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    <title>Cuir &amp;mdash; Kuir - cultura e inspiração Cuir</title>
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    <description>Pensar cuir desde as margens. Escrever contra a norma.&lt;br&gt;&lt;b&gt;Orlando Figueiredo&lt;/b&gt;&lt;br&gt; &lt;a href=&#34;mailto:queerlab@kuircuir.pt&#34;&gt;queerlab@kuircuir.pt&lt;/a&gt;</description>
    <pubDate>Fri, 24 Apr 2026 17:39:03 +0000</pubDate>
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      <title>Cuir &amp;mdash; Kuir - cultura e inspiração Cuir</title>
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      <title>A direita portuguesa vem buscar os nossos corpos</title>
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      <description>&lt;![CDATA[A repatologização como projecto político: quando a direita se une contra a autodeterminação.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;No dia 19 de março, a Assembleia da República vai decidir se Portugal continua a reconhecer que as pessoas trans existem sem pedir licença à medicina.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;No próximo dia 19 de março, três partidos da direita portuguesa — Chega, PSD e CDS-PP — vão levar à Assembleia da República projectos de lei cujo objectivo é um só: desmantelar a Lei n.º 38/2018, que consagra o direito à autodeterminação da identidade de género. Não são três iniciativas independentes. É uma ofensiva coordenada contra a existência jurídica das pessoas trans em Portugal. E é preciso chamá-la pelo nome.&#xA;&#xA;Bandeira Trans - Identidade e Direito. A luta pela autodeterminação de género em Portugal enfrenta uma nova ofensiva parlamentar. | Fotografia de Lena Balk (2020) – Uso gratuito sob a Licença da Unsplash&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;O Chega quer a revogação pura e simples da lei e o regresso a um modelo de diagnóstico clínico obrigatório. O PSD, pela mão de Hugo Soares — o mesmo que em 2015 propôs um referendo sobre a adopção por casais homossexuais e que, dias antes deste debate, não hesitou em invocar cinicamente os direitos das minorias e das mulheres para justificar o apoio cobarde de Portugal ao ataque dos EUA ao Irão —, apresenta um projecto que restaura o regime da Lei n.º 7/2011, devolvendo a profissionais de saúde o poder de decidir quem pode ou não alterar a menção do sexo no registo civil.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;https://youtu.be/-FfDmGOBPg8&#xA;&#xA;Entre as Lajes e a Lei 38: A Hipocrisia Homonacionalista de Hugo Soares&#xA;&#xA;Um exemplo claro de retórica homonacionalista, onde Hugo Soares (PSD) invoca a proteção de mulheres e minorias no Irão para legitimar o apoio militar aos EUA , contrastando com a ofensiva contra a autodeterminação de género em Portugal agendada para 19 de março.&#xA;&#xA;Extrato da Reunião Plenária de 4 de março de 2026. Intervenção: Hugo Soares (PSD) sobre o apoio logístico aos EUA e a condenação do regime iraniano em nome das mulheres e minorias. | Duração do corte: 23 segundos (De 00:27:24 — 00:27:47). | Fonte Original: Canal Parlamento - Reunião Plenária de 04/03/2026&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;A hipocrisia é cirúrgica: os direitos das minorias servem para justificar uma guerra, mas não para proteger pessoas trans em Portugal. O CDS-PP, por sua vez, quer proibir a prescrição de bloqueadores hormonais a menores de 18 anos em contexto de incongruência de género. Três projectos, um só gesto: retirar às pessoas trans o direito de se nomearem a si mesmas.&#xA;&#xA;Sejamos precisos. A alteração da menção do sexo no registo civil é um acto administrativo. Não implica cirurgias. Não implica tratamentos hormonais. Não implica qualquer procedimento médico. É papel. É reconhecimento jurídico. E é exactamente isso que a direita quer condicionar. A confusão deliberada entre reconhecimento legal e intervenção clínica é a grande mentira desta ofensiva. Quem a repete sabe o que está a fazer.&#xA;&#xA;Reintroduzir a exigência de diagnóstico clínico significa, na prática, obrigar pessoas trans a provar perante um painel de especialistas que a sua identidade é real. Significa devolver ao poder médico a capacidade de validar ou recusar a existência jurídica de alguém. Paul B. Preciado chamou a isto farmacopolítica: o Estado como regulador dos corpos dissidentes, distribuindo ou negando o acesso à identidade conforme critérios que não são científicos — são disciplinares. Judith Butler, há mais de três décadas, demonstrou que o género não é uma essência que a medicina possa certificar — é uma construção performativa que o poder reitera ou pune. Exigir um diagnóstico é precisamente reiterar a ficção de um género verdadeiro, acessível apenas por validação institucional.&#xA;&#xA;A ciência fala contra a direita. E fala em português. A Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica emitiu um parecer técnico-científico sobre o projecto do Chega que não deixa margem para dúvidas: a iniciativa assenta em premissas que contradizem o consenso clínico internacional. Chamar ideologia à disforia de género, como faz o Chega, é negacionismo científico. A Organização Mundial de Saúde retirou a incongruência de género da categoria de perturbações mentais na CID-11. O parecer da SPSC vai mais longe e recorda que as dificuldades de saúde mental observadas em pessoas trans estão associadas ao estigma social e ao minority stress — não à identidade de género em si. Traduzindo: o problema não é ser trans. O problema é o que a sociedade faz a quem é trans. Legislar para aumentar o estigma é legislar para aumentar o sofrimento. Quem apresenta estes projectos de lei sabe-o — e fá-lo na mesma, porque o sofrimento das pessoas trans é rentável eleitoralmente.&#xA;&#xA;Há um silêncio na proposta do PSD que merece ser nomeado. O projecto não faz qualquer referência às protecções relativas a pessoas intersexo menores de idade previstas na lei actual. A Lei n.º 38/2018 estabelece que, salvo risco comprovado para a saúde, intervenções cirúrgicas ou farmacológicas que modifiquem as características sexuais de menores intersexo não devem ser realizadas até que a pessoa possa manifestar a sua identidade de género. O PSD apaga esta disposição. O silêncio institucional sobre os corpos intersexo é sempre cúmplice da violência cirúrgica exercida sobre crianças cujos corpos não cabem na norma binária. Omitir não é esquecer. É autorizar.&#xA;&#xA;Nada disto acontece no vazio. O relatório anual da ILGA-Europe de 2026 é categórico: a Europa entrou numa nova fase de regressão democrática. O que antes eram ataques pontuais contra pessoas LGBTI+ é agora política estruturada — limitação de direitos, criminalização, silenciamento. A Geórgia equipara relações homossexuais ao incesto. A Rússia classifica o movimento LGBTI+ como extremista. O Reino Unido redefine legalmente o conceito de mulher com base no sexo biológico. A administração Trump revoga protecções contra a discriminação de pessoas trans. É nesta companhia que a direita portuguesa quer colocar o país.&#xA;&#xA;Mas há uma contra-corrente — e a direita portuguesa está do lado errado dela. Em fevereiro de 2026, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução que recomenda o reconhecimento pleno das mulheres trans como mulheres, considerando a sua inclusão essencial para a eficácia das políticas de igualdade de género: 340 votos a favor, 141 contra, 68 abstenções. A extrema-direita e os conservadores ficaram em minoria. A resolução abrange ainda a protecção mais ampla de todas as pessoas LGBTIQ+, exigindo que a UE assuma a liderança na luta contra os movimentos antigénero. A Comissão Europeia lançou uma nova estratégia de igualdade LGBTIQ+ para 2026-2030 que nomeia explicitamente mulheres e homens trans. Enquanto a Europa institucional reconhece, a direita portuguesa quer revogar. Enquanto o Parlamento Europeu vota pela dignidade, o parlamento português agenda o retrocesso.&#xA;&#xA;Do lado esquerdo do hemiciclo, o Bloco de Esquerda apresentou, pela mão de Fabian Figueiredo, um projecto que visa reforçar a aplicação da Lei n.º 38/2018 — orientações para escolas, formação para profissionais, mecanismos de apoio a estudantes trans. É necessário. Mas não basta. Dean Spade tem argumentado que os sistemas administrativos de classificação de género são, por natureza, mecanismos de controlo — e que a luta pela autodeterminação não se ganha apenas nos parlamentos. Ganha-se nas ruas, nas escolas, nos locais de trabalho, em cada espaço onde um corpo dissidente é forçado a justificar a sua existência.&#xA;&#xA;O debate de 19 de março não é sobre procedimentos administrativos. É sobre quem tem o poder de definir quem somos. A direita portuguesa, colada numa ofensiva que vai de Budapeste a Washington, quer devolver esse poder ao Estado, à medicina e à norma. A nossa resposta é a mesma de sempre: os nossos corpos, a nossa palavra e a recusa absoluta de pedir licença para existir.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Projeto de Lei do Chega (CH): Objetivo: Revogação total da lei atual e regresso ao modelo de diagnóstico clínico obrigatório. Link/Referência: Projeto de Lei n.º 391/XVI/1.ª - Revogação da Lei n.º 38/2018.2.&#xA;&#xA;Projeto de Lei do PSDObjetivo: Restaurar o regime da Lei n.º 7/2011, exigindo que profissionais de saúde validem a alteração do sexo no registo civil. O artigo nota ainda que este projeto omite as proteções para pessoas intersexo.Link/Referência: Projeto de lei n.º 486/XVII/1ª - Alteração ao regime jurídico da identidade de género.&#xA;&#xA;Projeto de Lei do CDS-PPObjetivo: Proibir a prescrição de bloqueadores hormonais a menores de 18 anos em contexto de incongruência de género.Link/Referência: Projeto de Lei n.º 479/XVI/1.ª - Proteção de menores em cuidados de saúde de género.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;#cuir #kuir #trans #autodeterminação #lei38 #direitostrans #portugal #assembleia #repatologização #SPSC #intersexo #LGBTI #feminismo #descolonial&#xA;&#xA;phr style=&#34;border: none; border-top: 1px solid #ff69b4;&#34;&#xD;&#xA;emPor Orlando Figueiredo, desde as margens./em/pbr---brpQueres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! br&#xD;&#xA;!--emailsub--/p]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<h3 id="a-repatologização-como-projecto-político-quando-a-direita-se-une-contra-a-autodeterminação" id="a-repatologização-como-projecto-político-quando-a-direita-se-une-contra-a-autodeterminação">A repatologização como projecto político: quando a direita se une contra a autodeterminação.</h3>

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<p>No dia 19 de março, a Assembleia da República vai decidir se Portugal continua a reconhecer que as pessoas trans existem sem pedir licença à medicina.</p>

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<p>No próximo dia 19 de março, três partidos da direita portuguesa — Chega, PSD e CDS-PP — vão levar à Assembleia da República projectos de lei cujo objectivo é um só: desmantelar a <a href="https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/lei/38-2018-115933863">Lei n.º 38/2018</a>, que consagra o direito à autodeterminação da identidade de género. Não são três iniciativas independentes. É uma ofensiva coordenada contra a existência jurídica das pessoas trans em Portugal. E é preciso chamá-la pelo nome.</p>

