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    <title>ontoepistemologia &amp;mdash; Kuir - cultura e inspiração Cuir</title>
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    <description>Pensar cuir desde as margens. Escrever contra a norma.&lt;br&gt;&lt;b&gt;Orlando Figueiredo&lt;/b&gt;&lt;br&gt; &lt;a href=&#34;mailto:queerlab@kuircuir.pt&#34;&gt;queerlab@kuircuir.pt&lt;/a&gt;</description>
    <pubDate>Wed, 22 Jul 2026 22:59:35 +0000</pubDate>
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      <title>ontoepistemologia &amp;mdash; Kuir - cultura e inspiração Cuir</title>
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      <title>Que corpos contam? – Texto 6: Leituras</title>
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      <description>&lt;![CDATA[---&#xA;&#xA;Uma bibliografia comentada do caderno&#xA;&#xA;Este caderno não escolheu as suas referências por acaso. Cada texto aqui mobilizado representa uma filiação intelectual e política — uma escolha sobre quem merece ser lido, citado e colocado em diálogo. A teoria das masculinidades de Connell, o realismo agencial de Barad, a intersecionalidade de Crenshaw, os conhecimentos situados de Haraway, o testemunho de Vincent — são vozes que vêm de tradições diferentes, de posições diferentes, de corpos diferentes. O que as une é a recusa da neutralidade: todas partem de algum lugar, todas têm uma posição, todas produzem conhecimento a partir de uma aposta política sobre o que importa pensar e por quê.&#xA;&#xA;Esta bibliografia é também uma cuirografia — uma escrita situada das leituras que tornaram este caderno possível. Não é exaustiva. É honesta.&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;Teoria das masculinidades&#xA;&#xA;Raewyn Connell, Masculinities (1995, 2.ª edição 2005). A obra fundadora da teoria das masculinidades. Connell introduziu os conceitos de masculinidade hegemónica, subordinada, cúmplice e marginalizada, mostrando que a masculinidade é uma estrutura relacional de poder e não um atributo individual. Indispensável — e incontornável para qualquer análise que recuse essencialismos.&#xA;&#xA;Richard Howson e Jeff Hearn, Hegemony, Hegemonic Masculinity, and Beyond, in Routledge International Handbook of Masculinity Studies (2020). Uma revisão crítica do conceito de masculinidade hegemónica que sublinha a sua natureza relacional e a centralidade do exterior constitutivo. Útil para compreender a hegemonia como estrutura dinâmica e não como categoria estática.&#xA;&#xA;C.J. Pascoe, Dude, You&#39;re a Fag: Adolescent Masculinity and the Fag Discourse (2005). Um estudo etnográfico decisivo que mostra como o insulto homofóbico funciona como prática regulatória de género que disciplina todos os homens — e não apenas os gays. A análise interseccional de Pascoe revela que o fag discourse articula simultaneamente género, sexualidade e raça.&#xA;&#xA;C.J. Pascoe e Tristan Bridges, Fag Discourse in a Post-Homophobic Era (2018). Atualização do conceito que analisa como a regulação da masculinidade persiste e se reconfigura mesmo em contextos aparentemente mais tolerantes. A tolerância liberal não elimina a vigilância — transforma-a.&#xA;&#xA;Tim Barrett, Multiple Forms of Masculinity in Gay Male Subcultures (2020). Barrett analisa a pluralidade de masculinidades dentro das subculturas gays, mostrando que a subordinação não é homogénea e que as hierarquias internas às comunidades cuir articulam raça, classe e estética corporal.&#xA;&#xA;Stephen Lawton, Bi+ Men and Their Intimate Partners: Sexual Identities, Intimate Relationships and Binegativity (2023). Um dos poucos trabalhos que leva a sério a especificidade da experiência bissexual masculina, mostrando como a binegatividade opera tanto nos espaços heteronormativos como nos espaços cuir. A invisibilidade não é ausência — é produção ativa.&#xA;&#xA;Henry Rubin, The Logic of Treatment: Transsexuality, Medicine, and the Medical Model (2006). Rubin demonstra como o sistema médico-psiquiátrico não se limita a responder às identidades trans — participa ativamente na sua produção. Uma leitura essencial para compreender a transmasculinidade como fenómeno materialmente produzido por aparelhos institucionais.&#xA;&#xA;Jamison Green, Look! No, Don&#39;t! The Visibility Dilemma for Transsexual Men (2006). Green aborda o dilema da visibilidade trans masculina e mostra como a passabilidade é um campo minado de classe, raça e acesso desigual a tecnologias corporais. A visibilidade expõe; a invisibilidade apaga. Não há saída fácil.&#xA;&#xA;Miriam Abelson e Tristan Kade, Trans Masculinities (2020). Uma síntese contemporânea que articula experiências trans com teoria feminista e estudos críticos de masculinidade, sublinhando que os corpos são lugares cruciais onde a masculinidade se materializa — e onde a exclusão se inscreve.&#xA;&#xA;Onto-epistemologia e teoria feminista&#xA;&#xA;Karen Barad, Meeting the Universe Halfway: Quantum Physics and the Entanglement of Matter and Meaning (2007). O texto central do realismo agencial — uma onto-epistemologia que recusa a separação entre matéria e discurso e defende que a realidade é produzida por práticas material-discursivas. Difícil, exigente, transformador. Nenhuma leitura sobre género, corpo e poder fica igual depois de Barad.&#xA;&#xA;Karen Barad, TransMaterialities: Trans\*/Matter/Realities and Queer Political Imaginings (2015). Um texto mais acessível onde Barad articula o realismo agencial com questões trans e cuir. Uma entrada mais curta no pensamento baradiano para quem quer começar por aqui antes de enfrentar Meeting the Universe Halfway.&#xA;&#xA;Judith Butler, Problemas de Género: Feminismo e Subversão da Identidade (1990, tradução portuguesa Orfeu Negro, 2023). Butler argumenta que o género é um efeito performativo — produzido pela repetição de normas e não pela expressão de uma essência interior. O texto que fundou a teoria cuir. A tradução portuguesa permite finalmente ler este clássico na nossa língua.&#xA;&#xA;Donna Haraway, Situated Knowledges: The Science Question in Feminism and the Privilege of Partial Perspective (1988). O ensaio fundador dos conhecimentos situados. Haraway mostra que não existe olhar de lugar nenhum — que a pretensão de objetividade universal é sempre o privilégio de quem pode esconder a sua posição. Uma das leituras mais politicamente necessárias deste caderno.&#xA;&#xA;Donna Haraway, The Promises of Monsters: A Regenerative Politics for Inappropriate/d Others (1992). Um texto complementar que desenvolve a ideia de figuras parciais e conexões inesperadas como estratégia política e epistemológica. Lido em conjunto com Situated Knowledges, aprofunda a proposta de uma objetividade encarnada e responsável.&#xA;&#xA;Pierre Bourdieu, La domination masculine (1998). Bourdieu analisa como a dominação masculina se naturaliza por meio de esquemas de perceção incorporados e reproduzidos por instituições e práticas quotidianas. A violência simbólica — central nesta obra — atua precisamente por não se apresentar como violência, mas como evidência, consenso ou normalidade.&#xA;&#xA;Intersecionalidade e direito&#xA;&#xA;Kimberlé Crenshaw, Demarginalizing the Intersection of Race and Sex (1989) e Mapping the Margins: Intersectionality, Identity Politics, and Violence against Women of Color (1991). Os textos fundadores da intersecionalidade. Crenshaw mostrou que os sistemas de opressão articulam-se produzindo experiências específicas de discriminação que as categorias jurídicas e políticas dominantes não conseguem captar. Escreveu a partir das mulheres negras — e criou uma ferramenta para pensar qualquer experiência que recuse tratar as opressões como compartimentos estanques.&#xA;&#xA;Elisabeth Holzleithner, Law and Social Justice: Intersectional Dimensions (2024). Uma análise rigorosa dos limites do direito anti discriminatório face a experiências interseccionais. Holzleithner mostra que o sistema jurídico tende a proteger categorias estáveis e a deixar de fora quem vive na intersecção — não por omissão, mas por desenho estrutural.&#xA;&#xA;Vanessa E. Thompson, Entangled Genealogies?! Intersections and Abolition (2024). Thompson articula interseccionalidade e abolicionismo, mostrando como as modalidades institucionais de violência se inter-relacionam. Uma leitura que empurra a análise interseccional para além da denúncia e em direção à transformação estrutural.&#xA;&#xA;Contexto português&#xA;&#xA;Sandra Saleiro, Nelson Ramalho, Mafalda de Menezes e Jorge Gato, Estudo Nacional sobre Necessidades das Pessoas LGBTI e sobre a Discriminação em Razão da Orientação Sexual, Identidade e Expressão de Género e Características Sexuais (2022). O estudo mais abrangente sobre discriminação LGBT+ em Portugal. Os dados mostram de forma inequívoca a dimensão interseccional das desigualdades — e a distância entre a igualdade formal que a lei promete e a exclusão material que as instituições continuam a produzir. Leitura indispensável, e mais pertinente do que nunca num momento em que essa igualdade formal está ela própria sob ataque.&#xA;&#xA;Testemunho e experiência vivida&#xA;&#xA;Anthony Vincent, Peau noire, masque arc-en-ciel, in Florent Manelli (org.), Pédés (2023). O testemunho que atravessa os dois últimos textos deste caderno e que serve de âncora para o argumento onto-epistemológico do texto 5. Uma obra que toma a sério a experiência vivida como matéria política e teórica — e que recusa a separação entre o pessoal e o estrutural. Vincent não é um caso de estudo. É um sujeito epistémico.&#xA;&#xA;Frantz Fanon, Peau noire, masques blancs (1952). O texto fundador da análise da colonialidade como inscrição na pele e como produção de um sujeito que aprende a ver-se através do olhar do colonizador. Vincent dialoga deliberadamente com Fanon ao substituir a máscara branca pela máscara arco-íris — atualizando a genealogia fanoniana para o campo da sexualidade e da vigilância policial contemporânea.&#xA;&#xA;#cuir #kuir #bibliografia #leituras #masculinidades #intersecionalidade #ontoepistemologia #teoria #desdeasmargens #caderno2&#xA;&#xA;phr style=&#34;border: none; border-top: 1px solid #ff69b4;&#34;&#xD;&#xA;emPor Orlando Figueiredo, desde as margens./em/pbr---brpQueres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! br&#xD;&#xA;!--emailsub--/p]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<hr/>

