Que corpos contam? – Texto 2: Os monstros da masculinidade

Que corpos abjetos precisa a hegemonia de criar?


Em 1818, Mary Shelley imaginou uma criatura fabricada por mãos humanas que, no momento em que ganha vida, se torna insuportável para o seu criador. O monstro de Frankenstein não nasce monstruoso — é produzido como tal pelo olhar de quem o fez e pela recusa de quem o deveria reconhecer. Há algo nesta ficção que ilumina com precisão cirúrgica o funcionamento da masculinidade hegemónica: ela não se limita a excluir certas formas de ser homem. Precisa de as fabricar. Precisa de produzir os corpos que depois rejeita, porque sem eles não consegue definir-se. Os monstros da masculinidade não são acidentes da fábrica — são a sua condição de funcionamento.

Fotografia de Nick Andreka (2024) — Uso gratuito sob a Licença da Unsplash.

O exterior que sustenta o centro

No texto anterior, vimos como a masculinidade hegemónica opera como uma fábrica — um regime material-discursivo que produz os corpos que contam. Mas toda a fábrica produz também resíduos. Ou melhor: aquilo que o regime apresenta como resíduo é, na verdade, parte essencial da sua engenharia.

Connell mostrou que a masculinidade hegemónica não existe isoladamente. Define-se sempre em relação a outras formas de masculinidade — subordinadas, marginalizadas, cúmplices — que ocupam posições inferiores na hierarquia. Howson e Hearn desenvolvem esta ideia ao sublinharem que a hegemonia se constitui em relação ao seu exterior radical: masculinidades que, embora excluídas do centro, são componentes indispensáveis do próprio sistema. Sem o subordinado, o hegemónico não tem contra o que se medir. Sem a fronteira, o centro dissolve-se.

Esta é uma ideia que merece ser levada a sério nas suas consequências políticas. Se a exclusão das masculinidades cuir — gays, bissexuais, trans, não-conformes — não é um defeito do sistema mas a sua condição de possibilidade, então estamos perante uma arquitetura de poder que não pode ser reformada apenas por inclusão. Incluir os excluídos sem desmontar o mecanismo que os produz como excluíveis é, no limite, alimentar a máquina com combustível novo. A hegemonia absorve, recicla e prossegue.

O monstro gay: vigilância, insulto e regulação

De todas as masculinidades subordinadas, a masculinidade gay ocupa o lugar mais visível e mais estudado. E não por acaso: ao desligar masculinidade de heterossexualidade, a existência de homens gays expõe a contingência daquilo que a hegemonia apresenta como dado natural. Se é possível ser homem e desejar homens, então a equação masculinidade-heterossexualidade-dominância não é uma lei da natureza — é uma construção sócio-política. E construções sócio-políticas podem ser desmontadas.

É precisamente por isso que a masculinidade gay é tão intensamente vigiada. Como nota Tim Barrett, dada a centralidade da heterossexualidade na definição normativa de masculinidade, as masculinidades gays ocupam necessariamente o degrau mais baixo da hierarquia. Mas esta subordinação não se exerce apenas através de discriminação direta. Opera, sobretudo, através de mecanismos subtis de regulação quotidiana que disciplinam todos os homens — gays ou não.

C.J. Pascoe oferece uma das análises mais penetrantes destes mecanismos com o conceito de fag discourse. Estudando adolescentes norte-americanos, Pascoe mostra que o insulto “fag” não funciona apenas como expressão de homofobia. É uma prática regulatória de género que policia comportamentos, disposições e relações, empurrando todos os homens para dentro dos limites da masculinidade aceitável. O rapaz que mostra emoção, que se move de determinada forma, que fala com determinado tom — todos são potenciais alvos, independentemente da sua orientação sexual. O fag discourse disciplina pela ameaça: não precisas de ser gay para ser punido como se fosses.

Mas Pascoe vai mais longe. Mostra que este discurso é simultaneamente sexualizado e racializado. O insulto não atinge todos os corpos da mesma forma. As expetativas de performance masculina variam com a raça: há masculinidades que são lidas como excessivas e outras como insuficientes, conforme a cor da pele de quem as habita. Pascoe conclui que algo mais do que simples homofobia está em jogo nestas interacções — o que opera é um regime de vigilância que articula género, sexualidade e raça na produção de corpos conformes e corpos desviantes. Homens gays racializados não enfrentam apenas homofobia: enfrentam uma articulação de racismo e heteronormatividade que os posiciona simultaneamente como ameaça, fetiche ou excesso.

O monstro invisível: a bissexualidade e o paradoxo do apagamento

Se a masculinidade gay é o monstro mais visível da hegemonia, a bissexualidade masculina é o seu monstro mais paradoxal. Num regime que precisa de categorias estáveis para funcionar — heterossexual e homossexual, masculino e feminino, normal e desviante —, a bissexualidade é uma perturbação estrutural. Não porque seja ambígua, mas porque recusa os termos do jogo.