<p><img src="https://i.snap.as/JQErTxDF.jpg" alt=""/></p>

<h6 id="bandeira-trans-identidade-e-direito-a-luta-pela-autodeterminação-de-género-em-portugal-enfrenta-uma-nova-ofensiva-parlamentar-fotografia-de-lena-balk-2020-uso-gratuito-sob-a-licença-da-unsplash-https-unsplash-com-pt-br-licen-c3-a7a" id="bandeira-trans-identidade-e-direito-a-luta-pela-autodeterminação-de-género-em-portugal-enfrenta-uma-nova-ofensiva-parlamentar-fotografia-de-lena-balk-2020-uso-gratuito-sob-a-licença-da-unsplash-https-unsplash-com-pt-br-licen-c3-a7a">Bandeira Trans – Identidade e Direito. A luta pela autodeterminação de género em Portugal enfrenta uma nova ofensiva parlamentar. | Fotografia de <strong>Lena Balk</strong> (2020) – Uso gratuito sob a <a href="https://unsplash.com/pt-br/licen%C3%A7a">Licença da Unsplash</a></h6>

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<p>O Chega quer a revogação pura e simples da lei e o regresso a um modelo de diagnóstico clínico obrigatório. O PSD, pela mão de Hugo Soares — o mesmo que em 2015 propôs um referendo sobre a adopção por casais homossexuais e que, dias antes deste debate, não hesitou em invocar cinicamente os direitos das minorias e das mulheres para justificar o apoio cobarde de Portugal ao ataque dos EUA ao Irão —, apresenta um projecto que restaura o regime da <a href="https://diariodarepublica.pt/dr/legislacao-consolidada/lei/2011-34463375">Lei n.º 7/2011</a>, devolvendo a profissionais de saúde o poder de decidir quem pode ou não alterar a menção do sexo no registo civil.</p>

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<p><iframe allow="monetization" class="embedly-embed" src="//cdn.embedly.com/widgets/media.html?src=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fembed%2F-FfDmGOBPg8%3Ffeature%3Doembed&display_name=YouTube&url=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3D-FfDmGOBPg8&image=https%3A%2F%2Fi.ytimg.com%2Fvi%2F-FfDmGOBPg8%2Fhqdefault.jpg&type=text%2Fhtml&schema=youtube" width="640" height="360" scrolling="no" title="YouTube embed" frameborder="0" allow="autoplay; fullscreen; encrypted-media; picture-in-picture;" allowfullscreen="true"></iframe></p>

<h6 id="entre-as-lajes-e-a-lei-38-a-hipocrisia-homonacionalista-de-hugo-soares" id="entre-as-lajes-e-a-lei-38-a-hipocrisia-homonacionalista-de-hugo-soares">Entre as Lajes e a Lei 38: A Hipocrisia Homonacionalista de Hugo Soares</h6>

<h6 id="um-exemplo-claro-de-retórica-homonacionalista-onde-hugo-soares-psd-invoca-a-proteção-de-mulheres-e-minorias-no-irão-para-legitimar-o-apoio-militar-aos-eua-contrastando-com-a-ofensiva-contra-a-autodeterminação-de-género-em-portugal-agendada-para-19-de-março" id="um-exemplo-claro-de-retórica-homonacionalista-onde-hugo-soares-psd-invoca-a-proteção-de-mulheres-e-minorias-no-irão-para-legitimar-o-apoio-militar-aos-eua-contrastando-com-a-ofensiva-contra-a-autodeterminação-de-género-em-portugal-agendada-para-19-de-março">Um exemplo claro de retórica <strong>homonacionalista</strong>, onde Hugo Soares (PSD) invoca a proteção de mulheres e minorias no Irão para legitimar o apoio militar aos EUA , contrastando com a ofensiva contra a autodeterminação de género em Portugal agendada para 19 de março.</h6>

<h6 id="extrato-da-reunião-plenária-de-4-de-março-de-2026-intervenção-hugo-soares-psd-sobre-o-apoio-logístico-aos-eua-e-a-condenação-do-regime-iraniano-em-nome-das-mulheres-e-minorias-duração-do-corte-23-segundos-de-00-27-24-00-27-47-fonte-original-canal-parlamento-reunião-plenária-de-04-03-2026-https-canal-parlamento-pt-cid-9222-reuniao-plenaria" id="extrato-da-reunião-plenária-de-4-de-março-de-2026-intervenção-hugo-soares-psd-sobre-o-apoio-logístico-aos-eua-e-a-condenação-do-regime-iraniano-em-nome-das-mulheres-e-minorias-duração-do-corte-23-segundos-de-00-27-24-00-27-47-fonte-original-canal-parlamento-reunião-plenária-de-04-03-2026-https-canal-parlamento-pt-cid-9222-reuniao-plenaria"><strong>Extrato da Reunião Plenária de 4 de março de 2026.</strong> <strong>Intervenção:</strong> Hugo Soares (PSD) sobre o apoio logístico aos EUA e a condenação do regime iraniano em nome das mulheres e minorias. | Duração do corte: 23 segundos (De 00:27:24 — 00:27:47). | <strong>Fonte Original:</strong> <a href="https://canal.parlamento.pt/cid/9222/reuniao-plenaria">Canal Parlamento – Reunião Plenária de 04/03/2026</a></h6>

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<p>A hipocrisia é cirúrgica: os direitos das minorias servem para justificar uma guerra, mas não para proteger pessoas trans em Portugal. O CDS-PP, por sua vez, quer proibir a prescrição de bloqueadores hormonais a menores de 18 anos em contexto de incongruência de género. Três projectos, um só gesto: retirar às pessoas trans o direito de se nomearem a si mesmas.</p>

<p>Sejamos precisos. A alteração da menção do sexo no registo civil é um acto administrativo. Não implica cirurgias. Não implica tratamentos hormonais. Não implica qualquer procedimento médico. É papel. É reconhecimento jurídico. E é exactamente isso que a direita quer condicionar. A confusão deliberada entre reconhecimento legal e intervenção clínica é a grande mentira desta ofensiva. Quem a repete sabe o que está a fazer.</p>

<p>Reintroduzir a exigência de diagnóstico clínico significa, na prática, obrigar pessoas trans a provar perante um painel de especialistas que a sua identidade é real. Significa devolver ao poder médico a capacidade de validar ou recusar a existência jurídica de alguém. Paul B. Preciado chamou a isto farmacopolítica: o Estado como regulador dos corpos dissidentes, distribuindo ou negando o acesso à identidade conforme critérios que não são científicos — são disciplinares. Judith Butler, há mais de três décadas, demonstrou que o género não é uma essência que a medicina possa certificar — é uma construção performativa que o poder reitera ou pune. Exigir um diagnóstico é precisamente reiterar a ficção de um género verdadeiro, acessível apenas por validação institucional.</p>

<p>A ciência fala contra a direita. E fala em português. A Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica emitiu um parecer técnico-científico sobre o projecto do Chega que não deixa margem para dúvidas: a iniciativa assenta em premissas que contradizem o consenso clínico internacional. Chamar ideologia à disforia de género, como faz o Chega, é negacionismo científico. A Organização Mundial de Saúde retirou a incongruência de género da categoria de perturbações mentais na <a href="https://icd.who.int/pt/">CID-11</a>. O <a href="https://spsc.pt/index.php/parecer-tecnico-cientifico-da-sociedade-portuguesa-de-sexologia-clinica/">parecer da SPSC</a> vai mais longe e recorda que as dificuldades de saúde mental observadas em pessoas trans estão associadas ao estigma social e ao minority stress — não à identidade de género em si. Traduzindo: o problema não é ser trans. O problema é o que a sociedade faz a quem é trans. Legislar para aumentar o estigma é legislar para aumentar o sofrimento. Quem apresenta estes projectos de lei sabe-o — e fá-lo na mesma, porque o sofrimento das pessoas trans é rentável eleitoralmente.</p>

<p>Há um silêncio na proposta do PSD que merece ser nomeado. O projecto não faz qualquer referência às protecções relativas a pessoas intersexo menores de idade previstas na lei actual. A <a href="https://diariodarepublica.pt/dr/legislacao-consolidada/lei/2018-115935378">Lei n.º 38/2018</a> estabelece que, salvo risco comprovado para a saúde, intervenções cirúrgicas ou farmacológicas que modifiquem as características sexuais de menores intersexo não devem ser realizadas até que a pessoa possa manifestar a sua identidade de género. O PSD apaga esta disposição. O silêncio institucional sobre os corpos intersexo é sempre cúmplice da violência cirúrgica exercida sobre crianças cujos corpos não cabem na norma binária. Omitir não é esquecer. É autorizar.</p>

<p>Nada disto acontece no vazio. O relatório anual da <a href="https://www.ilga-europe.org/report/annual-review-2026/">ILGA-Europe de 2026</a> é categórico: a Europa entrou numa nova fase de regressão democrática. O que antes eram ataques pontuais contra pessoas LGBTI+ é agora política estruturada — limitação de direitos, criminalização, silenciamento. A Geórgia equipara relações homossexuais ao incesto. A Rússia classifica o movimento LGBTI+ como extremista. O Reino Unido redefine legalmente o conceito de mulher com base no sexo biológico. A administração Trump revoga protecções contra a discriminação de pessoas trans. É nesta companhia que a direita portuguesa quer colocar o país.</p>

<p>Mas há uma contra-corrente — e a direita portuguesa está do lado errado dela. Em fevereiro de 2026, o Parlamento Europeu aprovou uma <a href="https://www.europarl.europa.eu/doceo/document/A-10-2026-0010_PT.html">resolução</a> que recomenda o reconhecimento pleno das mulheres trans como mulheres, considerando a sua inclusão essencial para a eficácia das políticas de igualdade de género: 340 votos a favor, 141 contra, 68 abstenções. A extrema-direita e os conservadores ficaram em minoria. A resolução abrange ainda a protecção mais ampla de todas as pessoas LGBTIQ+, exigindo que a UE assuma a liderança na luta contra os movimentos antigénero. A Comissão Europeia lançou uma nova estratégia de igualdade LGBTIQ+ para 2026-2030 que nomeia explicitamente mulheres e homens trans. Enquanto a Europa institucional reconhece, a direita portuguesa quer revogar. Enquanto o Parlamento Europeu vota pela dignidade, o parlamento português agenda o retrocesso.</p>

<p>Do lado esquerdo do hemiciclo, o Bloco de Esquerda apresentou, pela mão de Fabian Figueiredo, um projecto que visa reforçar a aplicação da <a href="https://diariodarepublica.pt/dr/legislacao-consolidada/lei/2018-115935378">Lei n.º 38/2018</a> — orientações para escolas, formação para profissionais, mecanismos de apoio a estudantes trans. É necessário. Mas não basta. Dean Spade tem argumentado que os sistemas administrativos de classificação de género são, por natureza, mecanismos de controlo — e que a luta pela autodeterminação não se ganha apenas nos parlamentos. Ganha-se nas ruas, nas escolas, nos locais de trabalho, em cada espaço onde um corpo dissidente é forçado a justificar a sua existência.</p>

<p>O debate de 19 de março não é sobre procedimentos administrativos. É sobre quem tem o poder de definir quem somos. A direita portuguesa, colada numa ofensiva que vai de Budapeste a Washington, quer devolver esse poder ao Estado, à medicina e à norma. A nossa resposta é a mesma de sempre: os nossos corpos, a nossa palavra e a recusa absoluta de pedir licença para existir.</p>

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<ol><li><p>Projeto de Lei do Chega (CH): Objetivo: Revogação total da lei atual e regresso ao modelo de diagnóstico clínico obrigatório. Link/Referência: <a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=346025">Projeto de Lei n.º 391/XVI/1.ª – Revogação da Lei n.º 38/2018.2.</a></p></li>

<li><p>Projeto de Lei do PSDObjetivo: Restaurar o regime da Lei n.º 7/2011, exigindo que profissionais de saúde validem a alteração do sexo no registo civil. O artigo nota ainda que este projeto omite as proteções para pessoas intersexo.Link/Referência: <a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=356298">Projeto de lei n.º 486/XVII/1ª – Alteração ao regime jurídico da identidade de género</a>.</p></li>