<h2 id="uma-bibliografia-comentada-do-caderno">Uma bibliografia comentada do caderno</h2>

<p>Este caderno não escolheu as suas referências por acaso. Cada texto aqui mobilizado representa uma filiação intelectual e política — uma escolha sobre quem merece ser lido, citado e colocado em diálogo. A teoria das masculinidades de Connell, o realismo agencial de Barad, a intersecionalidade de Crenshaw, os conhecimentos situados de Haraway, o testemunho de Vincent — são vozes que vêm de tradições diferentes, de posições diferentes, de corpos diferentes. O que as une é a recusa da neutralidade: todas partem de algum lugar, todas têm uma posição, todas produzem conhecimento a partir de uma aposta política sobre o que importa pensar e por quê.</p>

<p>Esta bibliografia é também uma cuirografia — uma escrita situada das leituras que tornaram este caderno possível. Não é exaustiva. É honesta.</p>



<h3 id="teoria-das-masculinidades">Teoria das masculinidades</h3>

<p>Raewyn Connell, <em>Masculinities</em> (1995, 2.ª edição 2005). A obra fundadora da teoria das masculinidades. Connell introduziu os conceitos de masculinidade hegemónica, subordinada, cúmplice e marginalizada, mostrando que a masculinidade é uma estrutura relacional de poder e não um atributo individual. Indispensável — e incontornável para qualquer análise que recuse essencialismos.</p>

