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    <title>autodeterminação &amp;mdash; Kuir - cultura e inspiração Cuir</title>
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    <description>Pensar cuir desde as margens. Escrever contra a norma.&lt;br&gt;&lt;b&gt;Orlando Figueiredo&lt;/b&gt;&lt;br&gt; &lt;a href=&#34;mailto:queerlab@kuircuir.pt&#34;&gt;queerlab@kuircuir.pt&lt;/a&gt;</description>
    <pubDate>Sat, 25 Apr 2026 14:46:56 +0000</pubDate>
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      <title>autodeterminação &amp;mdash; Kuir - cultura e inspiração Cuir</title>
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      <title>A direita portuguesa vem buscar os nossos corpos</title>
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      <description>&lt;![CDATA[A repatologização como projecto político: quando a direita se une contra a autodeterminação.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;No dia 19 de março, a Assembleia da República vai decidir se Portugal continua a reconhecer que as pessoas trans existem sem pedir licença à medicina.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;No próximo dia 19 de março, três partidos da direita portuguesa — Chega, PSD e CDS-PP — vão levar à Assembleia da República projectos de lei cujo objectivo é um só: desmantelar a Lei n.º 38/2018, que consagra o direito à autodeterminação da identidade de género. Não são três iniciativas independentes. É uma ofensiva coordenada contra a existência jurídica das pessoas trans em Portugal. E é preciso chamá-la pelo nome.&#xA;&#xA;Bandeira Trans - Identidade e Direito. A luta pela autodeterminação de género em Portugal enfrenta uma nova ofensiva parlamentar. | Fotografia de Lena Balk (2020) – Uso gratuito sob a Licença da Unsplash&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;O Chega quer a revogação pura e simples da lei e o regresso a um modelo de diagnóstico clínico obrigatório. O PSD, pela mão de Hugo Soares — o mesmo que em 2015 propôs um referendo sobre a adopção por casais homossexuais e que, dias antes deste debate, não hesitou em invocar cinicamente os direitos das minorias e das mulheres para justificar o apoio cobarde de Portugal ao ataque dos EUA ao Irão —, apresenta um projecto que restaura o regime da Lei n.º 7/2011, devolvendo a profissionais de saúde o poder de decidir quem pode ou não alterar a menção do sexo no registo civil.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;https://youtu.be/-FfDmGOBPg8&#xA;&#xA;Entre as Lajes e a Lei 38: A Hipocrisia Homonacionalista de Hugo Soares&#xA;&#xA;Um exemplo claro de retórica homonacionalista, onde Hugo Soares (PSD) invoca a proteção de mulheres e minorias no Irão para legitimar o apoio militar aos EUA , contrastando com a ofensiva contra a autodeterminação de género em Portugal agendada para 19 de março.&#xA;&#xA;Extrato da Reunião Plenária de 4 de março de 2026. Intervenção: Hugo Soares (PSD) sobre o apoio logístico aos EUA e a condenação do regime iraniano em nome das mulheres e minorias. | Duração do corte: 23 segundos (De 00:27:24 — 00:27:47). | Fonte Original: Canal Parlamento - Reunião Plenária de 04/03/2026&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;A hipocrisia é cirúrgica: os direitos das minorias servem para justificar uma guerra, mas não para proteger pessoas trans em Portugal. O CDS-PP, por sua vez, quer proibir a prescrição de bloqueadores hormonais a menores de 18 anos em contexto de incongruência de género. Três projectos, um só gesto: retirar às pessoas trans o direito de se nomearem a si mesmas.&#xA;&#xA;Sejamos precisos. A alteração da menção do sexo no registo civil é um acto administrativo. Não implica cirurgias. Não implica tratamentos hormonais. Não implica qualquer procedimento médico. É papel. É reconhecimento jurídico. E é exactamente isso que a direita quer condicionar. A confusão deliberada entre reconhecimento legal e intervenção clínica é a grande mentira desta ofensiva. Quem a repete sabe o que está a fazer.&#xA;&#xA;Reintroduzir a exigência de diagnóstico clínico significa, na prática, obrigar pessoas trans a provar perante um painel de especialistas que a sua identidade é real. Significa devolver ao poder médico a capacidade de validar ou recusar a existência jurídica de alguém. Paul B. Preciado chamou a isto farmacopolítica: o Estado como regulador dos corpos dissidentes, distribuindo ou negando o acesso à identidade conforme critérios que não são científicos — são disciplinares. Judith Butler, há mais de três décadas, demonstrou que o género não é uma essência que a medicina possa certificar — é uma construção performativa que o poder reitera ou pune. Exigir um diagnóstico é precisamente reiterar a ficção de um género verdadeiro, acessível apenas por validação institucional.&#xA;&#xA;A ciência fala contra a direita. E fala em português. A Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica emitiu um parecer técnico-científico sobre o projecto do Chega que não deixa margem para dúvidas: a iniciativa assenta em premissas que contradizem o consenso clínico internacional. Chamar ideologia à disforia de género, como faz o Chega, é negacionismo científico. A Organização Mundial de Saúde retirou a incongruência de género da categoria de perturbações mentais na CID-11. O parecer da SPSC vai mais longe e recorda que as dificuldades de saúde mental observadas em pessoas trans estão associadas ao estigma social e ao minority stress — não à identidade de género em si. Traduzindo: o problema não é ser trans. O problema é o que a sociedade faz a quem é trans. Legislar para aumentar o estigma é legislar para aumentar o sofrimento. Quem apresenta estes projectos de lei sabe-o — e fá-lo na mesma, porque o sofrimento das pessoas trans é rentável eleitoralmente.