<li><p>Projeto de Lei do CDS-PPObjetivo: Proibir a prescrição de bloqueadores hormonais a menores de 18 anos em contexto de incongruência de género.Link/Referência: <a href="https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=356287&amp;utm_source=chatgpt.com">Projeto de Lei n.º 479/XVI/1.ª – Proteção de menores em cuidados de saúde de género.</a></p></li></ol>

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<p><a href="https://kuircuir.pt/tag:cuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">cuir</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:kuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">kuir</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:trans" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">trans</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:autodetermina%C3%A7%C3%A3o" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">autodeterminação</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lei38" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lei38</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:direitostrans" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">direitostrans</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:portugal" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">portugal</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:assembleia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">assembleia</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:repatologiza%C3%A7%C3%A3o" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">repatologização</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:SPSC" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">SPSC</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:intersexo" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">intersexo</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:LGBTI" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">LGBTI</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:feminismo" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">feminismo</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:descolonial" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">descolonial</span></a></p>

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<em>Por Orlando Figueiredo, desde as margens.</em></p><br>---<br><p>Queres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! <br>
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      <pubDate>Tue, 10 Mar 2026 22:17:02 +0000</pubDate>
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      <title>Que corpos contam? - Texto 1: A fábrica da masculinidade</title>
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      <description>&lt;![CDATA[Como a masculinidade hegemónica produz os corpos que contam&#xA;&#xA;A masculinidade hegemónica não descreve um tipo de homem. Descreve uma máquina. Um regime de produção que decide, em cada contexto, que corpos são reconhecidos como legítimos, que vidas merecem protecção e que existências podem aparecer no espaço público sem risco de violência. Compreender isto — que a masculinidade dominante não é uma identidade mas um aparelho — é o ponto de partida deste caderno.&#xA;&#xA;Este texto abre o segundo caderno do Kuir Cuir. O primeiro percorreu a repressão e a resistência cuir do pós-guerra a Stonewall. Este segundo caderno, Que corpos contam?, propõe uma cuirografia de masculinidade e poder — uma escrita situada, politicamente comprometida, que interroga como a hegemonia masculina fabrica hierarquias entre corpos, entre vidas, entre formas de existir. Os textos que se seguem nasceram de um trabalho académico no âmbito de um mestrado em Estudos Interdisciplinares de Género e Sexualidade, mas precisavam de outra língua e de outra casa. A armadura institucional protegia o argumento e sufocava-o ao mesmo tempo. Este caderno é o gesto de o libertar — não para o simplificar, mas para o devolver ao lugar onde o pensamento respira melhor: nas margens.&#xA;&#xA;Cada texto é acompanhado de uma secção de leituras que situa as referências mobilizadas; no final do caderno, uma bibliografia comentada reúne o conjunto das filiações intelectuais que sustentam esta cuirografia.&#xA;&#xA;Fotografia de Julee Juu (2026) - Uso gratuito sob a Licença da Unsplash&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;A hierarquia e o seu exterior&#xA;&#xA;A teoria das masculinidades, tal como Raewyn Connell a sistematizou na sua obra fundadora Masculinities, descreve a existência de uma hierarquia relacional entre diferentes formas de ser homem. No topo, a masculinidade hegemónica — não necessariamente a mais comum, nem sequer a mais visível, mas a culturalmente dominante: aquela que organiza o consenso sobre o que um homem deve ser, como deve agir, que desejos pode ter e que corpo deve habitar. A hegemonia não se impõe apenas pela força. Funciona por liderança, por persuasão, por aquilo que se apresenta como óbvio e que, por parecer óbvio, deixa de ser questionado. É poder tornado legítimo — ou, como sintetizam Richard Howson e Jeff Hearn, autoridade que resulta da fusão entre poder e legitimidade.&#xA;&#xA;Abaixo da hegemonia, Connell identifica outras posições. As masculinidades cúmplices são aquelas que não encarnam o ideal hegemónico mas beneficiam dele — o dividendo patriarcal, como lhe chama Connell, distribui-se mesmo entre homens que nunca exercem directamente a dominação. A cumplicidade é silenciosa, confortável, quase invisível: é o homem que não agride mas que lucra com um sistema que agride por ele. As masculinidades subordinadas ocupam o polo oposto — são aquelas que a hegemonia empurra para baixo porque ameaçam a sua coerência. A masculinidade gay é o caso paradigmático: ao desligar masculinidade de heterossexualidade, expõe a contingência daquilo que a hegemonia apresenta como natural. E há ainda as masculinidades marginalizadas, estruturadas não apenas por género mas por raça, classe e nacionalidade — masculinidades que, mesmo quando heterossexuais, são excluídas do centro porque os corpos que as habitam são lidos como excesso, risco ou ameaça.&#xA;&#xA;Esta hierarquia não é estática. A hegemonia reconfigura-se, adapta-se, absorve seletivamente aquilo que lhe convém. Masculinidades híbridas, como lhes chamam alguns autores, incorporam práticas cuir, estéticas femininas ou sensibilidades progressistas sem abdicar do privilégio estrutural — uma flexibilidade que fortalece a hegemonia precisamente por a fazer parecer mais aberta do que é. Mas o ponto decisivo, aquele que Connell e os seus leitores mais atentos sublinham, é que a masculinidade hegemónica se define sempre em relação ao seu exterior. A hegemonia precisa de masculinidades subordinadas e marginalizadas para se estabilizar. Sem o abjeto, não há legítimo. Sem a fronteira, não há centro. O exterior não é um resíduo do sistema — é a sua condição de funcionamento.&#xA;&#xA;Isto significa que a exclusão das masculinidades cuir, racializadas ou de classe popular não é uma falha da hegemonia. É o seu modo de operar. A fábrica não produz apenas o homem legítimo — produz, ao mesmo tempo, os corpos que precisam de ser excluídos para que a legitimidade se mantenha. E é esta produção simultânea do centro e das margens que faz da masculinidade hegemónica um regime de poder e não apenas uma preferência cultural.&#xA;&#xA;Da norma à fábrica: o deslocamento ontológico&#xA;&#xA;Dizer que a masculinidade hegemónica é uma norma cultural, um regime simbólico, uma estrutura relacional — tudo isto é verdadeiro, mas ainda não é suficiente. A leitura de Connell descreve com precisão como a hierarquia se organiza, mas tende a manter a análise no plano do discurso, das representações e das práticas culturais. É aqui que este caderno propõe um deslocamento — não para negar a dimensão cultural, mas para a radicalizar.&#xA;&#xA;O realismo agencial de Karen Barad oferece as ferramentas para esse gesto. Para Barad, matéria e significado não existem como esferas separadas que depois se relacionam. Estão inextricavelmente fundidos: aquilo a que chamamos realidade é produzido por práticas material-discursivas que são simultaneamente físicas, institucionais, tecnológicas e normativas. Não há, de um lado, os corpos, e do outro, as normas que os classificam. Há práticas que produzem certos corpos como inteligíveis e outros como abjectos, certas vidas como reconhecíveis e outras como descartáveis. A esta produção, Barad chama materialização — e é um processo contínuo, situado e historicamente contingente.&#xA;&#xA;Aplicar isto à masculinidade hegemónica muda radicalmente o que vemos. A hegemonia deixa de ser apenas um conjunto de ideias sobre o que um homem deve ser. Torna-se um regime de materialização: um aparelho que, através de práticas concretas — exames médicos, documentos legais, formulários administrativos, procedimentos policiais, critérios de elegibilidade, protocolos psiquiátricos —, produz alguns corpos como masculinos legítimos e outros como desviantes, insuficientes ou inexistentes. Estes aparelhos não se limitam a aplicar categorias a corpos que já existem. Participam na produção dos próprios corpos e das próprias categorias. O género não preexiste às práticas que o mobilizam — emerge delas.&#xA;&#xA;Judith Butler já nos tinha mostrado que o género é um efeito performativo. A repetição de normas heteronormativas, a vigilância dos comportamentos, a sanção da dissidência — tudo isto produz a aparência de uma essência natural onde só há história e poder. Corpos inteligíveis e sujeitos reconhecíveis são o resultado dessa repetição, não a sua causa. O contributo de Barad radicaliza este gesto de Butler: não se trata apenas de performatividade discursiva, mas de materialização no sentido forte do termo. As normas de género não apenas regulam ou representam diferenças — participam activamente na produção material dessas diferenças. Quando um protocolo médico exige que uma pessoa trans apresente uma narrativa coerente de disforia para aceder a tratamento hormonal, não está apenas a aplicar uma norma — está a fabricar o sujeito de género que pode existir. Quando um formulário oferece apenas duas opções de sexo, não está apenas a simplificar — está a produzir um mundo em que certas existências não cabem. Quando a polícia lê um corpo racializado como ameaça e um corpo cuir como anomalia, não está apenas a interpretar — está a materializar hierarquias que se inscrevem na carne de quem as vive.&#xA;&#xA;É esta passagem — da regulação à produção, da norma à fábrica — que distingue a leitura que este caderno propõe. A masculinidade hegemónica não representa diferenças: produz corpos como inteligíveis ou abjetos, vidas como reconhecíveis ou descartáveis, existências como legítimas ou impossíveis. E produz tudo isto não através de uma ideologia abstracta, mas através de aparelhos concretos que operam nas instituições, nas tecnologias e nas práticas quotidianas.&#xA;&#xA;A dimensão epistemológica deste regime é igualmente decisiva. Donna Haraway, no seu ensaio fundador sobre conhecimentos situados, mostrou que todo o conhecimento é parcial, localizado, produzido a partir de corpos e posições sociais concretas. Não existe um olhar de lugar nenhum. A pretensão de objectividade universal — aquilo a que Haraway chama o truque divino — é sempre o privilégio de quem pode esconder a sua posição, de quem não precisa de se nomear porque se confunde com o padrão. O olhar que se diz neutro é, quase sempre, o olhar branco, cisgénero, heterossexual, de classe média, nacional — aquele que nunca precisa de justificar a sua perspectiva porque a tomou como sinónimo de verdade.&#xA;&#xA;Isto tem consequências directas para a análise da masculinidade hegemónica. Os dados que temos sobre discriminação, as políticas públicas que dizem combatê-la, os enquadramentos jurídicos que prometem igualdade — tudo isto é produzido a partir de posições situadas. Quando um estudo mede a discriminação com categorias estanques — homossexual, heterossexual, homem, mulher —, está a operar a partir de uma ontologia que já decidiu o que existe e o que não existe, que experiências são legíveis e quais escapam ao enquadramento. Quando uma política pública assume que a igualdade formal resolve a exclusão material, está a olhar a partir de uma posição que nunca sentiu a distância entre a lei e a vida. Reconhecer a localização do olhar não é um exercício académico — é uma condição de honestidade intelectual e de responsabilidade política.&#xA;&#xA;Desmontar a máquina&#xA;&#xA;Integrar estas perspectivas — Connell, Barad, Butler, Haraway — permite compreender que a masculinidade hegemónica é mais do que uma norma cultural ou um regime simbólico. É um regime onto-epistémico-material: produz corpos, organiza saberes e distribui desigualmente o acesso à existência reconhecida. Quando dizemos que certos homens são subordinados ou marginalizados, não estamos apenas a descrever posições numa hierarquia de prestígio. Estamos a nomear os efeitos concretos de uma fábrica que precisa de produzir o abjeto para estabilizar o legítimo, que precisa de fronteiras para se definir, e que opera através de instituições, tecnologias e práticas quotidianas que fazem parecer natural aquilo que é histórico, contingente e politicamente produzido.&#xA;&#xA;E é precisamente aqui que a análise muda de natureza. Se a masculinidade hegemónica fosse apenas uma norma cultural, bastaria mudá-la com educação, representação e boa vontade. Mais inclusão nos media, mais formação nas escolas, mais campanhas de sensibilização — e o problema estaria resolvido. Mas se a hegemonia é um regime material — se produz corpos, se se inscreve em instituições, se molda os próprios instrumentos com que a medimos —, então combatê-la exige outra coisa. Exige desmontar os aparelhos que a fabricam: os protocolos médicos que decidem quem é homem suficiente, os formulários que apagam existências não-binárias, os sistemas policiais que lêem raça e género como ameaça, os critérios de elegibilidade que excluem quem não cabe nas categorias dominantes. Exige interrogar quem produz conhecimento sobre género, a partir de que posição, com que instrumentos e ao serviço de que interesses. Exige recusar a neutralidade como disfarce do privilégio — porque a neutralidade, quando estamos perante um sistema que produz vidas descartáveis, é sempre cumplicidade.&#xA;&#xA;E exige, sobretudo, partir dos corpos que a hegemonia descarta. Não por romantismo nem por altruismo, mas por rigor. Porque é nas margens — nos corpos que a fábrica rejeita — que se vê com mais clareza como a máquina funciona. Quem nunca precisou de provar que é homem não sabe como a masculinidade é produzida. Quem nunca sentiu o olhar policial sobre a sua pele não sabe como a raça se materializa. Quem nunca ficou de fora de um formulário não sabe o que significa ser ontologicamente excluído. O conhecimento que emerge desses corpos não é subjectivo nem anedótico — é situado, material e politicamente indispensável.&#xA;&#xA;Os textos que se seguem neste caderno fazem exactamente esse percurso. Partem dos monstros que a masculinidade hegemónica precisa de criar, passam pela igualdade que o Estado português celebra enquanto vidas cuir ficam de fora, detêm-se num corpo negro e cuir que intensifica a sua dissidência como escudo contra a violência racial, e terminam com a pergunta sobre quem pode conhecer a discriminação — e a partir de que carne. A fábrica da masculinidade é o primeiro passo: nomear a máquina. Os seguintes tratam de a desmontar.&#xA;&#xA;Leituras&#xA;&#xA;Raewyn Connell, Masculinities (1995, 2.ª edição 2005). A obra fundadora da teoria das masculinidades, que introduziu os conceitos de masculinidade hegemónica, subordinada, cúmplice e marginalizada. Connell mostra que a masculinidade não é um atributo individual mas uma estrutura relacional de poder — entre homens e entre homens e mulheres. Sem este livro, o campo não existiria como o conhecemos. Leitura indispensável para qualquer análise crítica de género que recuse essencialismos.&#xA;&#xA;Karen Barad, Meeting the Universe Halfway: Quantum Physics and the Entanglement of Matter and Meaning (2007). Barad propõe o realismo agencial, uma onto-epistemologia que recusa a separação entre matéria e discurso e defende que a realidade é performativa — produzida por práticas material-discursivas e não dada à partida. Uma ferramenta poderosa para compreender que as desigualdades de género não são apenas representadas, são materializadas em aparelhos concretos. Livro denso e exigente, mas que recompensa cada página.&#xA;&#xA;Judith Butler, Problemas de Género: Feminismo e Subversão da Identidade (1990, tradução portuguesa Orfeu Negro, 2023). Butler argumenta que o género é um efeito performativo — produzido pela repetição de normas e não pela expressão de uma essência interior. A sua crítica à naturalização do sexo e do género fundou a teoria cuir e continua a ser uma referência incontornável. A tradução portuguesa permite finalmente ler este texto fundamental na nossa língua.&#xA;&#xA;Donna Haraway, Situated Knowledges: The Science Question in Feminism and the Privilege of Partial Perspective (1988). Neste ensaio seminal, Haraway defende que todo o conhecimento é parcial, localizado e produzido a partir de posições concretas. A objectividade não é a vista de lugar nenhum — é a responsabilidade de assumir de onde se olha. Leitura essencial para quem quer pensar criticamente a produção de saber sobre género e sexualidade, e para quem desconfia — com razão — da neutralidade.&#xA;&#xA;Richard Howson e Jeff Hearn, Hegemony, Hegemonic Masculinity, and Beyond, in Routledge International Handbook of Masculinity Studies (2020). Uma revisão crítica do conceito de masculinidade hegemónica que sublinha a sua natureza relacional, a importância do exterior constitutivo e a articulação entre poder e legitimidade. Leitura útil para quem quer ir além da vulgata sobre masculinidade tóxica e compreender a hegemonia como estrutura, não como insulto.&#xA;&#xA;Pierre Bourdieu, La domination masculine_ (1998). Bourdieu analisa como a dominação masculina se naturaliza através de esquemas de percepção incorporados, reproduzidos por instituições e práticas quotidianas. A violência simbólica — central nesta obra — actua precisamente por não se apresentar como violência, mas como evidência, consenso ou normalidade. Uma referência clássica que este caderno mobiliza pontualmente, mas cuja análise dos mecanismos de naturalização do poder permanece indispensável.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;#cuir #kuir #masculinidades #hegemoniamasculina #teoria #interseccionalidade #realismoagencial #barad #connell #butler #haraway #bourdieu #Caderno2 #desdeasmargens&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;phr style=&#34;border: none; border-top: 1px solid #ff69b4;&#34;&#xD;&#xA;emPor Orlando Figueiredo, desde as margens./em/pbr---brpQueres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! br&#xD;&#xA;!--emailsub--/p]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<h2 id="como-a-masculinidade-hegemónica-produz-os-corpos-que-contam" id="como-a-masculinidade-hegemónica-produz-os-corpos-que-contam">Como a masculinidade hegemónica produz os corpos que contam</h2>