<p>Richard Howson e Jeff Hearn, <em>Hegemony, Hegemonic Masculinity, and Beyond</em>, in <em>Routledge International Handbook of Masculinity Studies</em> (2020). Uma revisão crítica do conceito de masculinidade hegemónica que sublinha a sua natureza relacional e a centralidade do exterior constitutivo. Útil para compreender a hegemonia como estrutura dinâmica e não como categoria estática.</p>

<p>C.J. Pascoe, <em>Dude, You&#39;re a Fag: Adolescent Masculinity and the Fag Discourse</em> (2005). Um estudo etnográfico decisivo que mostra como o insulto homofóbico funciona como prática regulatória de género que disciplina todos os homens — e não apenas os gays. A análise interseccional de Pascoe revela que o fag discourse articula simultaneamente género, sexualidade e raça.</p>

<p>C.J. Pascoe e Tristan Bridges, <em>Fag Discourse in a Post-Homophobic Era</em> (2018). Atualização do conceito que analisa como a regulação da masculinidade persiste e se reconfigura mesmo em contextos aparentemente mais tolerantes. A tolerância liberal não elimina a vigilância — transforma-a.</p>

<p>Tim Barrett, <em>Multiple Forms of Masculinity in Gay Male Subcultures</em> (2020). Barrett analisa a pluralidade de masculinidades dentro das subculturas gays, mostrando que a subordinação não é homogénea e que as hierarquias internas às comunidades cuir articulam raça, classe e estética corporal.</p>

<p>Stephen Lawton, <em>Bi+ Men and Their Intimate Partners: Sexual Identities, Intimate Relationships and Binegativity</em> (2023). Um dos poucos trabalhos que leva a sério a especificidade da experiência bissexual masculina, mostrando como a binegatividade opera tanto nos espaços heteronormativos como nos espaços cuir. A invisibilidade não é ausência — é produção ativa.</p>

<p>Henry Rubin, <em>The Logic of Treatment: Transsexuality, Medicine, and the Medical Model</em> (2006). Rubin demonstra como o sistema médico-psiquiátrico não se limita a responder às identidades trans — participa ativamente na sua produção. Uma leitura essencial para compreender a transmasculinidade como fenómeno materialmente produzido por aparelhos institucionais.</p>

<p>Jamison Green, <em>Look! No, Don&#39;t! The Visibility Dilemma for Transsexual Men</em> (2006). Green aborda o dilema da visibilidade trans masculina e mostra como a passabilidade é um campo minado de classe, raça e acesso desigual a tecnologias corporais. A visibilidade expõe; a invisibilidade apaga. Não há saída fácil.</p>

<p>Miriam Abelson e Tristan Kade, <em>Trans Masculinities</em> (2020). Uma síntese contemporânea que articula experiências trans com teoria feminista e estudos críticos de masculinidade, sublinhando que os corpos são lugares cruciais onde a masculinidade se materializa — e onde a exclusão se inscreve.</p>

<h3 id="onto-epistemologia-e-teoria-feminista">Onto-epistemologia e teoria feminista</h3>

<p>Karen Barad, <em>Meeting the Universe Halfway: Quantum Physics and the Entanglement of Matter and Meaning</em> (2007). O texto central do realismo agencial — uma onto-epistemologia que recusa a separação entre matéria e discurso e defende que a realidade é produzida por práticas material-discursivas. Difícil, exigente, transformador. Nenhuma leitura sobre género, corpo e poder fica igual depois de Barad.</p>

<p>Karen Barad, <em>TransMaterialities: Trans*/Matter/Realities and Queer Political Imaginings</em> (2015). Um texto mais acessível onde Barad articula o realismo agencial com questões trans e cuir. Uma entrada mais curta no pensamento baradiano para quem quer começar por aqui antes de enfrentar <em>Meeting the Universe Halfway</em>.</p>

<p>Judith Butler, <em>Problemas de Género: Feminismo e Subversão da Identidade</em> (1990, tradução portuguesa Orfeu Negro, 2023). Butler argumenta que o género é um efeito performativo — produzido pela repetição de normas e não pela expressão de uma essência interior. O texto que fundou a teoria cuir. A tradução portuguesa permite finalmente ler este clássico na nossa língua.</p>

<p>Donna Haraway, <em>Situated Knowledges: The Science Question in Feminism and the Privilege of Partial Perspective</em> (1988). O ensaio fundador dos conhecimentos situados. Haraway mostra que não existe olhar de lugar nenhum — que a pretensão de objetividade universal é sempre o privilégio de quem pode esconder a sua posição. Uma das leituras mais politicamente necessárias deste caderno.</p>

<p>Donna Haraway, <em>The Promises of Monsters: A Regenerative Politics for Inappropriate/d Others</em> (1992). Um texto complementar que desenvolve a ideia de figuras parciais e conexões inesperadas como estratégia política e epistemológica. Lido em conjunto com <em>Situated Knowledges</em>, aprofunda a proposta de uma objetividade encarnada e responsável.</p>

<p>Pierre Bourdieu, <em>La domination masculine</em> (1998). Bourdieu analisa como a dominação masculina se naturaliza por meio de esquemas de perceção incorporados e reproduzidos por instituições e práticas quotidianas. A violência simbólica — central nesta obra — atua precisamente por não se apresentar como violência, mas como evidência, consenso ou normalidade.</p>

<h3 id="intersecionalidade-e-direito">Intersecionalidade e direito</h3>

<p>Kimberlé Crenshaw, <em>Demarginalizing the Intersection of Race and Sex</em> (1989) e <em>Mapping the Margins: Intersectionality, Identity Politics, and Violence against Women of Color</em> (1991). Os textos fundadores da intersecionalidade. Crenshaw mostrou que os sistemas de opressão articulam-se produzindo experiências específicas de discriminação que as categorias jurídicas e políticas dominantes não conseguem captar. Escreveu a partir das mulheres negras — e criou uma ferramenta para pensar qualquer experiência que recuse tratar as opressões como compartimentos estanques.</p>