Os homens bissexuais são frequentemente representados como indecisos, hipersexuais ou incapazes de cumprir o ideal de masculinidade coerente e estável. Esta representação não é inocente: serve para neutralizar a ameaça que a bissexualidade representa para o regime binário que sustenta a hegemonia. Se é possível desejar sem se fixar numa categoria, então as categorias não são naturais — são instrumentos de poder.

O resultado, como mostra Stephen Lawton na sua investigação sobre homens bi+ e as suas relações íntimas, é um fenómeno paradoxal: hipervisibilidade estigmatizante — enquanto risco, imoralidade ou patologia — e apagamento institucional simultâneo. Os homens bissexuais estão quase ausentes dos discursos de saúde pública, das políticas específicas, da representação mediática e mesmo dos espaços de organização cuir. A hegemonia não precisa apenas de estigmatizar os homens bissexuais — precisa de os tornar invisíveis, porque a sua existência desestabiliza a lógica binária que sustenta todo o edifício.

As hierarquias de masculinidade reforçam categorias estáveis e marginalizam identidades que desafiam binarismos. A bissexualidade masculina é, neste sentido, duplamente monstruosa: monstruosa para a hegemonia heterossexual, porque recusa a heterossexualidade compulsória; e monstruosa para certos setores da própria comunidade cuir, porque recusa a estabilidade identitária que facilita a organização política. O monstro invisível é aquele que nenhum campo reivindica inteiramente.

O monstro fabricado na carne: transmasculinidade e os aparelhos de produção de género

Se há experiências que tornam visível, de forma particularmente crua, que a masculinidade não é um dado natural mas um produto de aparelhos institucionais, são as experiências de homens trans. Não porque a transmasculinidade seja mais artificial do que a masculinidade cisgénero — pelo contrário: é precisamente por tornar visíveis os mecanismos de produção que a hegemonia trabalha para esconder que ela se torna tão perturbadora para a ordem estabelecida.

Henry Rubin demonstrou que o acesso à masculinidade trans depende da conformidade com regimes médico-psiquiátricos que exigem narrativas coerentes de género e avaliações externas de legitimidade. Para ser reconhecido como homem, um homem trans precisa de convencer gatekeepers institucionais — médicos, psicólogos, comissões — de que a sua masculinidade é suficientemente real, suficientemente estável, suficientemente conforme ao modelo esperado. Este ónus de prova não recai sobre homens cisgénero. A masculinidade cis é presumida; a masculinidade trans é interrogada, avaliada e condicionalmente concedida.

Como sublinha Rubin, as práticas médicas e psiquiátricas não se limitam a responder a identidades trans — participam ativamente na produção dos sujeitos de género que podem existir. Exames médicos, avaliações psicológicas, documentação legal e práticas de vigilância institucional operam como verdadeiros aparelhos de produção de género, no sentido que Karen Barad dá ao conceito: dispositivos material-discursivos que não apenas classificam corpos mas os fabricam enquanto inteligíveis ou abjetos.

Jamison Green aprofunda esta análise ao mostrar que a masculinidade trans é frequentemente condicionada pela passabilidade — a capacidade de ser lido como homem cisgénero — e pelo acesso desigual a tecnologias corporais. O reconhecimento é contingente e reversível: depende de recursos económicos, de contextos geográficos, de raça, de classe. Um homem trans branco e de classe média que “passa” acede a um estatuto masculino que permanece vedado a homens trans racializados, pobres ou sem acesso a cuidados de saúde. A masculinidade trans surge assim, como sintetizam Miriam Abelson e Tristan Kade, não apenas como culturalmente contestada, mas como materialmente produzida enquanto vulnerável por um conjunto de dispositivos que regulam o acesso ao estatuto masculino legitimado. Os corpos são lugares cruciais onde a masculinidade se materializa — e onde a exclusão se inscreve.

Os monstros dentro de casa

Seria reconfortante pensar que a masculinidade hegemónica opera apenas de fora — como força externa que oprime comunidades cuir unidas na resistência. Mas a realidade é mais incómoda. Como Connell argumenta, a hegemonia não atua apenas do exterior: é reproduzida dentro das próprias comunidades LGBT+.

Padrões hegemónicos de masculinidade — branquitude, musculosidade, classe média, estética normativamente masculina — estruturam o desejo, o reconhecimento e a pertença em espaços gays. As hierarquias não desaparecem quando se entra num bar cuir ou se abre uma app de encontros. Reconfiguram-se. Homens gays racializados são fetichizados ou excluídos. Homens trans são frequentemente invisibilizados ou questionados enquanto homens suficientes. Homens bissexuais enfrentam suspeição e gatekeeping. Homens pobres ou migrantes são excluídos de espaços cuir estruturados por capital económico e cultural.

A leitura de Barad permite compreender que estas exclusões não são meros efeitos culturais ou falhas individuais de sensibilidade. São intra-acções — práticas material-discursivas que produzem materialmente quem conta como parte da comunidade e quem é produzido como figura liminar, tolerada mas não plenamente reconhecida. A hegemonia infiltra-se nos espaços de resistência e reorganiza-os segundo a sua lógica. Desmontar a máquina não basta fora de portas: é preciso reconhecê-la dentro de casa.