&#xA;&#xA;Há um silêncio na proposta do PSD que merece ser nomeado. O projecto não faz qualquer referência às protecções relativas a pessoas intersexo menores de idade previstas na lei actual. A Lei n.º 38/2018 estabelece que, salvo risco comprovado para a saúde, intervenções cirúrgicas ou farmacológicas que modifiquem as características sexuais de menores intersexo não devem ser realizadas até que a pessoa possa manifestar a sua identidade de género. O PSD apaga esta disposição. O silêncio institucional sobre os corpos intersexo é sempre cúmplice da violência cirúrgica exercida sobre crianças cujos corpos não cabem na norma binária. Omitir não é esquecer. É autorizar.&#xA;&#xA;Nada disto acontece no vazio. O relatório anual da ILGA-Europe de 2026 é categórico: a Europa entrou numa nova fase de regressão democrática. O que antes eram ataques pontuais contra pessoas LGBTI+ é agora política estruturada — limitação de direitos, criminalização, silenciamento. A Geórgia equipara relações homossexuais ao incesto. A Rússia classifica o movimento LGBTI+ como extremista. O Reino Unido redefine legalmente o conceito de mulher com base no sexo biológico. A administração Trump revoga protecções contra a discriminação de pessoas trans. É nesta companhia que a direita portuguesa quer colocar o país.&#xA;&#xA;Mas há uma contra-corrente — e a direita portuguesa está do lado errado dela. Em fevereiro de 2026, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução que recomenda o reconhecimento pleno das mulheres trans como mulheres, considerando a sua inclusão essencial para a eficácia das políticas de igualdade de género: 340 votos a favor, 141 contra, 68 abstenções. A extrema-direita e os conservadores ficaram em minoria. A resolução abrange ainda a protecção mais ampla de todas as pessoas LGBTIQ+, exigindo que a UE assuma a liderança na luta contra os movimentos antigénero. A Comissão Europeia lançou uma nova estratégia de igualdade LGBTIQ+ para 2026-2030 que nomeia explicitamente mulheres e homens trans. Enquanto a Europa institucional reconhece, a direita portuguesa quer revogar. Enquanto o Parlamento Europeu vota pela dignidade, o parlamento português agenda o retrocesso.&#xA;&#xA;Do lado esquerdo do hemiciclo, o Bloco de Esquerda apresentou, pela mão de Fabian Figueiredo, um projecto que visa reforçar a aplicação da Lei n.º 38/2018 — orientações para escolas, formação para profissionais, mecanismos de apoio a estudantes trans. É necessário. Mas não basta. Dean Spade tem argumentado que os sistemas administrativos de classificação de género são, por natureza, mecanismos de controlo — e que a luta pela autodeterminação não se ganha apenas nos parlamentos. Ganha-se nas ruas, nas escolas, nos locais de trabalho, em cada espaço onde um corpo dissidente é forçado a justificar a sua existência.&#xA;&#xA;O debate de 19 de março não é sobre procedimentos administrativos. É sobre quem tem o poder de definir quem somos. A direita portuguesa, colada numa ofensiva que vai de Budapeste a Washington, quer devolver esse poder ao Estado, à medicina e à norma. A nossa resposta é a mesma de sempre: os nossos corpos, a nossa palavra e a recusa absoluta de pedir licença para existir.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Projeto de Lei do Chega (CH): Objetivo: Revogação total da lei atual e regresso ao modelo de diagnóstico clínico obrigatório. Link/Referência: Projeto de Lei n.º 391/XVI/1.ª - Revogação da Lei n.º 38/2018.2.&#xA;&#xA;Projeto de Lei do PSDObjetivo: Restaurar o regime da Lei n.º 7/2011, exigindo que profissionais de saúde validem a alteração do sexo no registo civil. O artigo nota ainda que este projeto omite as proteções para pessoas intersexo.Link/Referência: Projeto de lei n.º 486/XVII/1ª - Alteração ao regime jurídico da identidade de género.&#xA;&#xA;Projeto de Lei do CDS-PPObjetivo: Proibir a prescrição de bloqueadores hormonais a menores de 18 anos em contexto de incongruência de género.Link/Referência: Projeto de Lei n.º 479/XVI/1.ª - Proteção de menores em cuidados de saúde de género.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;#cuir #kuir #trans #autodeterminação #lei38 #direitostrans #portugal #assembleia #repatologização #SPSC #intersexo #LGBTI #feminismo #descolonial&#xA;&#xA;phr style=&#34;border: none; border-top: 1px solid #ff69b4;&#34;&#xD;&#xA;emPor Orlando Figueiredo, desde as margens./em/pbr---brpQueres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! br&#xD;&#xA;!--emailsub--/p]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<h3 id="a-repatologização-como-projecto-político-quando-a-direita-se-une-contra-a-autodeterminação" id="a-repatologização-como-projecto-político-quando-a-direita-se-une-contra-a-autodeterminação">A repatologização como projecto político: quando a direita se une contra a autodeterminação.</h3>

