sensibilidades progressistas sem abdicar do privilégio estrutural — uma flexibilidade que fortalece a hegemonia precisamente por a fazer parecer mais aberta do que é. Mas o ponto decisivo, aquele que Connell e os seus leitores mais atentos sublinham, é que a masculinidade hegemónica se define sempre em relação ao seu exterior. A hegemonia precisa de masculinidades subordinadas e marginalizadas para se estabilizar. Sem o abjeto, não há legítimo. Sem a fronteira, não há centro. O exterior não é um resíduo do sistema — é a sua condição de funcionamento.&#xA;&#xA;Isto significa que a exclusão das masculinidades cuir, racializadas ou de classe popular não é uma falha da hegemonia. É o seu modo de operar. A fábrica não produz apenas o homem legítimo — produz, ao mesmo tempo, os corpos que precisam de ser excluídos para que a legitimidade se mantenha. E é esta produção simultânea do centro e das margens que faz da masculinidade hegemónica um regime de poder e não apenas uma preferência cultural.&#xA;&#xA;Da norma à fábrica: o deslocamento ontológico&#xA;&#xA;Dizer que a masculinidade hegemónica é uma norma cultural, um regime simbólico, uma estrutura relacional — tudo isto é verdadeiro, mas ainda não é suficiente. A leitura de Connell descreve com precisão como a hierarquia se organiza, mas tende a manter a análise no plano do discurso, das representações e das práticas culturais. É aqui que este caderno propõe um deslocamento — não para negar a dimensão cultural, mas para a radicalizar.&#xA;&#xA;O realismo agencial de Karen Barad oferece as ferramentas para esse gesto. Para Barad, matéria e significado não existem como esferas separadas que depois se relacionam. Estão inextricavelmente fundidos: aquilo a que chamamos realidade é produzido por práticas material-discursivas que são simultaneamente físicas, institucionais, tecnológicas e normativas. Não há, de um lado, os corpos, e do outro, as normas que os classificam. Há práticas que produzem certos corpos como inteligíveis e outros como abjectos, certas vidas como reconhecíveis e outras como descartáveis. A esta produção, Barad chama materialização — e é um processo contínuo, situado e historicamente contingente.&#xA;&#xA;Aplicar isto à masculinidade hegemónica muda radicalmente o que vemos. A hegemonia deixa de ser apenas um conjunto de ideias sobre o que um homem deve ser. Torna-se um regime de materialização: um aparelho que, através de práticas concretas — exames médicos, documentos legais, formulários administrativos, procedimentos policiais, critérios de elegibilidade, protocolos psiquiátricos —, produz alguns corpos como masculinos legítimos e outros como desviantes, insuficientes ou inexistentes. Estes aparelhos não se limitam a aplicar categorias a corpos que já existem. Participam na produção dos próprios corpos e das próprias categorias. O género não preexiste às práticas que o mobilizam — emerge delas.&#xA;&#xA;Judith Butler já nos tinha mostrado que o género é um efeito performativo. A repetição de normas heteronormativas, a vigilância dos comportamentos, a sanção da dissidência — tudo isto produz a aparência de uma essência natural onde só há história e poder. Corpos inteligíveis e sujeitos reconhecíveis são o resultado dessa repetição, não a sua causa. O contributo de Barad radicaliza este gesto de Butler: não se trata apenas de performatividade discursiva, mas de materialização no sentido forte do termo. As normas de género não apenas regulam ou representam diferenças — participam activamente na produção material dessas diferenças. Quando um protocolo médico exige que uma pessoa trans apresente uma narrativa coerente de disforia para aceder a tratamento hormonal, não está apenas a aplicar uma norma — está a fabricar o sujeito de género que pode existir. Quando um formulário oferece apenas duas opções de sexo, não está apenas a simplificar — está a produzir um mundo em que certas existências não cabem. Quando a polícia lê um corpo racializado como ameaça e um corpo cuir como anomalia, não está apenas a interpretar — está a materializar hierarquias que se inscrevem na carne de quem as vive.