<p>Elisabeth Holzleithner, <em>Law and Social Justice: Intersectional Dimensions</em> (2024). Uma análise rigorosa dos limites do direito anti discriminatório face a experiências interseccionais. Holzleithner mostra que o sistema jurídico tende a proteger categorias estáveis e a deixar de fora quem vive na intersecção — não por omissão, mas por desenho estrutural.</p>

<p>Vanessa E. Thompson, <em>Entangled Genealogies?! Intersections and Abolition</em> (2024). Thompson articula interseccionalidade e abolicionismo, mostrando como as modalidades institucionais de violência se inter-relacionam. Uma leitura que empurra a análise interseccional para além da denúncia e em direção à transformação estrutural.</p>

<h3 id="contexto-português">Contexto português</h3>

<p>Sandra Saleiro, Nelson Ramalho, Mafalda de Menezes e Jorge Gato, <em>Estudo Nacional sobre Necessidades das Pessoas LGBTI e sobre a Discriminação em Razão da Orientação Sexual, Identidade e Expressão de Género e Características Sexuais</em> (2022). O estudo mais abrangente sobre discriminação LGBT+ em Portugal. Os dados mostram de forma inequívoca a dimensão interseccional das desigualdades — e a distância entre a igualdade formal que a lei promete e a exclusão material que as instituições continuam a produzir. Leitura indispensável, e mais pertinente do que nunca num momento em que essa igualdade formal está ela própria sob ataque.</p>

<h3 id="testemunho-e-experiência-vivida">Testemunho e experiência vivida</h3>

<p>Anthony Vincent, <em>Peau noire, masque arc-en-ciel</em>, in Florent Manelli (org.), <em>Pédés</em> (2023). O testemunho que atravessa os dois últimos textos deste caderno e que serve de âncora para o argumento onto-epistemológico do texto 5. Uma obra que toma a sério a experiência vivida como matéria política e teórica — e que recusa a separação entre o pessoal e o estrutural. Vincent não é um caso de estudo. É um sujeito epistémico.</p>

<p>Frantz Fanon, <em>Peau noire, masques blancs</em> (1952). O texto fundador da análise da colonialidade como inscrição na pele e como produção de um sujeito que aprende a ver-se através do olhar do colonizador. Vincent dialoga deliberadamente com Fanon ao substituir a máscara branca pela máscara arco-íris — atualizando a genealogia fanoniana para o campo da sexualidade e da vigilância policial contemporânea.</p>

<p><a href="https://kuircuir.pt/tag:cuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">cuir</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:kuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">kuir</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:bibliografia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">bibliografia</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:leituras" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">leituras</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:masculinidades" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">masculinidades</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:intersecionalidade" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">intersecionalidade</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:ontoepistemologia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">ontoepistemologia</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:teoria" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">teoria</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:desdeasmargens" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">desdeasmargens</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:caderno2" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">caderno2</span></a></p>