<p>A masculinidade hegemónica não descreve um tipo de homem. Descreve uma máquina. Um regime de produção que decide, em cada contexto, que corpos são reconhecidos como legítimos, que vidas merecem protecção e que existências podem aparecer no espaço público sem risco de violência. Compreender isto — que a masculinidade dominante não é uma identidade mas um aparelho — é o ponto de partida deste caderno.</p>

<p>Este texto abre o segundo caderno do Kuir Cuir. O primeiro percorreu a repressão e a resistência cuir do pós-guerra a Stonewall. Este segundo caderno, <strong>Que corpos contam?</strong>, propõe uma <strong>cuirografia de masculinidade e poder</strong> — uma escrita situada, politicamente comprometida, que interroga como a hegemonia masculina fabrica hierarquias entre corpos, entre vidas, entre formas de existir. Os textos que se seguem nasceram de um trabalho académico no âmbito de um mestrado em Estudos Interdisciplinares de Género e Sexualidade, mas precisavam de outra língua e de outra casa. A armadura institucional protegia o argumento e sufocava-o ao mesmo tempo. Este caderno é o gesto de o libertar — não para o simplificar, mas para o devolver ao lugar onde o pensamento respira melhor: <strong>nas margens</strong>.</p>

<p>Cada texto é acompanhado de uma secção de leituras que situa as referências mobilizadas; no final do caderno, uma bibliografia comentada reúne o conjunto das filiações intelectuais que sustentam esta cuirografia.</p>

<p><img src="https://i.snap.as/hACfhbWC.jpg" alt=""/></p>

<h6 id="fotografia-de-julee-juu-2026-https-unsplash-com-pt-br-julee-juu-uso-gratuito-sob-a-licença-da-unsplash-https-unsplash-com-pt-br-licen-c3-a7a" id="fotografia-de-julee-juu-2026-https-unsplash-com-pt-br-julee-juu-uso-gratuito-sob-a-licença-da-unsplash-https-unsplash-com-pt-br-licen-c3-a7a">Fotografia de <a href="https://unsplash.com/pt-br/@julee_juu">Julee Juu (2026)</a> – Uso gratuito sob a <a href="https://unsplash.com/pt-br/licen%C3%A7a">Licença da Unsplash</a></h6>

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<h2 id="a-hierarquia-e-o-seu-exterior" id="a-hierarquia-e-o-seu-exterior">A hierarquia e o seu exterior</h2>

<p>A teoria das masculinidades, tal como Raewyn Connell a sistematizou na sua obra fundadora <em>Masculinities</em>, descreve a existência de uma hierarquia relacional entre diferentes formas de ser homem. No topo, a masculinidade hegemónica — não necessariamente a mais comum, nem sequer a mais visível, mas a culturalmente dominante: aquela que organiza o consenso sobre o que um homem deve ser, como deve agir, que desejos pode ter e que corpo deve habitar. A hegemonia não se impõe apenas pela força. Funciona por liderança, por persuasão, por aquilo que se apresenta como óbvio e que, por parecer óbvio, deixa de ser questionado. É poder tornado legítimo — ou, como sintetizam Richard Howson e Jeff Hearn, autoridade que resulta da fusão entre poder e legitimidade.</p>

<p>Abaixo da hegemonia, Connell identifica outras posições. As masculinidades cúmplices são aquelas que não encarnam o ideal hegemónico mas beneficiam dele — o dividendo patriarcal, como lhe chama Connell, distribui-se mesmo entre homens que nunca exercem directamente a dominação. A cumplicidade é silenciosa, confortável, quase invisível: é o homem que não agride mas que lucra com um sistema que agride por ele. As masculinidades subordinadas ocupam o polo oposto — são aquelas que a hegemonia empurra para baixo porque ameaçam a sua coerência. A masculinidade gay é o caso paradigmático: ao desligar masculinidade de heterossexualidade, expõe a contingência daquilo que a hegemonia apresenta como natural. E há ainda as masculinidades marginalizadas, estruturadas não apenas por género mas por raça, classe e nacionalidade — masculinidades que, mesmo quando heterossexuais, são excluídas do centro porque os corpos que as habitam são lidos como excesso, risco ou ameaça.</p>

<p>Esta hierarquia não é estática. A hegemonia reconfigura-se, adapta-se, absorve seletivamente aquilo que lhe convém. Masculinidades híbridas, como lhes chamam alguns autores, incorporam práticas cuir, estéticas femininas ou sensibilidades progressistas sem abdicar do privilégio estrutural — uma flexibilidade que fortalece a hegemonia precisamente por a fazer parecer mais aberta do que é. Mas o ponto decisivo, aquele que Connell e os seus leitores mais atentos sublinham, é que a masculinidade hegemónica se define sempre em relação ao seu exterior. A hegemonia precisa de masculinidades subordinadas e marginalizadas para se estabilizar. Sem o abjeto, não há legítimo. Sem a fronteira, não há centro. <strong>O exterior não é um resíduo do sistema — é a sua condição de funcionamento.</strong></p>

<p>Isto significa que a exclusão das masculinidades cuir, racializadas ou de classe popular não é uma falha da hegemonia. É o seu modo de operar. A fábrica não produz apenas o homem legítimo — produz, ao mesmo tempo, os corpos que precisam de ser excluídos para que a legitimidade se mantenha. E é esta produção simultânea do centro e das margens que faz da masculinidade hegemónica um regime de poder e não apenas uma preferência cultural.</p>

<h2 id="da-norma-à-fábrica-o-deslocamento-ontológico" id="da-norma-à-fábrica-o-deslocamento-ontológico">Da norma à fábrica: o deslocamento ontológico</h2>