&#xA;&#xA;É esta passagem — da regulação à produção, da norma à fábrica — que distingue a leitura que este caderno propõe. A masculinidade hegemónica não representa diferenças: produz corpos como inteligíveis ou abjetos, vidas como reconhecíveis ou descartáveis, existências como legítimas ou impossíveis. E produz tudo isto não através de uma ideologia abstracta, mas através de aparelhos concretos que operam nas instituições, nas tecnologias e nas práticas quotidianas.&#xA;&#xA;A dimensão epistemológica deste regime é igualmente decisiva. Donna Haraway, no seu ensaio fundador sobre conhecimentos situados, mostrou que todo o conhecimento é parcial, localizado, produzido a partir de corpos e posições sociais concretas. Não existe um olhar de lugar nenhum. A pretensão de objectividade universal — aquilo a que Haraway chama o truque divino — é sempre o privilégio de quem pode esconder a sua posição, de quem não precisa de se nomear porque se confunde com o padrão. O olhar que se diz neutro é, quase sempre, o olhar branco, cisgénero, heterossexual, de classe média, nacional — aquele que nunca precisa de justificar a sua perspectiva porque a tomou como sinónimo de verdade.&#xA;&#xA;Isto tem consequências directas para a análise da masculinidade hegemónica. Os dados que temos sobre discriminação, as políticas públicas que dizem combatê-la, os enquadramentos jurídicos que prometem igualdade — tudo isto é produzido a partir de posições situadas. Quando um estudo mede a discriminação com categorias estanques — homossexual, heterossexual, homem, mulher —, está a operar a partir de uma ontologia que já decidiu o que existe e o que não existe, que experiências são legíveis e quais escapam ao enquadramento. Quando uma política pública assume que a igualdade formal resolve a exclusão material, está a olhar a partir de uma posição que nunca sentiu a distância entre a lei e a vida. Reconhecer a localização do olhar não é um exercício académico — é uma condição de honestidade intelectual e de responsabilidade política.&#xA;&#xA;Desmontar a máquina&#xA;&#xA;Integrar estas perspectivas — Connell, Barad, Butler, Haraway — permite compreender que a masculinidade hegemónica é mais do que uma norma cultural ou um regime simbólico. É um regime onto-epistémico-material: produz corpos, organiza saberes e distribui desigualmente o acesso à existência reconhecida. Quando dizemos que certos homens são subordinados ou marginalizados, não estamos apenas a descrever posições numa hierarquia de prestígio. Estamos a nomear os efeitos concretos de uma fábrica que precisa de produzir o abjeto para estabilizar o legítimo, que precisa de fronteiras para se definir, e que opera através de instituições, tecnologias e práticas quotidianas que fazem parecer natural aquilo que é histórico, contingente e politicamente produzido.&#xA;&#xA;E é precisamente aqui que a análise muda de natureza. Se a masculinidade hegemónica fosse apenas uma norma cultural, bastaria mudá-la com educação, representação e boa vontade. Mais inclusão nos media, mais formação nas escolas, mais campanhas de sensibilização — e o problema estaria resolvido. Mas se a hegemonia é um regime material — se produz corpos, se se inscreve em instituições, se molda os próprios instrumentos com que a medimos —, então combatê-la exige outra coisa. Exige desmontar os aparelhos que a fabricam: os protocolos médicos que decidem quem é homem suficiente, os formulários que apagam existências não-binárias, os sistemas policiais que lêem raça e género como ameaça, os critérios de elegibilidade que excluem quem não cabe nas categorias dominantes. Exige interrogar quem produz conhecimento sobre género, a partir de que posição, com que instrumentos e ao serviço de que interesses. Exige recusar a neutralidade como disfarce do privilégio — porque a neutralidade, quando estamos perante um sistema que produz vidas descartáveis, é sempre cumplicidade.&#xA;&#xA;E exige, sobretudo, partir dos corpos que a hegemonia descarta. Não por romantismo nem por altruismo, mas por rigor. Porque é nas margens — nos corpos que a fábrica rejeita — que se vê com mais clareza como a máquina funciona. Quem nunca precisou de provar que é homem não sabe como a masculinidade é produzida. Quem nunca sentiu o olhar policial sobre a sua pele não sabe como a raça se materializa. Quem nunca ficou de fora de um formulário não sabe o que significa ser ontologicamente excluído. O conhecimento que emerge desses corpos não é subjectivo nem anedótico — é situado, material e politicamente indispensável.