<p><hr style="border: none; border-top: 1px solid #ff69b4;">
<em>Por Orlando Figueiredo, desde as margens.</em></p><br>---<br><p>Queres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! <br>
</p>
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      <guid>https://kuircuir.pt/que-corpos-contam-texto-6-leituras</guid>
      <pubDate>Mon, 08 Jun 2026 22:16:05 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Que corpos contam? – Texto 5: Quem sabe o que dói?</title>
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      <description>&lt;![CDATA[O corpo que sabe e o poder que o produz&#xA;&#xA;Anthony Vincent está na rua. Já o vimos. Sabemos o que o seu corpo decide antes de pensar. Mas há uma pergunta que o gesto de Vincent abre e que este caderno deixou em suspenso até agora: o que sabe ele, exactamente? E por que é que esse saber — tão preciso, tão situado, tão encarnado — não é reconhecido como conhecimento pelos regimes que produzem verdades sobre discriminação, sobre desigualdade, sobre vidas cuir?&#xA;&#xA;Esta é a pergunta onto-epistemológica que fecha este caderno. Não uma pergunta sobre sentimentos, nem sobre experiências individuais. Uma pergunta sobre poder: quem produz conhecimento legítimo sobre a discriminação? A partir de que corpo? Com que instrumentos? E ao serviço de que interesses?&#xA;&#xA;Fotografia de George Kondylis (2020) — Uso gratuito sob Licença Pexels.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;O olhar que não vê o seu próprio lugar&#xA;&#xA;Donna Haraway colocou esta questão com uma precisão que continua a ser inultrapassável. No seu ensaio sobre conhecimentos situados, Haraway identificou aquilo a que chamou o truque divino, the god trick, — a pretensão, característica da ciência e da epistemologia ocidental moderna, de produzir conhecimento a partir de lugar nenhum. O olhar que se diz neutro, objetivo, universal. O olhar que não precisa de se nomear porque se confunde com o padrão. O olhar que vê tudo porque, ao contrário de todos os outros olhares, não está em parte nenhuma — e, portanto, não está sujeito às distorções que afetam os olhares situados.&#xA;&#xA;Este truque divino é uma ficção política. Não existe conhecimento sem corpo, sem posição, sem história. O olhar que se apresenta como neutro é sempre o olhar de alguém — e esse alguém ocupa uma posição social concreta que o seu discurso de neutralidade trabalha sistematicamente para esconder. A objetividade não é a ausência de perspetiva. É, como Haraway argumenta, a responsabilidade de assumir de onde se olha — de reconhecer a parcialidade do próprio conhecimento como condição de honestidade intelectual.&#xA;&#xA;No campo dos estudos sobre discriminação, este truque tem consequências directas. Os estudos que medem a discriminação LGBT+ em Portugal, as políticas públicas que afirmam combatê-la, os enquadramentos jurídicos que prometem igualdade — todos partem de posições situadas que tendem a reproduzir, nos seus próprios instrumentos, as hierarquias que afirmam querer combater. Quando um estudo usa categorias binárias de sexo e género, está a operar a partir de uma ontologia que já decidiu o que existe e o que não existe. Quando uma política pública trata a discriminação como soma de opressões separadas, está a olhar a partir de uma posição que nunca habitou a interseção. Quando um formulário não tem onde pôr certas existências, não está a ser neutro — está a produzir a inexistência daquilo que não consegue categorizar.&#xA;&#xA;O corpo que sabe porque existe&#xA;&#xA;Karen Barad vai mais longe do que Haraway — ou melhor, aprofunda o gesto de Haraway até às suas consequências ontológicas mais radicais. Para Barad, a separação entre epistemologia e ontologia é ela própria uma ficção. Não é apenas que conhecemos a partir de posições situadas — é que conhecer e existir são processos inseparáveis. O que chamamos realidade é produzido por práticas material-discursivas que são simultaneamente físicas, institucionais, normativas e cognitivas. Não há, de um lado, os corpos que existem, e do outro, os sujeitos que os conhecem. Há intra-ações — encontros entre corpos, instrumentos, normas e discursos — que produzem simultaneamente o que existe e o que pode ser conhecido sobre o que existe.&#xA;&#xA;Aplicado à questão que este texto coloca, isto significa que quem sabe o que dói não sabe por acaso, nem por sensibilidade especial, nem por proximidade afetiva com o sofrimento. Sabe porque o seu corpo foi produzido — pelos mesmos aparelhos que produzem o conhecimento sobre ele — como o lugar onde a dor se inscreve. O corpo de Vincent não preexiste aos aparelhos policiais, médicos e jurídicos que o leem como suspeito, como abjeto, como excesso. É produzido por eles — e é precisamente por ser produzido por eles que sabe, de dentro, como funcionam.&#xA;&#xA;Isto é onto-epistemologia no sentido mais rigoroso: o saber e o ser estão entrelaçados de forma inextricável. Separar a experiência de Vincent do conhecimento que ela produz — tratá-la como anedota pessoal irrelevante para a produção de saber legítimo — é reproduzir exatamente o truque divino que Haraway denunciou. É fingir que o olhar que não habita a interseção é mais confiável do que o olhar que a habita. É confundir distância com objetividade.&#xA;&#xA;Os instrumentos que não veem o que medem&#xA;&#xA;A produção de conhecimento sobre discriminação opera por meio de instrumentos concretos: estudos, inquéritos, bases de dados, relatórios, indicadores. Estes instrumentos não são neutros — são dispositivos material-discursivos, no sentido que Barad dá ao conceito, que participam na produção daquilo que medem. As categorias que usam, as perguntas que fazem, as existências que conseguem capturar e as que deixam escapar — tudo isto é efeito de posições situadas que os instrumentos trabalham para tornar invisíveis.&#xA;&#xA;O Estudo Nacional sobre Necessidades das Pessoas LGBTI em Portugal, que o texto 3 desta série mobilizou, é um esforço sério e rigoroso de tornar visível o que a produção de dados tende a apagar. Mas mesmo os melhores instrumentos têm limites que são também limites ontológicos: as categorias disponíveis determinam o que pode ser dito, e o que não tem categoria disponível tende a desaparecer nos intervalos entre as caixas de verificação.&#xA;&#xA;Pessoas que habitam interseções complexas — negras e cuir e trans e migrantes e precárias — produzem experiências de discriminação que os instrumentos de medição não conseguem captar na sua singularidade. Não porque sejam raras ou marginais, mas porque os instrumentos foram desenhados a partir de posições que não as habitam — e, portanto, não sabem exatamente o que perguntar, nem como perguntar, nem onde procurar. O que não é perguntado não é medido. O que não é medido não existe para a política pública. O que não existe para a política pública não é combatido. É um ciclo de produção de inexistência que começa na epistemologia e termina nos corpos.&#xA;&#xA;O saber das margens como rigor&#xA;&#xA;Há uma tentação, quando se fala de conhecimentos situados e de saberes encarnados, de cair no relativismo — de concluir que todos os saberes são igualmente válidos, ou que a experiência vivida vale tanto quanto a análise estrutural, ou que o pessoal é automaticamente político. Não é isso que Haraway diz, nem é isso que este caderno defende.&#xA;&#xA;O que está em causa não é substituir o conhecimento estrutural pela experiência individual. É reconhecer que certas posições — as que habitam as interseções que o conhecimento dominante não ocupa — produzem saberes sobre o funcionamento do poder que os instrumentos dominantes não conseguem captar. Não porque a margem seja romanticamente mais autêntica do que o centro. Mas, porque a margem vê o centro de um ângulo que o centro não consegue ver a partir de si próprio.&#xA;&#xA;Vincent sabe coisas sobre a interseção de raça, sexualidade e vigilância policial que nenhum estudo académico sobre discriminação consegue capturar inteiramente — não porque o estudo seja mau, mas porque foi desenhado a partir de uma posição que não habita aquela interseção. Esse saber não é subjetivo nem anedótico. É situado — o que, para Haraway, é a condição de qualquer conhecimento rigoroso. A diferença é que o saber de Vincent não pode esconder a sua situação, enquanto o saber que se pretende neutro esconde a sua atrás de uma pretensão de objetividade que é ela própria uma posição política.&#xA;&#xA;Reconhecer isto não é romantizar as margens. É levar a sério a epistemologia — é aplicar ao próprio conhecimento sobre discriminação os critérios críticos que aplicamos a tudo o resto. Quem produz este saber? A partir de que corpo? Com que instrumentos? O que fica de fora? E quem beneficia do que fica de fora?&#xA;&#xA;Escrever desde os corpos&#xA;&#xA;Este caderno começou com uma fábrica. Termina com um corpo na rua.&#xA;&#xA;Entre a fábrica da masculinidade e o gesto de Anthony Vincent, percorremos um trajeto que foi sempre o mesmo: a masculinidade hegemónica como regime material-discursivo que produz corpos, hierarquias e saberes — e que, ao produzi-los, produz também o que fica de fora, o que é descartado, o que é tornado invisível, ou abjeto, ou impossível.&#xA;&#xA;A cuirografia que este caderno propõe não é apenas uma escrita sobre corpos. É uma escrita desde corpos — desde posições situadas, desde margens que veem o centro com uma clareza que o centro não tem sobre si próprio. Escrever desde as margens não é uma limitação nem uma desvantagem epistémica. É uma condição de honestidade intelectual: assumir de onde se olha, reconhecer o que o próprio olhar não consegue ver, e construir conhecimento a partir dessa responsabilidade e não apesar dela.&#xA;&#xA;Que corpos contam? Os que a fábrica reconhece como legítimos. Os que cabem nos formulários. Os que a lei protege. Os que a comunidade acolhe. Os que o conhecimento dominante consegue ver.&#xA;&#xA;E os que não contam? São os que este caderno tentou tornar visíveis — não como vítimas, não como casos de estudo, mas como sujeitos epistémicos cujo saber sobre o funcionamento do poder é politicamente indispensável. Porque é nos corpos que a hegemonia descarta que se vê com mais clareza como a máquina funciona. E é a partir desses corpos que se pode, com mais rigor e com mais honestidade, pensar como a desmontar.&#xA;&#xA;Leituras&#xA;&#xA;Donna Haraway, Situated Knowledges: The Science Question in Feminism and the Privilege of Partial Perspective (1988). O ensaio fundador dos conhecimentos situados, que é simultaneamente uma crítica à pretensão de objetividade universal e uma proposta epistemológica alternativa: o conhecimento parcial, localizado e responsável como condição de rigor. Indispensável para qualquer análise crítica que leve a sério a pergunta sobre quem produz conhecimento e a partir de que posição.&#xA;&#xA;Karen Barad, Meeting the Universe Halfway: Quantum Physics and the Entanglement of Matter and Meaning (2007). O realismo agencial de Barad oferece as ferramentas para pensar a inseparabilidade entre ontologia e epistemologia — entre o que existe e o que pode ser conhecido. Neste texto, Barad é mobilizada para mostrar que o saber encarnado não é menos rigoroso do que o saber que se pretende neutro: é simplesmente mais honesto sobre as suas condições de produção.&#xA;&#xA;Karen Barad, TransMaterialities: Trans\*/Matter/Realities and Queer Political Imaginings (2015). Um texto mais curto e mais acessível do que Meeting the Universe Halfway, onde Barad articula o realismo agencial com questões trans e cuir. Uma leitura que mostra como a onto-epistemologia baradiana se aplica diretamente à análise das existências que a hegemonia produz como impossíveis ou abjetas.&#xA;&#xA;Donna Haraway, The Promises of Monsters: A Regenerative Politics for Inappropriate/d Others (1992). Um texto complementar ao ensaio sobre conhecimentos situados, onde Haraway desenvolve a ideia de figuras parciais e conexões inesperadas como estratégia política e epistemológica. A leitura em conjunto com &#34;Situated Knowledges&#34; aprofunda a proposta de uma objetividade encarnada e responsável.&#xA;&#xA;Sandra Saleiro, Nelson Ramalho, Mafalda de Menezes e Jorge Gato, Estudo Nacional sobre Necessidades das Pessoas LGBTI e sobre a Discriminação em Razão da Orientação Sexual, Identidade e Expressão de Género e Características Sexuais (2022). Mobilizado aqui não apenas como fonte de dados, mas como exemplo de um instrumento de produção de conhecimento — com os seus limites e as suas potencialidades — sobre discriminação LGBT+ em Portugal. Uma leitura que ganha em ser feita com olho crítico sobre as categorias que usa e as que não consegue capturar.&#xA;&#xA;Anthony Vincent, Peau noire, masque arc-en-ciel, in Florent Manelli (org.), Pédés (2023). Antologia de testemunhos de homens gays e bissexuais em França, onde se publica o texto de Anthony Vincent que serve de ponto de partida a este ensaio. Uma obra que toma a sério a experiência vivida como matéria política e teórica — e que recusa a separação entre o pessoal e o estrutural.&#xA;&#xA;#cuir #kuir #ontoepistemologia #conhecimentossituados #intersecionalidade #masculinidades #barad #haraway #anthonyvincent #Caderno2 #desdeasmargens&#xA;&#xA;phr style=&#34;border: none; border-top: 1px solid #ff69b4;&#34;&#xD;&#xA;emPor Orlando Figueiredo, desde as margens./em/pbr---brpQueres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! br&#xD;&#xA;!--emailsub--/p]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<h2 id="o-corpo-que-sabe-e-o-poder-que-o-produz">O corpo que sabe e o poder que o produz</h2>