<p>Dizer que a masculinidade hegemónica é uma norma cultural, um regime simbólico, uma estrutura relacional — tudo isto é verdadeiro, mas ainda não é suficiente. A leitura de Connell descreve com precisão como a hierarquia se organiza, mas tende a manter a análise no plano do discurso, das representações e das práticas culturais. É aqui que este caderno propõe um deslocamento — não para negar a dimensão cultural, mas para a radicalizar.</p>

<p>O realismo agencial de Karen Barad oferece as ferramentas para esse gesto. Para Barad, matéria e significado não existem como esferas separadas que depois se relacionam. Estão inextricavelmente fundidos: aquilo a que chamamos realidade é produzido por práticas material-discursivas que são simultaneamente físicas, institucionais, tecnológicas e normativas. <strong>Não há, de um lado, os corpos, e do outro, as normas que os classificam.</strong> Há práticas que produzem certos corpos como inteligíveis e outros como abjectos, certas vidas como reconhecíveis e outras como descartáveis. A esta produção, Barad chama materialização — e é um processo contínuo, situado e historicamente contingente.</p>

<p>Aplicar isto à masculinidade hegemónica muda radicalmente o que vemos. A hegemonia deixa de ser apenas um conjunto de ideias sobre o que um homem deve ser. Torna-se um regime de materialização: um aparelho que, através de práticas concretas — exames médicos, documentos legais, formulários administrativos, procedimentos policiais, critérios de elegibilidade, protocolos psiquiátricos —, produz alguns corpos como masculinos legítimos e outros como desviantes, insuficientes ou inexistentes. Estes aparelhos não se limitam a aplicar categorias a corpos que já existem. Participam na produção dos próprios corpos e das próprias categorias. O género não preexiste às práticas que o mobilizam — emerge delas.</p>

<p>Judith Butler já nos tinha mostrado que o género é um efeito performativo. A repetição de normas heteronormativas, a vigilância dos comportamentos, a sanção da dissidência — tudo isto produz a aparência de uma essência natural onde só há história e poder. Corpos inteligíveis e sujeitos reconhecíveis são o resultado dessa repetição, não a sua causa. O contributo de Barad radicaliza este gesto de Butler: não se trata apenas de performatividade discursiva, mas de materialização no sentido forte do termo. As normas de género não apenas regulam ou representam diferenças — participam activamente na produção material dessas diferenças. Quando um protocolo médico exige que uma pessoa trans apresente uma narrativa coerente de disforia para aceder a tratamento hormonal, não está apenas a aplicar uma norma — está a fabricar o sujeito de género que pode existir. Quando um formulário oferece apenas duas opções de sexo, não está apenas a simplificar — está a produzir um mundo em que certas existências não cabem. Quando a polícia lê um corpo racializado como ameaça e um corpo cuir como anomalia, não está apenas a interpretar — está a materializar hierarquias que se inscrevem na carne de quem as vive.</p>

<p>É esta passagem — da regulação à produção, da norma à fábrica — que distingue a leitura que este caderno propõe. <strong>A masculinidade hegemónica não representa diferenças: produz corpos como inteligíveis ou abjetos, vidas como reconhecíveis ou descartáveis, existências como legítimas ou impossíveis.</strong> E produz tudo isto não através de uma ideologia abstracta, mas através de aparelhos concretos que operam nas instituições, nas tecnologias e nas práticas quotidianas.</p>

<p>A dimensão epistemológica deste regime é igualmente decisiva. Donna Haraway, no seu ensaio fundador sobre conhecimentos situados, mostrou que todo o conhecimento é parcial, localizado, produzido a partir de corpos e posições sociais concretas. Não existe um olhar de lugar nenhum. A pretensão de objectividade universal — aquilo a que Haraway chama o truque divino — é sempre o privilégio de quem pode esconder a sua posição, de quem não precisa de se nomear porque se confunde com o padrão. <strong>O olhar que se diz neutro é, quase sempre, o olhar branco, cisgénero, heterossexual, de classe média, nacional — aquele que nunca precisa de justificar a sua perspectiva porque a tomou como sinónimo de verdade.</strong></p>

<p>Isto tem consequências directas para a análise da masculinidade hegemónica. Os dados que temos sobre discriminação, as políticas públicas que dizem combatê-la, os enquadramentos jurídicos que prometem igualdade — tudo isto é produzido a partir de posições situadas. Quando um estudo mede a discriminação com categorias estanques — homossexual, heterossexual, homem, mulher —, está a operar a partir de uma ontologia que já decidiu o que existe e o que não existe, que experiências são legíveis e quais escapam ao enquadramento. Quando uma política pública assume que a igualdade formal resolve a exclusão material, está a olhar a partir de uma posição que nunca sentiu a distância entre a lei e a vida. <strong>Reconhecer a localização do olhar não é um exercício académico — é uma condição de honestidade intelectual e de responsabilidade política.</strong></p>

<h2 id="desmontar-a-máquina" id="desmontar-a-máquina">Desmontar a máquina</h2>

<p>Integrar estas perspectivas — Connell, Barad, Butler, Haraway — permite compreender que a masculinidade hegemónica é mais do que uma norma cultural ou um regime simbólico. <strong>É um regime onto-epistémico-material: produz corpos, organiza saberes e distribui desigualmente o acesso à existência reconhecida.</strong> Quando dizemos que certos homens são subordinados ou marginalizados, não estamos apenas a descrever posições numa hierarquia de prestígio. Estamos a nomear os efeitos concretos de uma fábrica que precisa de produzir o abjeto para estabilizar o legítimo, que precisa de fronteiras para se definir, e que opera através de instituições, tecnologias e práticas quotidianas que fazem parecer natural aquilo que é histórico, contingente e politicamente produzido.</p>

<p>E é precisamente aqui que a análise muda de natureza. Se a masculinidade hegemónica fosse apenas uma norma cultural, bastaria mudá-la com educação, representação e boa vontade. Mais inclusão nos media, mais formação nas escolas, mais campanhas de sensibilização — e o problema estaria resolvido. Mas se a hegemonia é um regime material — se produz corpos, se se inscreve em instituições, se molda os próprios instrumentos com que a medimos —, então combatê-la exige outra coisa. Exige desmontar os aparelhos que a fabricam: os protocolos médicos que decidem quem é homem suficiente, os formulários que apagam existências não-binárias, os sistemas policiais que lêem raça e género como ameaça, os critérios de elegibilidade que excluem quem não cabe nas categorias dominantes. Exige interrogar quem produz conhecimento sobre género, a partir de que posição, com que instrumentos e ao serviço de que interesses. <strong>Exige recusar a neutralidade como disfarce do privilégio — porque a neutralidade, quando estamos perante um sistema que produz vidas descartáveis, é sempre cumplicidade.</strong></p>

<p><strong>E exige, sobretudo, partir dos corpos que a hegemonia descarta. Não por romantismo nem por altruismo, mas por rigor.</strong> Porque é nas margens — nos corpos que a fábrica rejeita — que se vê com mais clareza como a máquina funciona. Quem nunca precisou de provar que é homem não sabe como a masculinidade é produzida. Quem nunca sentiu o olhar policial sobre a sua pele não sabe como a raça se materializa. Quem nunca ficou de fora de um formulário não sabe o que significa ser ontologicamente excluído. O conhecimento que emerge desses corpos não é subjectivo nem anedótico — é situado, material e politicamente indispensável.</p>

<p>Os textos que se seguem neste caderno fazem exactamente esse percurso. Partem dos monstros que a masculinidade hegemónica precisa de criar, passam pela igualdade que o Estado português celebra enquanto vidas cuir ficam de fora, detêm-se num corpo negro e cuir que intensifica a sua dissidência como escudo contra a violência racial, e terminam com a pergunta sobre quem pode conhecer a discriminação — e a partir de que carne. A fábrica da masculinidade é o primeiro passo: nomear a máquina. Os seguintes tratam de a desmontar.</p>

<h2 id="leituras" id="leituras">Leituras</h2>

<p>Raewyn Connell, <em>Masculinities</em> (1995, 2.ª edição 2005). A obra fundadora da teoria das masculinidades, que introduziu os conceitos de masculinidade hegemónica, subordinada, cúmplice e marginalizada. Connell mostra que a masculinidade não é um atributo individual mas uma estrutura relacional de poder — entre homens e entre homens e mulheres. Sem este livro, o campo não existiria como o conhecemos. Leitura indispensável para qualquer análise crítica de género que recuse essencialismos.</p>

<p>Karen Barad, <em>Meeting the Universe Halfway: Quantum Physics and the Entanglement of Matter and Meaning</em> (2007). Barad propõe o realismo agencial, uma onto-epistemologia que recusa a separação entre matéria e discurso e defende que a realidade é performativa — produzida por práticas material-discursivas e não dada à partida. Uma ferramenta poderosa para compreender que as desigualdades de género não são apenas representadas, são materializadas em aparelhos concretos. Livro denso e exigente, mas que recompensa cada página.</p>

<p><em>Judith Butler, Problemas de Género: Feminismo e Subversão da Identidade</em> (1990, tradução portuguesa Orfeu Negro, 2023). Butler argumenta que o género é um efeito performativo — produzido pela repetição de normas e não pela expressão de uma essência interior. A sua crítica à naturalização do sexo e do género fundou a teoria cuir e continua a ser uma referência incontornável. A tradução portuguesa permite finalmente ler este texto fundamental na nossa língua.</p>

<p>Donna Haraway, <em>Situated Knowledges: The Science Question in Feminism and the Privilege of Partial Perspective</em> (1988). Neste ensaio seminal, Haraway defende que todo o conhecimento é parcial, localizado e produzido a partir de posições concretas. A objectividade não é a vista de lugar nenhum — é a responsabilidade de assumir de onde se olha. Leitura essencial para quem quer pensar criticamente a produção de saber sobre género e sexualidade, e para quem desconfia — com razão — da neutralidade.</p>

<p>Richard Howson e Jeff Hearn, <em>Hegemony, Hegemonic Masculinity, and Beyond</em>, in Routledge International Handbook of Masculinity Studies (2020). Uma revisão crítica do conceito de masculinidade hegemónica que sublinha a sua natureza relacional, a importância do exterior constitutivo e a articulação entre poder e legitimidade. Leitura útil para quem quer ir além da vulgata sobre masculinidade tóxica e compreender a hegemonia como estrutura, não como insulto.</p>

<p>Pierre Bourdieu, <em>La domination masculine</em> (1998). Bourdieu analisa como a dominação masculina se naturaliza através de esquemas de percepção incorporados, reproduzidos por instituições e práticas quotidianas. A violência simbólica — central nesta obra — actua precisamente por não se apresentar como violência, mas como evidência, consenso ou normalidade. Uma referência clássica que este caderno mobiliza pontualmente, mas cuja análise dos mecanismos de naturalização do poder permanece indispensável.</p>