&#xA;&#xA;Os textos que se seguem neste caderno fazem exactamente esse percurso. Partem dos monstros que a masculinidade hegemónica precisa de criar, passam pela igualdade que o Estado português celebra enquanto vidas cuir ficam de fora, detêm-se num corpo negro e cuir que intensifica a sua dissidência como escudo contra a violência racial, e terminam com a pergunta sobre quem pode conhecer a discriminação — e a partir de que carne. A fábrica da masculinidade é o primeiro passo: nomear a máquina. Os seguintes tratam de a desmontar.&#xA;&#xA;Leituras&#xA;&#xA;Raewyn Connell, Masculinities (1995, 2.ª edição 2005). A obra fundadora da teoria das masculinidades, que introduziu os conceitos de masculinidade hegemónica, subordinada, cúmplice e marginalizada. Connell mostra que a masculinidade não é um atributo individual mas uma estrutura relacional de poder — entre homens e entre homens e mulheres. Sem este livro, o campo não existiria como o conhecemos. Leitura indispensável para qualquer análise crítica de género que recuse essencialismos.&#xA;&#xA;Karen Barad, Meeting the Universe Halfway: Quantum Physics and the Entanglement of Matter and Meaning (2007). Barad propõe o realismo agencial, uma onto-epistemologia que recusa a separação entre matéria e discurso e defende que a realidade é performativa — produzida por práticas material-discursivas e não dada à partida. Uma ferramenta poderosa para compreender que as desigualdades de género não são apenas representadas, são materializadas em aparelhos concretos. Livro denso e exigente, mas que recompensa cada página.&#xA;&#xA;Judith Butler, Problemas de Género: Feminismo e Subversão da Identidade (1990, tradução portuguesa Orfeu Negro, 2023). Butler argumenta que o género é um efeito performativo — produzido pela repetição de normas e não pela expressão de uma essência interior. A sua crítica à naturalização do sexo e do género fundou a teoria cuir e continua a ser uma referência incontornável. A tradução portuguesa permite finalmente ler este texto fundamental na nossa língua.&#xA;&#xA;Donna Haraway, Situated Knowledges: The Science Question in Feminism and the Privilege of Partial Perspective (1988). Neste ensaio seminal, Haraway defende que todo o conhecimento é parcial, localizado e produzido a partir de posições concretas. A objectividade não é a vista de lugar nenhum — é a responsabilidade de assumir de onde se olha. Leitura essencial para quem quer pensar criticamente a produção de saber sobre género e sexualidade, e para quem desconfia — com razão — da neutralidade.&#xA;&#xA;Richard Howson e Jeff Hearn, Hegemony, Hegemonic Masculinity, and Beyond, in Routledge International Handbook of Masculinity Studies (2020). Uma revisão crítica do conceito de masculinidade hegemónica que sublinha a sua natureza relacional, a importância do exterior constitutivo e a articulação entre poder e legitimidade. Leitura útil para quem quer ir além da vulgata sobre masculinidade tóxica e compreender a hegemonia como estrutura, não como insulto.&#xA;&#xA;Pierre Bourdieu, La domination masculine_ (1998). Bourdieu analisa como a dominação masculina se naturaliza através de esquemas de percepção incorporados, reproduzidos por instituições e práticas quotidianas. A violência simbólica — central nesta obra — actua precisamente por não se apresentar como violência, mas como evidência, consenso ou normalidade. Uma referência clássica que este caderno mobiliza pontualmente, mas cuja análise dos mecanismos de naturalização do poder permanece indispensável.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;#cuir #kuir #masculinidades #hegemoniamasculina #teoria #interseccionalidade #realismoagencial #barad #connell #butler #haraway #bourdieu #Caderno2 #desdeasmargens&#xA;&#xA;phr style=&#34;border: none; border-top: 1px solid #ff69b4;&#34;&#xD;&#xA;emPor Orlando Figueiredo, desde as margens./em/pbr---brpQueres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! br&#xD;&#xA;!--emailsub--/p]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<h2 id="como-a-masculinidade-hegemónica-produz-os-corpos-que-contam" id="como-a-masculinidade-hegemónica-produz-os-corpos-que-contam">Como a masculinidade hegemónica produz os corpos que contam</h2>