<p>Anthony Vincent está na rua. Já o vimos. Sabemos o que o seu corpo decide antes de pensar. Mas há uma pergunta que o gesto de Vincent abre e que este caderno deixou em suspenso até agora: o que sabe ele, exactamente? E por que é que esse saber — tão preciso, tão situado, tão encarnado — não é reconhecido como conhecimento pelos regimes que produzem verdades sobre discriminação, sobre desigualdade, sobre vidas cuir?</p>

<p><strong>Esta é a pergunta onto-epistemológica que fecha este caderno. Não uma pergunta sobre sentimentos, nem sobre experiências individuais. Uma pergunta sobre poder: quem produz conhecimento legítimo sobre a discriminação?</strong> A partir de que corpo? Com que instrumentos? E ao serviço de que interesses?</p>

<p><img src="https://i.snap.as/DW8KlQv6.jpg" alt=""/></p>

<h6 id="fotografia-de-george-kondylis-2020-https-www-pexels-com-pt-br-foto-preto-e-branco-p-b-vista-visao-8614792-uso-gratuito-sob-licença-pexels-https-www-pexels-com-pt-br-licenca">Fotografia de <a href="https://www.pexels.com/pt-br/foto/preto-e-branco-p-b-vista-visao-8614792/">George Kondylis (2020)</a> — Uso gratuito sob <a href="https://www.pexels.com/pt-BR/licenca/">Licença Pexels</a>.</h6>

<hr/>



<h3 id="o-olhar-que-não-vê-o-seu-próprio-lugar">O olhar que não vê o seu próprio lugar</h3>