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<em>Por Orlando Figueiredo, desde as margens.</em></p><br>---<br><p>Queres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! <br>
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      <pubDate>Sun, 08 Mar 2026 15:40:48 +0000</pubDate>
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    <item>
      <title>Budapeste Não se Cala: Orgulho Cuir em Tempos de Repressão</title>
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      <description>&lt;![CDATA[Ontem pudemos assistir ao desfile de mais de 200 000 manifestantes na Marcha do Orgulho LGBTQIA+ de Budapeste, a maior de sempre na cidade. A dimensão do protesto não é indiferente às medidas repressivas que Orbán e o seu partido, Fidesz, têm imposto à comunidade LGBTQIA+. Autoproclamado defensor dos valores cristãos e das famílias tradicionais, Orbán afirma que os direitos LGBTQIA+ ameaçam a identidade nacional e os modelos familiares heterossexuais.&#xA;&#xA;No passado mês de março, a direita húngara propôs a 15.ª reforma constitucional desde que chegou ao poder. Desta feita, o projeto proíbe manifestações no Dia do Orgulho LGBTQ+ e estabelece que existem apenas dois géneros, masculino e feminino, num texto que coloca o homem acima da mulher.&#xA;&#xA;Orbán defende que qualquer evento ou conteúdo LGBTQIA+ que afirme existências dissidentes ou celebre transgressões de género na presença de menores — disfarçado pela máscara hipócrita de uma pretensa proteção das crianças — deve ser proibido.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Participantes da Marcha do Orgulho LGBTQIA+ de Budapeste, realizado no dia 28 de junho de 2025, atravessam a Ponte Erzsébet sobre o Danúbio. Foto: Reuters.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;O balanço cuir da ação de Orbán na Hungria é assustador. Começou com a interdição estatal das existências trans\* e o bloqueio da possibilidade de autodeterminação legal de género desde 2020 — uma tentativa violenta de aprisionar corpos dissidentes em papéis que lhes foram impostos. Prosseguiu com a censura ativa de presenças LGBTQIA+ no espaço público em 2021 e com a purga de conteúdos educativos e de narrativas sexuais não normativas — um esforço sistemático para apagar desejos e vidas que desestabilizam a ordem cis-hetero. Culmina com a já mencionada reforma constitucional, em março de 2025, para proibir manifestações Pride e inscrever no texto constitucional um regime de género binário, onde o masculino é declarado superior ao feminino — uma tentativa desesperada de cristalizar hierarquias e silenciar as vozes cuir que insistem em se fazer ouvir.&#xA;&#xA;Em Portugal, as tentativas de silenciamento da comunidade LGBTQIA+ não se fizeram esperar com a chegada da extrema-direita ao poder. No passado mês de fevereiro, os partidos de extrema-direita conseguiram aprovar no parlamento a retirada do Guia – O Direito a SER nas Escolas, que visa promover a inclusão e prevenir a homofobia nas escolas, do site da Direção-Geral de Educação (DGE). A proposta foi apresentada pelo Partido Social-Democrata (PSD). A resolução, aprovada a 27 de fevereiro de 2025, foi da autoria do PSD e contou com o apoio de CDS-PP, Iniciativa Liberal e Chega — todos votaram favoravelmente, enquanto PS, BE, Livre e PCP votaram contra. De salientar que o sentido desta votação não retira, obviamente, qualquer valor ao Guia, que continua a ser cientificamente robusto e humanamente proveitoso, e permanece disponível no site da CIG - Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género.&#xA;&#xA;Em Budapeste, porém, vimos outra história ganhar forma. Quando a multidão atravessou a ponte Erzsébet, lançou uma mensagem inequívoca: a violência sustentada pelo conservadorismo e moralismo religioso será enfrentada, denunciada e combatida. A Marcha de Budapeste pelo Orgulho LGBTQIA+ de 2025 reafirmou que não daremos um passo atrás, não voltaremos para o armário. Por detrás desta possibilidade está Gergely Karácsony, o főpolgármester (presidente da câmara) da cidade de Budapeste. Karácsony declarou o Pride um evento da cidade e autorizou a marcha de forma indireta, o que permitiu contornar a proibição imposta pelo governo de Orbán. Foi um gesto de insubmissão política ao projeto de censura e apagamento da comunidade cuir perpetrado pela extrema-direita húngara. A cidade abriu espaço para a dissidência e para as corporalidades que transbordam os limites do aceitável. Este foi o choque entre quem quer controlar corpos e afetos e quem escolhe amplificar as vozes que a norma tenta silenciar.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Budapeste transbordou em ondas de cores vibrantes, enquanto os manifestantes desafiavam a proibição. Foto: AP.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Muitos apontam que Orbán agita a retórica anti-LGBTQIA+ como cortina de fumo, desviando os olhares dos verdadeiros problemas da Hungria: a inflação descontrolada, a corrupção entranhada e a degradação social. Este jogo de espelhos é bem conhecido e, em território português, não somos exceção. Também aqui se instrumentaliza o pânico moral para alimentar a máquina eleitoral. Enquanto o país se afunda em debates inúteis sobre imigração e a nacionalidade portuguesa, os verdadeiros problemas do país ficam por discutir e resolver.&#xA;&#xA;Este moralismo conservador não é um subproduto; é o próprio motor de uma política que se alimenta da exclusão. E, enquanto se multiplicam as ofensivas contra os nossos corpos e as comunidades mais vulneráveis, fingem que estão a resolver os problemas reais — quando, na verdade, são eles quem os inventa, propaga e sustenta.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;#Budapeste #Pride #BudapestePride #LGBTQIA #Pride2025 #Orgulho #OrgulhoLGBTQIA #LGBT #OrgulhoCuir #Cuir #Kuir #Queer #OrgulhoBudapeste #desdeasmargens&#xA;&#xA;phr style=&#34;border: none; border-top: 1px solid #ff69b4;&#34;&#xD;&#xA;emPor Orlando Figueiredo, desde as margens./em/pbr---brpQueres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! br&#xD;&#xA;!--emailsub--/p]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Ontem pudemos assistir ao desfile de mais de 200 000 manifestantes na Marcha do Orgulho LGBTQIA+ de Budapeste, a maior de sempre na cidade. A dimensão do protesto não é indiferente às medidas repressivas que Orbán e o seu partido, Fidesz, têm imposto à comunidade LGBTQIA+. Autoproclamado defensor dos valores cristãos e das famílias tradicionais, Orbán afirma que os direitos LGBTQIA+ ameaçam a identidade nacional e os modelos familiares heterossexuais.</p>

<p>No passado mês de março, a direita húngara propôs a 15.ª reforma constitucional desde que chegou ao poder. Desta feita, o projeto proíbe manifestações no Dia do Orgulho LGBTQ+ e estabelece que existem apenas dois géneros, masculino e feminino, num texto que coloca o homem acima da mulher.</p>

<p>Orbán defende que qualquer evento ou conteúdo LGBTQIA+ que afirme existências dissidentes ou celebre transgressões de género na presença de menores — disfarçado pela máscara hipócrita de uma pretensa proteção das crianças — deve ser proibido.</p>

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<h5 id="https-i-snap-as-5tsj4pmd-jpg" id="https-i-snap-as-5tsj4pmd-jpg"><img src="https://i.snap.as/5tsj4pMd.jpg" alt=""/></h5>

<h5 id="participantes-da-marcha-do-orgulho-lgbtqia-de-budapeste-realizado-no-dia-28-de-junho-de-2025-atravessam-a-ponte-erzsébet-sobre-o-danúbio-foto-reuters" id="participantes-da-marcha-do-orgulho-lgbtqia-de-budapeste-realizado-no-dia-28-de-junho-de-2025-atravessam-a-ponte-erzsébet-sobre-o-danúbio-foto-reuters">Participantes da Marcha do Orgulho LGBTQIA+ de Budapeste, realizado no dia 28 de junho de 2025, atravessam a Ponte Erzsébet sobre o Danúbio. Foto: Reuters.</h5>

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<p>O balanço cuir da ação de Orbán na Hungria é assustador. Começou com a interdição estatal das existências trans* e o bloqueio da possibilidade de autodeterminação legal de género desde 2020 — uma tentativa violenta de aprisionar corpos dissidentes em papéis que lhes foram impostos. Prosseguiu com a censura ativa de presenças LGBTQIA+ no espaço público em 2021 e com a purga de conteúdos educativos e de narrativas sexuais não normativas — um esforço sistemático para apagar desejos e vidas que desestabilizam a ordem cis-hetero. Culmina com a já mencionada reforma constitucional, em março de 2025, para proibir manifestações Pride e inscrever no texto constitucional um regime de género binário, onde o masculino é declarado superior ao feminino — uma tentativa desesperada de cristalizar hierarquias e silenciar as vozes cuir que insistem em se fazer ouvir.</p>

<p>Em Portugal, as tentativas de silenciamento da comunidade LGBTQIA+ não se fizeram esperar com a chegada da extrema-direita ao poder. No passado mês de fevereiro, os partidos de extrema-direita conseguiram aprovar no parlamento a retirada do <a href="https://drive.google.com/file/d/1401okgseMWoMhf2VJq3W6eiDEz1_-Mv9/view?usp=share_link">Guia – O Direito a SER nas Escolas</a>, que visa promover a inclusão e prevenir a homofobia nas escolas, do site da Direção-Geral de Educação (DGE). A proposta foi apresentada pelo Partido Social-Democrata (PSD). A resolução, aprovada a 27 de fevereiro de 2025, foi da autoria do PSD e contou com o apoio de CDS-PP, Iniciativa Liberal e Chega — todos votaram favoravelmente, enquanto PS, BE, Livre e PCP votaram contra. De salientar que o sentido desta votação não retira, obviamente, qualquer valor ao Guia, que continua a ser cientificamente robusto e humanamente proveitoso, e permanece disponível no site da <a href="https://www.cig.gov.pt/2023/06/cig-e-dge-lancam-guia-o-direito-a-ser-nas-escolas-orientacoes-para-a-prevencao-e-combate-a-discriminacao-e-violencia-em-razao-da-orientacao-sexual-identidade-de-genero-expressao-de-genero/">CIG – Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género</a>.</p>

<p>Em Budapeste, porém, vimos outra história ganhar forma. Quando a multidão atravessou a ponte Erzsébet, lançou uma mensagem inequívoca: a violência sustentada pelo conservadorismo e moralismo religioso será enfrentada, denunciada e combatida. A Marcha de Budapeste pelo Orgulho LGBTQIA+ de 2025 reafirmou que não daremos um passo atrás, não voltaremos para o armário. Por detrás desta possibilidade está Gergely Karácsony, o főpolgármester (presidente da câmara) da cidade de Budapeste. Karácsony declarou o Pride um evento da cidade e autorizou a marcha de forma indireta, o que permitiu contornar a proibição imposta pelo governo de Orbán. Foi um gesto de insubmissão política ao projeto de censura e apagamento da comunidade cuir perpetrado pela extrema-direita húngara. A cidade abriu espaço para a dissidência e para as corporalidades que transbordam os limites do aceitável. Este foi o choque entre quem quer controlar corpos e afetos e quem escolhe amplificar as vozes que a norma tenta silenciar.</p>

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<p><img src="https://i.snap.as/QmlY2P36.jpg" alt=""/></p>

<h5 id="budapeste-transbordou-em-ondas-de-cores-vibrantes-enquanto-os-manifestantes-desafiavam-a-proibição-foto-ap" id="budapeste-transbordou-em-ondas-de-cores-vibrantes-enquanto-os-manifestantes-desafiavam-a-proibição-foto-ap">Budapeste transbordou em ondas de cores vibrantes, enquanto os manifestantes desafiavam a proibição. Foto: AP.</h5>

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<p>Muitos apontam que Orbán agita a retórica anti-LGBTQIA+ como cortina de fumo, desviando os olhares dos verdadeiros problemas da Hungria: a inflação descontrolada, a corrupção entranhada e a degradação social. Este jogo de espelhos é bem conhecido e, em território português, não somos exceção. Também aqui se instrumentaliza o pânico moral para alimentar a máquina eleitoral. Enquanto o país se afunda em debates inúteis sobre imigração e a nacionalidade portuguesa, os verdadeiros problemas do país ficam por discutir e resolver.</p>