<p>A masculinidade hegemónica não descreve um tipo de homem. Descreve uma máquina. Um regime de produção que decide, em cada contexto, que corpos são reconhecidos como legítimos, que vidas merecem protecção e que existências podem aparecer no espaço público sem risco de violência. Compreender isto — que a masculinidade dominante não é uma identidade mas um aparelho — é o ponto de partida deste caderno.</p>

<p>Este texto abre o segundo caderno do Kuir Cuir. O primeiro percorreu a repressão e a resistência cuir do pós-guerra a Stonewall. Este segundo caderno, <strong>Que corpos contam?</strong>, propõe uma <strong>cuirografia de masculinidade e poder</strong> — uma escrita situada, politicamente comprometida, que interroga como a hegemonia masculina fabrica hierarquias entre corpos, entre vidas, entre formas de existir. Os textos que se seguem nasceram de um trabalho académico no âmbito de um mestrado em Estudos Interdisciplinares de Género e Sexualidade, mas precisavam de outra língua e de outra casa. A armadura institucional protegia o argumento e sufocava-o ao mesmo tempo. Este caderno é o gesto de o libertar — não para o simplificar, mas para o devolver ao lugar onde o pensamento respira melhor: <strong>nas margens</strong>.</p>

<p>Cada texto é acompanhado de uma secção de leituras que situa as referências mobilizadas; no final do caderno, uma bibliografia comentada reúne o conjunto das filiações intelectuais que sustentam esta cuirografia.</p>

<p><img src="https://i.snap.as/hACfhbWC.jpg" alt=""/></p>

<h6 id="fotografia-de-julee-juu-2026-https-unsplash-com-pt-br-julee-juu-uso-gratuito-sob-a-licença-unsplash-https-unsplash-com-pt-br-licen-c3-a7a" id="fotografia-de-julee-juu-2026-https-unsplash-com-pt-br-julee-juu-uso-gratuito-sob-a-licença-unsplash-https-unsplash-com-pt-br-licen-c3-a7a">Fotografia de <a href="https://unsplash.com/pt-br/@julee_juu">Julee Juu (2026)</a> – Uso gratuito sob a <a href="https://unsplash.com/pt-br/licen%C3%A7a">Licença Unsplash</a></h6>

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<h3 id="a-hierarquia-e-o-seu-exterior" id="a-hierarquia-e-o-seu-exterior">A hierarquia e o seu exterior</h3>

<p>A teoria das masculinidades, tal como Raewyn Connell a sistematizou na sua obra fundadora <em>Masculinities</em>, descreve a existência de uma hierarquia relacional entre diferentes formas de ser homem. No topo, a masculinidade hegemónica — não necessariamente a mais comum, nem sequer a mais visível, mas a culturalmente dominante: aquela que organiza o consenso sobre o que um homem deve ser, como deve agir, que desejos pode ter e que corpo deve habitar. A hegemonia não se impõe apenas pela força. Funciona por liderança, por persuasão, por aquilo que se apresenta como óbvio e que, por parecer óbvio, deixa de ser questionado. É poder tornado legítimo — ou, como sintetizam Richard Howson e Jeff Hearn, autoridade que resulta da fusão entre poder e legitimidade.</p>

<p>Abaixo da hegemonia, Connell identifica outras posições. As masculinidades cúmplices são aquelas que não encarnam o ideal hegemónico mas beneficiam dele — o dividendo patriarcal, como lhe chama Connell, distribui-se mesmo entre homens que nunca exercem directamente a dominação. A cumplicidade é silenciosa, confortável, quase invisível: é o homem que não agride mas que lucra com um sistema que agride por ele. As masculinidades subordinadas ocupam o polo oposto — são aquelas que a hegemonia empurra para baixo porque ameaçam a sua coerência. A masculinidade gay é o caso paradigmático: ao desligar masculinidade de heterossexualidade, expõe a contingência daquilo que a hegemonia apresenta como natural. E há ainda as masculinidades marginalizadas, estruturadas não apenas por género mas por raça, classe e nacionalidade — masculinidades que, mesmo quando heterossexuais, são excluídas do centro porque os corpos que as habitam são lidos como excesso, risco ou ameaça.</p>