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<p>No dia 19 de março, a Assembleia da República vai decidir se Portugal continua a reconhecer que as pessoas trans existem sem pedir licença à medicina.</p>

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<p>No próximo dia 19 de março, três partidos da direita portuguesa — Chega, PSD e CDS-PP — vão levar à Assembleia da República projectos de lei cujo objectivo é um só: desmantelar a <a href="https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/lei/38-2018-115933863">Lei n.º 38/2018</a>, que consagra o direito à autodeterminação da identidade de género. Não são três iniciativas independentes. É uma ofensiva coordenada contra a existência jurídica das pessoas trans em Portugal. E é preciso chamá-la pelo nome.</p>

<p><img src="https://i.snap.as/JQErTxDF.jpg" alt=""/></p>

<h6 id="bandeira-trans-identidade-e-direito-a-luta-pela-autodeterminação-de-género-em-portugal-enfrenta-uma-nova-ofensiva-parlamentar-fotografia-de-lena-balk-2020-uso-gratuito-sob-a-licença-da-unsplash-https-unsplash-com-pt-br-licen-c3-a7a" id="bandeira-trans-identidade-e-direito-a-luta-pela-autodeterminação-de-género-em-portugal-enfrenta-uma-nova-ofensiva-parlamentar-fotografia-de-lena-balk-2020-uso-gratuito-sob-a-licença-da-unsplash-https-unsplash-com-pt-br-licen-c3-a7a">Bandeira Trans – Identidade e Direito. A luta pela autodeterminação de género em Portugal enfrenta uma nova ofensiva parlamentar. | Fotografia de <strong>Lena Balk</strong> (2020) – Uso gratuito sob a <a href="https://unsplash.com/pt-br/licen%C3%A7a">Licença da Unsplash</a></h6>