<p>Este moralismo conservador não é um subproduto; é o próprio motor de uma política que se alimenta da exclusão. E, enquanto se multiplicam as ofensivas contra os nossos corpos e as comunidades mais vulneráveis, fingem que estão a resolver os problemas reais — quando, na verdade, são eles quem os inventa, propaga e sustenta.</p>

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<p><a href="https://kuircuir.pt/tag:Budapeste" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">Budapeste</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:Pride" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">Pride</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:BudapestePride" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">BudapestePride</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:LGBTQIA" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">LGBTQIA</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:Pride2025" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">Pride2025</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:Orgulho" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">Orgulho</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:OrgulhoLGBTQIA" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">OrgulhoLGBTQIA</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:LGBT" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">LGBT</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:OrgulhoCuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">OrgulhoCuir</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:Cuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">Cuir</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:Kuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">Kuir</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:Queer" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">Queer</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:OrgulhoBudapeste" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">OrgulhoBudapeste</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:desdeasmargens"><a href="https://kuircuir.pt/tag:desdeasmargens" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">desdeasmargens</span></a></a></p>

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<em>Por Orlando Figueiredo, desde as margens.</em></p><br>---<br><p>Queres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! <br>
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      <pubDate>Sun, 29 Jun 2025 10:21:55 +0000</pubDate>
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    <item>
      <title>Do pós-guerra a Stonewall — Parte VIII: Depois de Stonewall: Fendas, Fronteiras e Futuro da Resistência Cuir</title>
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      <description>&lt;![CDATA[Entre conquistas e exclusões: um olhar crítico sobre as continuidades da violência, a luta trans e o contexto português&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Nesta oitava e última parte, prosseguimos pelos caminhos sinuosos da resistência cuir. Partindo da efervescência social dos anos 70 e das fraturas internas no seio do movimento LGBTQIA+, abordamos o impacto da homofobia institucional e social que se prolonga até hoje. Revisita-se o surgimento dos primeiros coletivos em Portugal, a resistência à homonormatividade e a contínua luta contra as violências quotidianas e os crimes de ódio. Se nas partes anteriores explorámos o apagamento (Parte I e II), os ecos de resistência (Parte III e IV), a noite fundadora de Stonewall (Parte V), a manipulação mediática (Parte VI) e as tensões internas (Parte VII), aqui confrontamos a ilusão da chegada, reafirmando que os direitos não são um ponto de chegada, mas um campo em permanente disputa.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Revoluções: Conquistas e Fraturas no Pós-Stonewall&#xA;&#xA;O pós-Stonewall trouxe vitórias visíveis, mas também divisões internas que expuseram exclusões e tensões que continuam a atravessar a comunidade LGBTQIA+.&#xA;&#xA;Como os artigos anteriores atestam, o ativismo LGBTI não surgiu do nada. Inseriu-se num contexto de efervescência social nos Estados Unidos, influenciado por movimentos pacifistas contra a guerra do Vietname, pelo Black Panther Party for Self-Defense, por movimentos feministas, pelo movimento hippie e pelas mobilizações estudantis. Todas essas correntes convergiram num movimento progressista de grande amplitude.&#xA;&#xA;A resistência, contudo, não tardou a manifestar-se, tanto por parte do poder instituído como de figuras publicamente homofóbicas, como Anita Bryant — uma cristã fundamentalista que defendia abertamente a exclusão de conteúdos sobre homossexualidade das escolas. Trata-se, aliás, de uma antecessora ideológica de algumas figuras políticas atuais que promovem políticas de censura e apagamento da diversidade, como o Moms for Liberty, Movimento de base nos EUA, composto maioritariamente por mães conservadoras, que advoga contra a inclusão LGBTQIA+ nas escolas, especialmente no currículo, frequentemente sob o pretexto de proteger as crianças — uma tática diretamente herdada da campanha Save Our Children de Bryant.&#xA;&#xA;À medida que o movimento crescia, começaram a surgir divisões internas. Em 1973, na Marcha do Orgulho de Nova Iorque, a ativista feminista Jean O&#39;Leary acusou o coletivo trans\ e drag de comportamentos hostis para com as lésbicas. Sylvia Rivera, uma das líderes trans\ da revolta de Stonewall, respondeu energicamente, recordando que foram as drag queens que arriscaram as suas vidas naquela fatídica noite. A tensão entre sectores do próprio movimento revelou uma crescente transfobia e exclusão de identidades não normativas. Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson, fundadoras da organização STAR — Street Transvestite Action Revolutionaries —, continuaram a luta em prol das pessoas trans\ e sem-abrigo. Anos mais tarde, Jean O’Leary reconheceria que a sua atitude havia sido errada, descrevendo-a como horrível e questionando como pôde excluir as pessoas trans\ enquanto, ao mesmo tempo, criticava as feministas que excluíam as lésbicas.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera durante o Christopher Street Liberation Day de 1973, em Nova York&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;Entretanto, os homens gays concentraram os seus esforços na luta contra a patologização da homossexualidade. Em 1973, a Associação Psiquiátrica Americana votou favoravelmente para retirar a homossexualidade da lista oficial de distúrbios mentais.&#xA;&#xA;A comunidade uniu-se também para combater iniciativas como o movimento conservador Save Our Children, liderado por Anita Bryant, que visava proibir pessoas LGBTI de exercerem funções docentes. Mesmo após o brutal assassinato de Harvey Milk, a 27 de novembro de 1978, aos 48 anos — figura maior da resistência cuir — as forças conservadoras não conseguiram silenciar o avanço das lutas pela liberdade.&#xA;&#xA;Portugal: Entre a Revolução dos Cravos e a Emergência dos Movimentos Cuir&#xA;&#xA;Enquanto nos Estados Unidos o movimento avançava, em Portugal a Revolução dos Cravos abriu lentamente espaço para as primeiras expressões públicas de dissidência sexual.&#xA;&#xA;No Portugal fascista, não se vislumbravam sinais de lutas ou reivindicações pelos direitos LGBTQIA+. Só com a Revolução dos Cravos, em 1974, se abriu caminho para a liberdade política. Ainda assim, foi necessário esperar até 1982 para que as relações entre pessoas do mesmo sexo deixassem de ser consideradas crime — uma marca discriminatória que permanecia no Código Penal desde 1886.&#xA;&#xA;Ainda em 1974, começaram a surgir em Portugal alguns movimentos ativistas de pessoas homossexuais e bissexuais. Entre eles destaca-se o MHAR – Movimento Homossexual de Ação Revolucionária, fundado por António Serzedelo. No dia 13 de maio de 1974 o MHAR publicou o Manifesto pelas Liberdades Sexuais. A reação foi imediata e hostil: o general Galvão de Melo, um dos mais reacionários membros da Junta de Salvação Nacional, numa intervenção televisiva, afirmou que o 25 de Abril não tinha sido feito para prostitutas e homossexuais reivindicarem direitos.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Manifesto MAHR, publicado no Diário de Lisboa no dia 13 de maio de 1974&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Mais tarde, em 1980, surgiu o CHOR — Colectivo de Homossexuais Revolucionários, e, em 1982, realizaram-se os Encontros Ser (Homo)sexual, promovidos pelo Centro Nacional de Cultura. Apesar da sua relevância pioneira, estes movimentos e iniciativas foram de curta duração e com impacto social limitado, num país ainda profundamente conservador e cuirfóbico.&#xA;&#xA;Foi apenas a 28 de junho de 2000 que Lisboa acolheu a sua primeira Marcha do Orgulho LGBTQIA+, organizada pela ILGA-Portugal, Safo, Opus Gay e GTH — Grupo de Trabalho Homossexual, no âmbito da Primeira Semana do Orgulho Gay, Lésbico, Bi e Transgender. O percurso começou no Jardim do Príncipe Real, atravessou a Baixa lisboeta, incluindo o Largo de Camões e a Rua do Alecrim, e terminou junto à Ribeira das Naus. Entre 500 a 1000 pessoas participaram, muitas das quais usaram máscaras triangulares para proteger a identidade — máscaras que, ao longo da marcha, foram sendo gradualmente retiradas, num gesto simbólico de afirmação e visibilidade.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Fotografia da 1ª Marcha do Orgulho Gay, Lésbico, Bi &amp; Transgender em Lisboa no ano 2000. Centro Documentação Gonçalo Diniz, ILGA – Portugal — Disponível em https://www.museudoaljube.pt/evento/antes-de-ser-orgulho-foi-revolta/?utm_source=chatgpt.com&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Apesar dos avanços significativos tanto em Portugal como na Europa e no mundo, a luta está longe de estar concluída. Persistem discursos que insinuam que já conseguimos tudo, já temos o que queremos: podemos casar, dar as mãos em público, sair do armário — como se estes gestos encerrassem a luta. Mas os direitos não são troféus — são processos contínuos que exigem vigilância e participação. Casar não pode ser apresentado como o ponto final de um percurso de libertação.&#xA;&#xA;Os Limites da Respeitabilidade: Da Tolerância à Dignidade Plena&#xA;&#xA;Portugal conquistou direitos fundamentais, mas permanece preso a uma lógica de tolerância que limita o reconhecimento pleno e a dignidade das vidas cuir.&#xA;&#xA;Portugal tem sido destacado internacionalmente como um país tolerante, mas a tolerância é um conceito insuficiente. Tolerar é admitir algo que se desaprova. Ninguém diz a uma pessoa heterossexual que será tolerada — porque essa ideia, nesse contexto, seria absurda. Não queremos ser tolerados. Queremos existir com dignidade plena, sem necessidade de legitimação.&#xA;&#xA;A chamada respeitabilidade não se constrói pela reprodução de modelos heteronormativos, pela exploração do outro ou pela exclusão e silenciamento das vozes mais dissidentes dentro da própria comunidade. A legitimidade das nossas vivências não precisa de se encaixar nos moldes sociais dominantes, não precisa ser homonormativa. Todos, em maior ou menor grau, fomos e somos cúmplices da homofobia e da cuirfobia estrutural que atravessa as instituições e o quotidiano.&#xA;&#xA;A Violência que Persiste: Crimes de Ódio e Resistência no Presente&#xA;&#xA;As conquistas legais não eliminaram a violência: crimes de ódio, agressões e ameaças continuam a marcar o quotidiano das pessoas LGBTQIA+ em Portugal.&#xA;&#xA;A luta não é apenas contra a extrema-direita, que vocaliza o ódio sem pudor, mas também contra as formas subtis e enraizadas de discriminação — aquelas que se escondem nos silêncios, nos olhares, nas microagressões, e até nas dinâmicas internas da própria comunidade LGBTQIA+. Apesar dos avanços consagrados na Lei n.º 38/2018, que reconhece o direito à autodeterminação da identidade e expressão de género, as pessoas trans\ em Portugal continuam hoje a enfrentar obstáculos institucionais, resistências sociais e procedimentos que, na prática, persistem em exigir validações externas para o simples exercício do seu direito de existir plenamente.&#xA;&#xA;A Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) define crime de ódio como qualquer infração motivada pela pertença real ou presumida da vítima a um grupo social — seja por orientação sexual, identidade de género, etnia, religião ou outra característica. Mesmo que a vítima não pertença efetivamente a esse grupo, a perceção do agressor é suficiente para configurar o crime.&#xA;&#xA;Nos últimos anos, têm-se multiplicado os ataques organizados por forças neonazis e neofascistas contra pessoas e eventos LGBTQIA+ em Portugal. Em março de 2023, registaram-se agressões na Marcha Trans de Lisboa e tentativas de intimidação em iniciativas culturais e educativas promovidas por coletivos queer. Mais recentemente, estas forças intensificaram a sua atividade, protagonizando invasões de conferências LGBTQIA+, onde realizaram saudações nazis. Estiveram mesmo implicadas na preparação de crimes de ódio com potencial terrorista, desmantelados pela Polícia Judiciária em 2025. Têm também interrompido eventos do Orgulho em cidades como Évora e Lisboa, espalhado cartazes transfóbicos e difundido propaganda anti-género em espaços públicos e nas redes sociais. Casos como o assassinato brutal de Samuel Luiz, em julho de 2021, em La Coruña — espancado até à morte ao som de insultos homofóbicos — expõem de forma crua que o caminho para uma sociedade verdadeiramente segura e inclusiva está longe de estar concluído. Também em Portugal, o assassinato de Gisberta Salce Júnior, em fevereiro de 2006, uma mulher trans\ brutalmente torturada e assassinada no Porto, permanece como uma ferida aberta e um lembrete da violência extrema que atravessa as vidas das pessoas LGBTQIA+, especialmente das mais vulneráveis. Estes episódios revelam que, mesmo quando as violências não resultam em morte, continuam a ser sistematicamente desvalorizadas ou mal-enquadradas pelas autoridades, que frequentemente optam por classificá-las como meras desordens ou agressões comuns, apagando a sua motivação homofóbica ou transfóbica. O reconhecimento pleno dos crimes de ódio permanece um passo por cumprir na construção de uma sociedade verdadeiramente livre e segura para todas, todos e todes. Hoje, mais do que nunca, importa reforçar que os nossos direitos não dependem da concessão de terceiros, nem da necessidade de performance de respeitabilidade que nos é imposta. A luta continua — nas ruas, nas escolas, nos locais de trabalho e dentro de cada espaço onde a diferença ainda é vista como uma ameaça. A visibilidade é apenas o princípio. A dignidade, essa, ainda precisa de ser conquistada todos os dias.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;A luta LGBTQIA+ nunca foi linear, nunca foi homogénea. O orgulho, as leis e as celebrações públicas não encerram o percurso. Continuam a existir silêncios, exclusões e violências que nos desafiam a permanecer ativamente vigilantes. Os nossos direitos não são concessões: são territórios conquistados, mantidos e ampliados diariamente. A dignidade não é um prémio – é uma condição que continuamos a exigir, até que todas as existências cuir possam respirar livremente.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;#stonewall #stonewallinn #história #eua #homofobia #lgbtq #lgbt #lgbtqia #livros #cuir #kuir #cuirfobia #Caderno1 #desdeasmargens&#xA;&#xA;phr style=&#34;border: none; border-top: 1px solid #ff69b4;&#34;&#xD;&#xA;emPor Orlando Figueiredo, desde as margens./em/pbr---brpQueres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! br&#xD;&#xA;!--emailsub--/p]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<h2 id="entre-conquistas-e-exclusões-um-olhar-crítico-sobre-as-continuidades-da-violência-a-luta-trans-e-o-contexto-português" id="entre-conquistas-e-exclusões-um-olhar-crítico-sobre-as-continuidades-da-violência-a-luta-trans-e-o-contexto-português">Entre conquistas e exclusões: um olhar crítico sobre as continuidades da violência, a luta trans e o contexto português</h2>