<p>Esta hierarquia não é estática. A hegemonia reconfigura-se, adapta-se, absorve seletivamente aquilo que lhe convém. Masculinidades híbridas, como lhes chamam alguns autores, incorporam práticas cuir, estéticas femininas ou sensibilidades progressistas sem abdicar do privilégio estrutural — uma flexibilidade que fortalece a hegemonia precisamente por a fazer parecer mais aberta do que é. Mas o ponto decisivo, aquele que Connell e os seus leitores mais atentos sublinham, é que a masculinidade hegemónica se define sempre em relação ao seu exterior. A hegemonia precisa de masculinidades subordinadas e marginalizadas para se estabilizar. Sem o abjeto, não há legítimo. Sem a fronteira, não há centro. <strong>O exterior não é um resíduo do sistema — é a sua condição de funcionamento.</strong></p>

<p>Isto significa que a exclusão das masculinidades cuir, racializadas ou de classe popular não é uma falha da hegemonia. É o seu modo de operar. A fábrica não produz apenas o homem legítimo — produz, ao mesmo tempo, os corpos que precisam de ser excluídos para que a legitimidade se mantenha. E é esta produção simultânea do centro e das margens que faz da masculinidade hegemónica um regime de poder e não apenas uma preferência cultural.</p>

<h3 id="da-norma-à-fábrica-o-deslocamento-ontológico" id="da-norma-à-fábrica-o-deslocamento-ontológico">Da norma à fábrica: o deslocamento ontológico</h3>

<p>Dizer que a masculinidade hegemónica é uma norma cultural, um regime simbólico, uma estrutura relacional — tudo isto é verdadeiro, mas ainda não é suficiente. A leitura de Connell descreve com precisão como a hierarquia se organiza, mas tende a manter a análise no plano do discurso, das representações e das práticas culturais. É aqui que este caderno propõe um deslocamento — não para negar a dimensão cultural, mas para a radicalizar.</p>

<p>O realismo agencial de Karen Barad oferece as ferramentas para esse gesto. Para Barad, matéria e significado não existem como esferas separadas que depois se relacionam. Estão inextricavelmente fundidos: aquilo a que chamamos realidade é produzido por práticas material-discursivas que são simultaneamente físicas, institucionais, tecnológicas e normativas. <strong>Não há, de um lado, os corpos, e do outro, as normas que os classificam.</strong> Há práticas que produzem certos corpos como inteligíveis e outros como abjectos, certas vidas como reconhecíveis e outras como descartáveis. A esta produção, Barad chama materialização — e é um processo contínuo, situado e historicamente contingente.</p>

<p>Aplicar isto à masculinidade hegemónica muda radicalmente o que vemos. A hegemonia deixa de ser apenas um conjunto de ideias sobre o que um homem deve ser. Torna-se um regime de materialização: um aparelho que, através de práticas concretas — exames médicos, documentos legais, formulários administrativos, procedimentos policiais, critérios de elegibilidade, protocolos psiquiátricos —, produz alguns corpos como masculinos legítimos e outros como desviantes, insuficientes ou inexistentes. Estes aparelhos não se limitam a aplicar categorias a corpos que já existem. Participam na produção dos próprios corpos e das próprias categorias. O género não preexiste às práticas que o mobilizam — emerge delas.</p>

<p>Judith Butler já nos tinha mostrado que o género é um efeito performativo. A repetição de normas heteronormativas, a vigilância dos comportamentos, a sanção da dissidência — tudo isto produz a aparência de uma essência natural onde só há história e poder. Corpos inteligíveis e sujeitos reconhecíveis são o resultado dessa repetição, não a sua causa. O contributo de Barad radicaliza este gesto de Butler: não se trata apenas de performatividade discursiva, mas de materialização no sentido forte do termo. As normas de género não apenas regulam ou representam diferenças — participam activamente na produção material dessas diferenças. Quando um protocolo médico exige que uma pessoa trans apresente uma narrativa coerente de disforia para aceder a tratamento hormonal, não está apenas a aplicar uma norma — está a fabricar o sujeito de género que pode existir. Quando um formulário oferece apenas duas opções de sexo, não está apenas a simplificar — está a produzir um mundo em que certas existências não cabem. Quando a polícia lê um corpo racializado como ameaça e um corpo cuir como anomalia, não está apenas a interpretar — está a materializar hierarquias que se inscrevem na carne de quem as vive.</p>