<p>Donna Haraway colocou esta questão com uma precisão que continua a ser inultrapassável. No seu ensaio sobre conhecimentos situados, Haraway identificou aquilo a que chamou o <strong>truque divino, <em>the god trick</em></strong>, — a pretensão, característica da ciência e da epistemologia ocidental moderna, de produzir conhecimento a partir de lugar nenhum. O olhar que se diz neutro, objetivo, universal. O olhar que não precisa de se nomear porque se confunde com o padrão. O olhar que vê tudo porque, ao contrário de todos os outros olhares, não está em parte nenhuma — e, portanto, não está sujeito às distorções que afetam os olhares situados.</p>

<p><strong>Este truque divino é uma ficção política. Não existe conhecimento sem corpo, sem posição, sem história.</strong> O olhar que se apresenta como neutro é sempre o olhar de alguém — e esse alguém ocupa uma posição social concreta que o seu discurso de neutralidade trabalha sistematicamente para esconder. <strong>A objetividade não é a ausência de perspetiva.</strong> <strong>É, como Haraway argumenta, a responsabilidade de assumir de onde se olha — de reconhecer a parcialidade do próprio conhecimento como condição de honestidade intelectual.</strong></p>

<p>No campo dos estudos sobre discriminação, este truque tem consequências directas. Os estudos que medem a discriminação LGBT+ em Portugal, as políticas públicas que afirmam combatê-la, os enquadramentos jurídicos que prometem igualdade — todos partem de posições situadas que tendem a reproduzir, nos seus próprios instrumentos, as hierarquias que afirmam querer combater. Quando um estudo usa categorias binárias de sexo e género, está a operar a partir de uma ontologia que já decidiu o que existe e o que não existe. Quando uma política pública trata a discriminação como soma de opressões separadas, está a olhar a partir de uma posição que nunca habitou a interseção. Quando um formulário não tem onde pôr certas existências, não está a ser neutro — está a produzir a inexistência daquilo que não consegue categorizar.</p>

<h3 id="o-corpo-que-sabe-porque-existe">O corpo que sabe porque existe</h3>

<p>Karen Barad vai mais longe do que Haraway — ou melhor, aprofunda o gesto de Haraway até às suas consequências ontológicas mais radicais. Para Barad, a separação entre epistemologia e ontologia é ela própria uma ficção. Não é apenas que conhecemos a partir de posições situadas — é que c<strong>onhecer e existir são processos inseparáveis.</strong> O que chamamos realidade é produzido por práticas material-discursivas que são simultaneamente físicas, institucionais, normativas e cognitivas. Não há, de um lado, os corpos que existem, e do outro, os sujeitos que os conhecem. Há intra-ações — encontros entre corpos, instrumentos, normas e discursos — que produzem simultaneamente o que existe e o que pode ser conhecido sobre o que existe.</p>

<p><strong>Aplicado à questão que este texto coloca, isto significa que quem sabe o que dói não sabe por acaso, nem por sensibilidade especial, nem por proximidade afetiva com o sofrimento. Sabe porque o seu corpo foi produzido — pelos mesmos aparelhos que produzem o conhecimento sobre ele — como o lugar onde a dor se inscreve.</strong> O corpo de Vincent não preexiste aos aparelhos policiais, médicos e jurídicos que o leem como suspeito, como abjeto, como excesso. É produzido por eles — e é precisamente por ser produzido por eles que sabe, de dentro, como funcionam.</p>

<p>Isto é onto-epistemologia no sentido mais rigoroso: o saber e o ser estão entrelaçados de forma inextricável. Separar a experiência de Vincent do conhecimento que ela produz — tratá-la como anedota pessoal irrelevante para a produção de saber legítimo — é reproduzir exatamente o truque divino que Haraway denunciou. É fingir que o olhar que não habita a interseção é mais confiável do que o olhar que a habita. É confundir distância com objetividade.</p>

<h3 id="os-instrumentos-que-não-veem-o-que-medem">Os instrumentos que não veem o que medem</h3>

<p>A produção de conhecimento sobre discriminação opera por meio de instrumentos concretos: estudos, inquéritos, bases de dados, relatórios, indicadores. Estes instrumentos não são neutros — são dispositivos material-discursivos, no sentido que Barad dá ao conceito, que participam na produção daquilo que medem. As categorias que usam, as perguntas que fazem, as existências que conseguem capturar e as que deixam escapar — tudo isto é efeito de posições situadas que os instrumentos trabalham para tornar invisíveis.</p>

<p>O <em>Estudo Nacional sobre Necessidades das Pessoas LGBTI em Portugal</em>, que o texto 3 desta série mobilizou, é um esforço sério e rigoroso de tornar visível o que a produção de dados tende a apagar. Mas mesmo os melhores instrumentos têm limites que são também limites ontológicos: as categorias disponíveis determinam o que pode ser dito, e o que não tem categoria disponível tende a desaparecer nos intervalos entre as caixas de verificação.</p>

<p>Pessoas que habitam interseções complexas — negras e cuir e trans e migrantes e precárias — produzem experiências de discriminação que os instrumentos de medição não conseguem captar na sua singularidade. Não porque sejam raras ou marginais, mas porque os instrumentos foram desenhados a partir de posições que não as habitam — e, portanto, não sabem exatamente o que perguntar, nem como perguntar, nem onde procurar. <strong>O que não é perguntado não é medido. O que não é medido não existe para a política pública. O que não existe para a política pública não é combatido.</strong> É um ciclo de produção de inexistência que começa na epistemologia e termina nos corpos.</p>

<h3 id="o-saber-das-margens-como-rigor">O saber das margens como rigor</h3>

<p>Há uma tentação, quando se fala de conhecimentos situados e de saberes encarnados, de cair no relativismo — de concluir que todos os saberes são igualmente válidos, ou que a experiência vivida vale tanto quanto a análise estrutural, ou que o pessoal é automaticamente político. Não é isso que Haraway diz, nem é isso que este caderno defende.</p>