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<p>O Chega quer a revogação pura e simples da lei e o regresso a um modelo de diagnóstico clínico obrigatório. O PSD, pela mão de Hugo Soares — o mesmo que em 2015 propôs um referendo sobre a adopção por casais homossexuais e que, dias antes deste debate, não hesitou em invocar cinicamente os direitos das minorias e das mulheres para justificar o apoio cobarde de Portugal ao ataque dos EUA ao Irão —, apresenta um projecto que restaura o regime da <a href="https://diariodarepublica.pt/dr/legislacao-consolidada/lei/2011-34463375">Lei n.º 7/2011</a>, devolvendo a profissionais de saúde o poder de decidir quem pode ou não alterar a menção do sexo no registo civil.</p>

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<p><iframe allow="monetization" class="embedly-embed" src="//cdn.embedly.com/widgets/media.html?src=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fembed%2F-FfDmGOBPg8%3Ffeature%3Doembed&display_name=YouTube&url=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3D-FfDmGOBPg8&image=https%3A%2F%2Fi.ytimg.com%2Fvi%2F-FfDmGOBPg8%2Fhqdefault.jpg&type=text%2Fhtml&schema=youtube" width="640" height="360" scrolling="no" title="YouTube embed" frameborder="0" allow="autoplay; fullscreen; encrypted-media; picture-in-picture;" allowfullscreen="true"></iframe></p>

<h6 id="entre-as-lajes-e-a-lei-38-a-hipocrisia-homonacionalista-de-hugo-soares" id="entre-as-lajes-e-a-lei-38-a-hipocrisia-homonacionalista-de-hugo-soares">Entre as Lajes e a Lei 38: A Hipocrisia Homonacionalista de Hugo Soares</h6>

<h6 id="um-exemplo-claro-de-retórica-homonacionalista-onde-hugo-soares-psd-invoca-a-proteção-de-mulheres-e-minorias-no-irão-para-legitimar-o-apoio-militar-aos-eua-contrastando-com-a-ofensiva-contra-a-autodeterminação-de-género-em-portugal-agendada-para-19-de-março" id="um-exemplo-claro-de-retórica-homonacionalista-onde-hugo-soares-psd-invoca-a-proteção-de-mulheres-e-minorias-no-irão-para-legitimar-o-apoio-militar-aos-eua-contrastando-com-a-ofensiva-contra-a-autodeterminação-de-género-em-portugal-agendada-para-19-de-março">Um exemplo claro de retórica <strong>homonacionalista</strong>, onde Hugo Soares (PSD) invoca a proteção de mulheres e minorias no Irão para legitimar o apoio militar aos EUA , contrastando com a ofensiva contra a autodeterminação de género em Portugal agendada para 19 de março.</h6>

<h6 id="extrato-da-reunião-plenária-de-4-de-março-de-2026-intervenção-hugo-soares-psd-sobre-o-apoio-logístico-aos-eua-e-a-condenação-do-regime-iraniano-em-nome-das-mulheres-e-minorias-duração-do-corte-23-segundos-de-00-27-24-00-27-47-fonte-original-canal-parlamento-reunião-plenária-de-04-03-2026-https-canal-parlamento-pt-cid-9222-reuniao-plenaria" id="extrato-da-reunião-plenária-de-4-de-março-de-2026-intervenção-hugo-soares-psd-sobre-o-apoio-logístico-aos-eua-e-a-condenação-do-regime-iraniano-em-nome-das-mulheres-e-minorias-duração-do-corte-23-segundos-de-00-27-24-00-27-47-fonte-original-canal-parlamento-reunião-plenária-de-04-03-2026-https-canal-parlamento-pt-cid-9222-reuniao-plenaria"><strong>Extrato da Reunião Plenária de 4 de março de 2026.</strong> <strong>Intervenção:</strong> Hugo Soares (PSD) sobre o apoio logístico aos EUA e a condenação do regime iraniano em nome das mulheres e minorias. | Duração do corte: 23 segundos (De 00:27:24 — 00:27:47). | <strong>Fonte Original:</strong> <a href="https://canal.parlamento.pt/cid/9222/reuniao-plenaria">Canal Parlamento – Reunião Plenária de 04/03/2026</a></h6>