<p>É esta passagem — da regulação à produção, da norma à fábrica — que distingue a leitura que este caderno propõe. <strong>A masculinidade hegemónica não representa diferenças: produz corpos como inteligíveis ou abjetos, vidas como reconhecíveis ou descartáveis, existências como legítimas ou impossíveis.</strong> E produz tudo isto não através de uma ideologia abstracta, mas através de aparelhos concretos que operam nas instituições, nas tecnologias e nas práticas quotidianas.</p>

<p>A dimensão epistemológica deste regime é igualmente decisiva. Donna Haraway, no seu ensaio fundador sobre conhecimentos situados, mostrou que todo o conhecimento é parcial, localizado, produzido a partir de corpos e posições sociais concretas. Não existe um olhar de lugar nenhum. A pretensão de objectividade universal — aquilo a que Haraway chama o truque divino — é sempre o privilégio de quem pode esconder a sua posição, de quem não precisa de se nomear porque se confunde com o padrão. <strong>O olhar que se diz neutro é, quase sempre, o olhar branco, cisgénero, heterossexual, de classe média, nacional — aquele que nunca precisa de justificar a sua perspectiva porque a tomou como sinónimo de verdade.</strong></p>

<p>Isto tem consequências directas para a análise da masculinidade hegemónica. Os dados que temos sobre discriminação, as políticas públicas que dizem combatê-la, os enquadramentos jurídicos que prometem igualdade — tudo isto é produzido a partir de posições situadas. Quando um estudo mede a discriminação com categorias estanques — homossexual, heterossexual, homem, mulher —, está a operar a partir de uma ontologia que já decidiu o que existe e o que não existe, que experiências são legíveis e quais escapam ao enquadramento. Quando uma política pública assume que a igualdade formal resolve a exclusão material, está a olhar a partir de uma posição que nunca sentiu a distância entre a lei e a vida. <strong>Reconhecer a localização do olhar não é um exercício académico — é uma condição de honestidade intelectual e de responsabilidade política.</strong></p>

<h3 id="desmontar-a-máquina" id="desmontar-a-máquina">Desmontar a máquina</h3>

<p>Integrar estas perspectivas — Connell, Barad, Butler, Haraway — permite compreender que a masculinidade hegemónica é mais do que uma norma cultural ou um regime simbólico. <strong>É um regime onto-epistémico-material: produz corpos, organiza saberes e distribui desigualmente o acesso à existência reconhecida.</strong> Quando dizemos que certos homens são subordinados ou marginalizados, não estamos apenas a descrever posições numa hierarquia de prestígio. Estamos a nomear os efeitos concretos de uma fábrica que precisa de produzir o abjeto para estabilizar o legítimo, que precisa de fronteiras para se definir, e que opera através de instituições, tecnologias e práticas quotidianas que fazem parecer natural aquilo que é histórico, contingente e politicamente produzido.</p>

<p>E é precisamente aqui que a análise muda de natureza. Se a masculinidade hegemónica fosse apenas uma norma cultural, bastaria mudá-la com educação, representação e boa vontade. Mais inclusão nos media, mais formação nas escolas, mais campanhas de sensibilização — e o problema estaria resolvido. Mas se a hegemonia é um regime material — se produz corpos, se se inscreve em instituições, se molda os próprios instrumentos com que a medimos —, então combatê-la exige outra coisa. Exige desmontar os aparelhos que a fabricam: os protocolos médicos que decidem quem é homem suficiente, os formulários que apagam existências não-binárias, os sistemas policiais que lêem raça e género como ameaça, os critérios de elegibilidade que excluem quem não cabe nas categorias dominantes. Exige interrogar quem produz conhecimento sobre género, a partir de que posição, com que instrumentos e ao serviço de que interesses. <strong>Exige recusar a neutralidade como disfarce do privilégio — porque a neutralidade, quando estamos perante um sistema que produz vidas descartáveis, é sempre cumplicidade.</strong></p>