<p>O que está em causa não é substituir o conhecimento estrutural pela experiência individual. É reconhecer que certas posições — as que habitam as interseções que o conhecimento dominante não ocupa — produzem saberes sobre o funcionamento do poder que os instrumentos dominantes não conseguem captar. Não porque a margem seja romanticamente mais autêntica do que o centro. Mas, porque a margem vê o centro de um ângulo que o centro não consegue ver a partir de si próprio.</p>

<p>Vincent sabe coisas sobre a interseção de raça, sexualidade e vigilância policial que nenhum estudo académico sobre discriminação consegue capturar inteiramente — não porque o estudo seja mau, mas porque foi desenhado a partir de uma posição que não habita aquela interseção. Esse saber não é subjetivo nem anedótico. É situado — o que, para Haraway, é a condição de qualquer conhecimento rigoroso. A diferença é que o saber de Vincent não pode esconder a sua situação, enquanto o saber que se pretende neutro esconde a sua atrás de uma pretensão de objetividade que é ela própria uma posição política.</p>

<p>Reconhecer isto não é romantizar as margens. É levar a sério a epistemologia — é aplicar ao próprio conhecimento sobre discriminação os critérios críticos que aplicamos a tudo o resto. Quem produz este saber? A partir de que corpo? Com que instrumentos? O que fica de fora? E quem beneficia do que fica de fora?</p>

<h3 id="escrever-desde-os-corpos">Escrever desde os corpos</h3>

<p>Este caderno começou com uma fábrica. Termina com um corpo na rua.</p>

<p>Entre a fábrica da masculinidade e o gesto de Anthony Vincent, percorremos um trajeto que foi sempre o mesmo: a masculinidade hegemónica como regime material-discursivo que produz corpos, hierarquias e saberes — e que, ao produzi-los, produz também o que fica de fora, o que é descartado, o que é tornado invisível, ou abjeto, ou impossível.</p>

<p><strong>A cuirografia que este caderno propõe não é apenas uma escrita sobre corpos. É uma escrita desde corpos — desde posições situadas, desde margens que</strong> veem <strong>o centro com uma clareza que o centro não tem sobre si próprio.</strong> Escrever desde as margens não é uma limitação nem uma desvantagem epistémica. É uma condição de honestidade intelectual: assumir de onde se olha, reconhecer o que o próprio olhar não consegue ver, e construir conhecimento a partir dessa responsabilidade e não apesar dela.</p>

<p>Que corpos contam? Os que a fábrica reconhece como legítimos. Os que cabem nos formulários. Os que a lei protege. Os que a comunidade acolhe. Os que o conhecimento dominante consegue ver.</p>

<p>E os que não contam? São os que este caderno tentou tornar visíveis — não como vítimas, não como casos de estudo, mas como sujeitos epistémicos cujo saber sobre o funcionamento do poder é politicamente indispensável. Porque é nos corpos que a hegemonia descarta que se vê com mais clareza como a máquina funciona. E é a partir desses corpos que se pode, com mais rigor e com mais honestidade, pensar como a desmontar.</p>

<h3 id="leituras">Leituras</h3>

<p>Donna Haraway, <em>Situated Knowledges: The Science Question in Feminism and the Privilege of Partial Perspective</em> (1988). O ensaio fundador dos conhecimentos situados, que é simultaneamente uma crítica à pretensão de objetividade universal e uma proposta epistemológica alternativa: o conhecimento parcial, localizado e responsável como condição de rigor. Indispensável para qualquer análise crítica que leve a sério a pergunta sobre quem produz conhecimento e a partir de que posição.</p>

<p>Karen Barad, <em>Meeting the Universe Halfway: Quantum Physics and the Entanglement of Matter and Meaning</em> (2007). O realismo agencial de Barad oferece as ferramentas para pensar a inseparabilidade entre ontologia e epistemologia — entre o que existe e o que pode ser conhecido. Neste texto, Barad é mobilizada para mostrar que o saber encarnado não é menos rigoroso do que o saber que se pretende neutro: é simplesmente mais honesto sobre as suas condições de produção.</p>

<p>Karen Barad, <em>TransMaterialities: Trans*/Matter/Realities and Queer Political Imaginings</em> (2015). Um texto mais curto e mais acessível do que <em>Meeting the Universe Halfway</em>, onde Barad articula o realismo agencial com questões trans e cuir. Uma leitura que mostra como a onto-epistemologia baradiana se aplica diretamente à análise das existências que a hegemonia produz como impossíveis ou abjetas.</p>

<p>Donna Haraway, <em>The Promises of Monsters: A Regenerative Politics for Inappropriate/d Others</em> (1992). Um texto complementar ao ensaio sobre conhecimentos situados, onde Haraway desenvolve a ideia de figuras parciais e conexões inesperadas como estratégia política e epistemológica. A leitura em conjunto com “Situated Knowledges” aprofunda a proposta de uma objetividade encarnada e responsável.</p>

<p>Sandra Saleiro, Nelson Ramalho, Mafalda de Menezes e Jorge Gato, <em>Estudo Nacional sobre Necessidades das Pessoas LGBTI e sobre a Discriminação em Razão da Orientação Sexual, Identidade e Expressão de Género e Características Sexuais</em> (2022). Mobilizado aqui não apenas como fonte de dados, mas como exemplo de um instrumento de produção de conhecimento — com os seus limites e as suas potencialidades — sobre discriminação LGBT+ em Portugal. Uma leitura que ganha em ser feita com olho crítico sobre as categorias que usa e as que não consegue capturar.</p>

<p>Anthony Vincent, <em>Peau noire, masque arc-en-ciel</em>, in Florent Manelli (org.), <em>Pédés</em> (2023). Antologia de testemunhos de homens gays e bissexuais em França, onde se publica o texto de Anthony Vincent que serve de ponto de partida a este ensaio. Uma obra que toma a sério a experiência vivida como matéria política e teórica — e que recusa a separação entre o pessoal e o estrutural.</p>

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<em>Por Orlando Figueiredo, desde as margens.</em></p><br>---<br><p>Queres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! <br>
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      <pubDate>Sat, 06 Jun 2026 20:21:11 +0000</pubDate>
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