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<p>A hipocrisia é cirúrgica: os direitos das minorias servem para justificar uma guerra, mas não para proteger pessoas trans em Portugal. O CDS-PP, por sua vez, quer proibir a prescrição de bloqueadores hormonais a menores de 18 anos em contexto de incongruência de género. Três projectos, um só gesto: retirar às pessoas trans o direito de se nomearem a si mesmas.</p>

<p>Sejamos precisos. A alteração da menção do sexo no registo civil é um acto administrativo. Não implica cirurgias. Não implica tratamentos hormonais. Não implica qualquer procedimento médico. É papel. É reconhecimento jurídico. E é exactamente isso que a direita quer condicionar. A confusão deliberada entre reconhecimento legal e intervenção clínica é a grande mentira desta ofensiva. Quem a repete sabe o que está a fazer.</p>

<p>Reintroduzir a exigência de diagnóstico clínico significa, na prática, obrigar pessoas trans a provar perante um painel de especialistas que a sua identidade é real. Significa devolver ao poder médico a capacidade de validar ou recusar a existência jurídica de alguém. Paul B. Preciado chamou a isto farmacopolítica: o Estado como regulador dos corpos dissidentes, distribuindo ou negando o acesso à identidade conforme critérios que não são científicos — são disciplinares. Judith Butler, há mais de três décadas, demonstrou que o género não é uma essência que a medicina possa certificar — é uma construção performativa que o poder reitera ou pune. Exigir um diagnóstico é precisamente reiterar a ficção de um género verdadeiro, acessível apenas por validação institucional.</p>

<p>A ciência fala contra a direita. E fala em português. A Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica emitiu um parecer técnico-científico sobre o projecto do Chega que não deixa margem para dúvidas: a iniciativa assenta em premissas que contradizem o consenso clínico internacional. Chamar ideologia à disforia de género, como faz o Chega, é negacionismo científico. A Organização Mundial de Saúde retirou a incongruência de género da categoria de perturbações mentais na <a href="https://icd.who.int/pt/">CID-11</a>. O <a href="https://spsc.pt/index.php/parecer-tecnico-cientifico-da-sociedade-portuguesa-de-sexologia-clinica/">parecer da SPSC</a> vai mais longe e recorda que as dificuldades de saúde mental observadas em pessoas trans estão associadas ao estigma social e ao minority stress — não à identidade de género em si. Traduzindo: o problema não é ser trans. O problema é o que a sociedade faz a quem é trans. Legislar para aumentar o estigma é legislar para aumentar o sofrimento. Quem apresenta estes projectos de lei sabe-o — e fá-lo na mesma, porque o sofrimento das pessoas trans é rentável eleitoralmente.</p>

<p>Há um silêncio na proposta do PSD que merece ser nomeado. O projecto não faz qualquer referência às protecções relativas a pessoas intersexo menores de idade previstas na lei actual. A <a href="https://diariodarepublica.pt/dr/legislacao-consolidada/lei/2018-115935378">Lei n.º 38/2018</a> estabelece que, salvo risco comprovado para a saúde, intervenções cirúrgicas ou farmacológicas que modifiquem as características sexuais de menores intersexo não devem ser realizadas até que a pessoa possa manifestar a sua identidade de género. O PSD apaga esta disposição. O silêncio institucional sobre os corpos intersexo é sempre cúmplice da violência cirúrgica exercida sobre crianças cujos corpos não cabem na norma binária. Omitir não é esquecer. É autorizar.</p>

<p>Nada disto acontece no vazio. O relatório anual da <a href="https://www.ilga-europe.org/report/annual-review-2026/">ILGA-Europe de 2026</a> é categórico: a Europa entrou numa nova fase de regressão democrática. O que antes eram ataques pontuais contra pessoas LGBTI+ é agora política estruturada — limitação de direitos, criminalização, silenciamento. A Geórgia equipara relações homossexuais ao incesto. A Rússia classifica o movimento LGBTI+ como extremista. O Reino Unido redefine legalmente o conceito de mulher com base no sexo biológico. A administração Trump revoga protecções contra a discriminação de pessoas trans. É nesta companhia que a direita portuguesa quer colocar o país.</p>