<p><strong>E exige, sobretudo, partir dos corpos que a hegemonia descarta. Não por romantismo nem por altruismo, mas por rigor.</strong> Porque é nas margens — nos corpos que a fábrica rejeita — que se vê com mais clareza como a máquina funciona. Quem nunca precisou de provar que é homem não sabe como a masculinidade é produzida. Quem nunca sentiu o olhar policial sobre a sua pele não sabe como a raça se materializa. Quem nunca ficou de fora de um formulário não sabe o que significa ser ontologicamente excluído. O conhecimento que emerge desses corpos não é subjectivo nem anedótico — é situado, material e politicamente indispensável.</p>

<p>Os textos que se seguem neste caderno fazem exactamente esse percurso. Partem dos monstros que a masculinidade hegemónica precisa de criar, passam pela igualdade que o Estado português celebra enquanto vidas cuir ficam de fora, detêm-se num corpo negro e cuir que intensifica a sua dissidência como escudo contra a violência racial, e terminam com a pergunta sobre quem pode conhecer a discriminação — e a partir de que carne. A fábrica da masculinidade é o primeiro passo: nomear a máquina. Os seguintes tratam de a desmontar.</p>

<h3 id="leituras" id="leituras">Leituras</h3>

<p>Raewyn Connell, <em>Masculinities</em> (1995, 2.ª edição 2005). A obra fundadora da teoria das masculinidades, que introduziu os conceitos de masculinidade hegemónica, subordinada, cúmplice e marginalizada. Connell mostra que a masculinidade não é um atributo individual mas uma estrutura relacional de poder — entre homens e entre homens e mulheres. Sem este livro, o campo não existiria como o conhecemos. Leitura indispensável para qualquer análise crítica de género que recuse essencialismos.</p>

<p>Karen Barad, <em>Meeting the Universe Halfway: Quantum Physics and the Entanglement of Matter and Meaning</em> (2007). Barad propõe o realismo agencial, uma onto-epistemologia que recusa a separação entre matéria e discurso e defende que a realidade é performativa — produzida por práticas material-discursivas e não dada à partida. Uma ferramenta poderosa para compreender que as desigualdades de género não são apenas representadas, são materializadas em aparelhos concretos. Livro denso e exigente, mas que recompensa cada página.</p>

<p><em>Judith Butler, Problemas de Género: Feminismo e Subversão da Identidade</em> (1990, tradução portuguesa Orfeu Negro, 2023). Butler argumenta que o género é um efeito performativo — produzido pela repetição de normas e não pela expressão de uma essência interior. A sua crítica à naturalização do sexo e do género fundou a teoria cuir e continua a ser uma referência incontornável. A tradução portuguesa permite finalmente ler este texto fundamental na nossa língua.</p>

<p>Donna Haraway, <em>Situated Knowledges: The Science Question in Feminism and the Privilege of Partial Perspective</em> (1988). Neste ensaio seminal, Haraway defende que todo o conhecimento é parcial, localizado e produzido a partir de posições concretas. A objectividade não é a vista de lugar nenhum — é a responsabilidade de assumir de onde se olha. Leitura essencial para quem quer pensar criticamente a produção de saber sobre género e sexualidade, e para quem desconfia — com razão — da neutralidade.</p>

<p>Richard Howson e Jeff Hearn, <em>Hegemony, Hegemonic Masculinity, and Beyond</em>, in Routledge International Handbook of Masculinity Studies (2020). Uma revisão crítica do conceito de masculinidade hegemónica que sublinha a sua natureza relacional, a importância do exterior constitutivo e a articulação entre poder e legitimidade. Leitura útil para quem quer ir além da vulgata sobre masculinidade tóxica e compreender a hegemonia como estrutura, não como insulto.</p>

<p>Pierre Bourdieu, <em>La domination masculine</em> (1998). Bourdieu analisa como a dominação masculina se naturaliza através de esquemas de percepção incorporados, reproduzidos por instituições e práticas quotidianas. A violência simbólica — central nesta obra — actua precisamente por não se apresentar como violência, mas como evidência, consenso ou normalidade. Uma referência clássica que este caderno mobiliza pontualmente, mas cuja análise dos mecanismos de naturalização do poder permanece indispensável.</p>

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<em>Por Orlando Figueiredo, desde as margens.</em></p><br>---<br><p>Queres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! <br>
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      <pubDate>Sun, 08 Mar 2026 15:40:48 +0000</pubDate>
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