Os monstros como matéria política

As masculinidades cuir — gays, bissexuais, trans, não-conformes — ocupam uma posição paradoxal na arquitetura da hegemonia. São simultaneamente indispensáveis e descartáveis. A hegemonia precisa delas para se definir, mas precisa igualmente de as manter à distância para se estabilizar. Sem o abjeto, não há legitimo.

Funcionam, em primeiro lugar, como fronteira simbólica — aquilo que a masculinidade legítima não deve ser. Em segundo lugar, como recurso disciplinar — o insulto, o medo, a ameaça de ser lido como menos-homem. Em terceiro lugar, como matéria política — corpos que, pela sua existência, tornam visível a contingência da hegemonia, o facto de que o edifício inteiro poderia ser de outro modo. E em quarto lugar, na leitura que Barad permite, como efeitos material-discursivos que emergem de aparelhos institucionais, tecnológicos e discursivos — não como identidades pré-existentes que são depois discriminadas, mas como posições produzidas pelos próprios dispositivos de poder que as excluem.

É esta última dimensão que torna os monstros da masculinidade politicamente perigosos — não apenas para quem os habita, mas para o próprio regime que os fabrica. Se as masculinidades cuir não são resíduos naturais de um sistema que funciona bem, mas produtos necessários de um regime que precisa de exclusão para se manter, então cada corpo cuir é uma prova viva de que a máquina é contingente, histórica e desmontável.

Mary Shelley sabia-o há mais de dois séculos: o monstro não é o problema. O problema é a fábrica que o produz — e o criador que recusa reconhecer a sua obra.


Leituras

Raewyn Connell, Masculinities (1995, 2.ª edição 2005). A obra de referência para compreender a hierarquia das masculinidades e o conceito de masculinidade hegemónica. Connell mostra que a subordinação de certas masculinidades não é um efeito lateral, mas uma condição estrutural do sistema. Indispensável para quem quer pensar as masculinidades cuir como questão política e não apenas identitária.

C.J. Pascoe, 'Dude, You're a Fag': Adolescent Masculinity and the Fag Discourse (2005). Um estudo etnográfico decisivo que mostra como o insulto homofóbico funciona como prática regulatória de género, disciplinando todos os homens — e não apenas os gays. Pascoe revela que o fag discourse é simultaneamente sexualizado e racializado, oferecendo uma leitura interseccional do policiamento da masculinidade.

C.J. Pascoe e Tristan Bridges, Fag Discourse in a Post-Homophobic Era (2018). Uma atualização do conceito de fag discourse que analisa como a regulação da masculinidade persiste mesmo em contextos aparentemente mais tolerantes. A tolerância liberal não elimina a vigilância — reconfigura-a.

Tim Barrett, Multiple Forms of Masculinity in Gay Male Subcultures (2020). Barrett analisa a pluralidade de masculinidades dentro das subculturas gays, mostrando que a subordinação não é homogénea. Diferentes formas de masculinidade gay articulam-se com raça, classe e estética corporal de modos que reproduzem hierarquias internas.

Stephen Lawton, Bi+ Men and Their Intimate Partners: Sexual Identities, Intimate Relationships and Binegativity (2023). A investigação de Lawton sobre homens bi+ e as suas relações é um dos poucos trabalhos que leva a sério a especificidade da experiência bissexual masculina, mostrando como a binegatividade opera tanto nos espaços heteronormativos como nos espaços cuir.

Henry Rubin, The Logic of Treatment: Transsexuality, Medicine, and the Medical Model (2006). Rubin demonstra como o sistema médico-psiquiátrico não se limita a responder às identidades trans — participa na sua produção, definindo quem pode existir como sujeito de género legítimo. Uma leitura essencial para compreender a transmasculinidade como fenómeno materialmente produzido.

Jamison Green, Look! No, Don't! The Visibility Dilemma for Transsexual Men (2006). Green aborda o dilema da visibilidade trans masculina: ser visível expõe à violência, ser invisível apaga a existência. A passabilidade, longe de ser um privilégio simples, é um campo minado de classe, raça e acesso desigual a tecnologias corporais.

Miriam Abelson e Tristan Kade, Trans Masculinities (2020). Uma síntese contemporânea que sublinha que os corpos são lugares cruciais onde a masculinidade se materializa, articulando experiências trans com teoria feminista e estudos críticos de masculinidade.

Karen Barad, Meeting the Universe Halfway (2007) e TransMaterialities (2022). Barad oferece as ferramentas ontológicas para compreender que as masculinidades cuir não são identidades pré-existentes que são depois discriminadas, mas posições produzidas por práticas material-discursivas. TransMaterialities aprofunda esta leitura no campo específico das existências trans.


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Por Orlando Figueiredo, desde as margens.


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