<p>Mas há uma contra-corrente — e a direita portuguesa está do lado errado dela. Em fevereiro de 2026, o Parlamento Europeu aprovou uma <a href="https://www.europarl.europa.eu/doceo/document/A-10-2026-0010_PT.html">resolução</a> que recomenda o reconhecimento pleno das mulheres trans como mulheres, considerando a sua inclusão essencial para a eficácia das políticas de igualdade de género: 340 votos a favor, 141 contra, 68 abstenções. A extrema-direita e os conservadores ficaram em minoria. A resolução abrange ainda a protecção mais ampla de todas as pessoas LGBTIQ+, exigindo que a UE assuma a liderança na luta contra os movimentos antigénero. A Comissão Europeia lançou uma nova estratégia de igualdade LGBTIQ+ para 2026-2030 que nomeia explicitamente mulheres e homens trans. Enquanto a Europa institucional reconhece, a direita portuguesa quer revogar. Enquanto o Parlamento Europeu vota pela dignidade, o parlamento português agenda o retrocesso.</p>

<p>Do lado esquerdo do hemiciclo, o Bloco de Esquerda apresentou, pela mão de Fabian Figueiredo, um projecto que visa reforçar a aplicação da <a href="https://diariodarepublica.pt/dr/legislacao-consolidada/lei/2018-115935378">Lei n.º 38/2018</a> — orientações para escolas, formação para profissionais, mecanismos de apoio a estudantes trans. É necessário. Mas não basta. Dean Spade tem argumentado que os sistemas administrativos de classificação de género são, por natureza, mecanismos de controlo — e que a luta pela autodeterminação não se ganha apenas nos parlamentos. Ganha-se nas ruas, nas escolas, nos locais de trabalho, em cada espaço onde um corpo dissidente é forçado a justificar a sua existência.</p>

<p>O debate de 19 de março não é sobre procedimentos administrativos. É sobre quem tem o poder de definir quem somos. A direita portuguesa, colada numa ofensiva que vai de Budapeste a Washington, quer devolver esse poder ao Estado, à medicina e à norma. A nossa resposta é a mesma de sempre: os nossos corpos, a nossa palavra e a recusa absoluta de pedir licença para existir.</p>

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<ol><li><p>Projeto de Lei do Chega (CH): Objetivo: Revogação total da lei atual e regresso ao modelo de diagnóstico clínico obrigatório. Link/Referência: <a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=346025">Projeto de Lei n.º 391/XVI/1.ª – Revogação da Lei n.º 38/2018.2.</a></p></li>

<li><p>Projeto de Lei do PSDObjetivo: Restaurar o regime da Lei n.º 7/2011, exigindo que profissionais de saúde validem a alteração do sexo no registo civil. O artigo nota ainda que este projeto omite as proteções para pessoas intersexo.Link/Referência: <a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=356298">Projeto de lei n.º 486/XVII/1ª – Alteração ao regime jurídico da identidade de género</a>.</p></li>

<li><p>Projeto de Lei do CDS-PPObjetivo: Proibir a prescrição de bloqueadores hormonais a menores de 18 anos em contexto de incongruência de género.Link/Referência: <a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=356287&amp;utm_source=chatgpt.com">Projeto de Lei n.º 479/XVI/1.ª – Proteção de menores em cuidados de saúde de género.</a></p></li></ol>

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<p><a href="https://kuircuir.pt/tag:cuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">cuir</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:kuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">kuir</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:trans" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">trans</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:autodetermina%C3%A7%C3%A3o" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">autodeterminação</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lei38" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lei38</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:direitostrans" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">direitostrans</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:portugal" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">portugal</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:assembleia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">assembleia</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:repatologiza%C3%A7%C3%A3o" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">repatologização</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:SPSC" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">SPSC</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:intersexo" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">intersexo</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:LGBTI" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">LGBTI</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:feminismo" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">feminismo</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:descolonial" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">descolonial</span></a></p>

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<em>Por Orlando Figueiredo, desde as margens.</em></p><br>---<br><p>Queres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! <br>
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      <pubDate>Tue, 10 Mar 2026 22:17:02 +0000</pubDate>
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