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<h5 id="nesta-oitava-e-última-parte-prosseguimos-pelos-caminhos-sinuosos-da-resistência-cuir-partindo-da-efervescência-social-dos-anos-70-e-das-fraturas-internas-no-seio-do-movimento-lgbtqia-abordamos-o-impacto-da-homofobia-institucional-e-social-que-se-prolonga-até-hoje-revisita-se-o-surgimento-dos-primeiros-coletivos-em-portugal-a-resistência-à-homonormatividade-e-a-contínua-luta-contra-as-violências-quotidianas-e-os-crimes-de-ódio-se-nas-partes-anteriores-explorámos-o-apagamento-parte-i-e-ii-os-ecos-de-resistência-parte-iii-e-iv-a-noite-fundadora-de-stonewall-parte-v-a-manipulação-mediática-parte-vi-e-as-tensões-internas-parte-vii-aqui-confrontamos-a-ilusão-da-chegada-reafirmando-que-os-direitos-não-são-um-ponto-de-chegada-mas-um-campo-em-permanente-disputa" id="nesta-oitava-e-última-parte-prosseguimos-pelos-caminhos-sinuosos-da-resistência-cuir-partindo-da-efervescência-social-dos-anos-70-e-das-fraturas-internas-no-seio-do-movimento-lgbtqia-abordamos-o-impacto-da-homofobia-institucional-e-social-que-se-prolonga-até-hoje-revisita-se-o-surgimento-dos-primeiros-coletivos-em-portugal-a-resistência-à-homonormatividade-e-a-contínua-luta-contra-as-violências-quotidianas-e-os-crimes-de-ódio-se-nas-partes-anteriores-explorámos-o-apagamento-parte-i-e-ii-os-ecos-de-resistência-parte-iii-e-iv-a-noite-fundadora-de-stonewall-parte-v-a-manipulação-mediática-parte-vi-e-as-tensões-internas-parte-vii-aqui-confrontamos-a-ilusão-da-chegada-reafirmando-que-os-direitos-não-são-um-ponto-de-chegada-mas-um-campo-em-permanente-disputa">Nesta oitava e última parte, prosseguimos pelos caminhos sinuosos da resistência cuir. Partindo da efervescência social dos anos 70 e das fraturas internas no seio do movimento LGBTQIA+, abordamos o impacto da homofobia institucional e social que se prolonga até hoje. Revisita-se o surgimento dos primeiros coletivos em Portugal, a resistência à homonormatividade e a contínua luta contra as violências quotidianas e os crimes de ódio. Se nas partes anteriores explorámos o apagamento (Parte I e II), os ecos de resistência (Parte III e IV), a noite fundadora de Stonewall (Parte V), a manipulação mediática (Parte VI) e as tensões internas (Parte VII), aqui confrontamos a ilusão da chegada, reafirmando que os direitos não são um ponto de chegada, mas um campo em permanente disputa.</h5>

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<h3 id="revoluções-conquistas-e-fraturas-no-pós-stonewall" id="revoluções-conquistas-e-fraturas-no-pós-stonewall">Revoluções: Conquistas e Fraturas no Pós-Stonewall</h3>

<h5 id="o-pós-stonewall-trouxe-vitórias-visíveis-mas-também-divisões-internas-que-expuseram-exclusões-e-tensões-que-continuam-a-atravessar-a-comunidade-lgbtqia" id="o-pós-stonewall-trouxe-vitórias-visíveis-mas-também-divisões-internas-que-expuseram-exclusões-e-tensões-que-continuam-a-atravessar-a-comunidade-lgbtqia">O pós-Stonewall trouxe vitórias visíveis, mas também divisões internas que expuseram exclusões e tensões que continuam a atravessar a comunidade LGBTQIA+.</h5>

<p>Como os artigos anteriores atestam, o ativismo LGBTI não surgiu do nada. Inseriu-se num contexto de efervescência social nos Estados Unidos, influenciado por movimentos pacifistas contra a guerra do Vietname, pelo Black Panther Party for Self-Defense, por movimentos feministas, pelo movimento hippie e pelas mobilizações estudantis. Todas essas correntes convergiram num movimento progressista de grande amplitude.</p>

<p>A resistência, contudo, não tardou a manifestar-se, tanto por parte do poder instituído como de figuras publicamente homofóbicas, como Anita Bryant — uma cristã fundamentalista que defendia abertamente a exclusão de conteúdos sobre homossexualidade das escolas. Trata-se, aliás, de uma antecessora ideológica de algumas figuras políticas atuais que promovem políticas de censura e apagamento da diversidade, como o Moms for Liberty, Movimento de base nos EUA, composto maioritariamente por mães conservadoras, que advoga contra a inclusão LGBTQIA+ nas escolas, especialmente no currículo, frequentemente sob o pretexto de <em>proteger as crianças</em> — uma tática diretamente herdada da campanha Save Our Children de Bryant.</p>

<p>À medida que o movimento crescia, começaram a surgir divisões internas. Em 1973, na Marcha do Orgulho de Nova Iorque, a ativista feminista Jean O&#39;Leary acusou o coletivo trans* e drag de comportamentos hostis para com as lésbicas. Sylvia Rivera, uma das líderes trans* da revolta de Stonewall, respondeu energicamente, recordando que foram as drag queens que arriscaram as suas vidas naquela fatídica noite. A tensão entre sectores do próprio movimento revelou uma crescente transfobia e exclusão de identidades não normativas. Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson, fundadoras da organização STAR — Street Transvestite Action Revolutionaries —, continuaram a luta em prol das pessoas trans* e sem-abrigo. Anos mais tarde, Jean O’Leary reconheceria que a sua atitude havia sido errada, descrevendo-a como horrível e questionando como pôde excluir as pessoas trans* enquanto, ao mesmo tempo, criticava as feministas que excluíam as lésbicas.</p>

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<p><img src="https://i.snap.as/bOZALKvX.png" alt=""/></p>

<h6 id="marsha-p-johnson-e-sylvia-rivera-durante-o-christopher-street-liberation-day-de-1973-em-nova-york" id="marsha-p-johnson-e-sylvia-rivera-durante-o-christopher-street-liberation-day-de-1973-em-nova-york">Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera durante o Christopher Street Liberation Day de 1973, em Nova York</h6>

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<p>Entretanto, os homens gays concentraram os seus esforços na luta contra a patologização da homossexualidade. Em 1973, a Associação Psiquiátrica Americana votou favoravelmente para retirar a homossexualidade da lista oficial de distúrbios mentais.</p>

<p>A comunidade uniu-se também para combater iniciativas como o movimento conservador Save Our Children, liderado por Anita Bryant, que visava proibir pessoas LGBTI de exercerem funções docentes. Mesmo após o brutal assassinato de Harvey Milk, a 27 de novembro de 1978, aos 48 anos — figura maior da resistência cuir — as forças conservadoras não conseguiram silenciar o avanço das lutas pela liberdade.</p>

<h3 id="portugal-entre-a-revolução-dos-cravos-e-a-emergência-dos-movimentos-cuir" id="portugal-entre-a-revolução-dos-cravos-e-a-emergência-dos-movimentos-cuir">Portugal: Entre a Revolução dos Cravos e a Emergência dos Movimentos Cuir</h3>

<h5 id="enquanto-nos-estados-unidos-o-movimento-avançava-em-portugal-a-revolução-dos-cravos-abriu-lentamente-espaço-para-as-primeiras-expressões-públicas-de-dissidência-sexual" id="enquanto-nos-estados-unidos-o-movimento-avançava-em-portugal-a-revolução-dos-cravos-abriu-lentamente-espaço-para-as-primeiras-expressões-públicas-de-dissidência-sexual">Enquanto nos Estados Unidos o movimento avançava, em Portugal a Revolução dos Cravos abriu lentamente espaço para as primeiras expressões públicas de dissidência sexual.</h5>

<p>No Portugal fascista, não se vislumbravam sinais de lutas ou reivindicações pelos direitos LGBTQIA+. Só com a Revolução dos Cravos, em 1974, se abriu caminho para a liberdade política. Ainda assim, foi necessário esperar até 1982 para que as relações entre pessoas do mesmo sexo deixassem de ser consideradas crime — uma marca discriminatória que permanecia no Código Penal desde 1886.</p>

<p>Ainda em 1974, começaram a surgir em Portugal alguns movimentos ativistas de pessoas homossexuais e bissexuais. Entre eles destaca-se o <strong>MHAR – Movimento Homossexual de Ação Revolucionária</strong>, fundado por António Serzedelo. No dia 13 de maio de 1974 o MHAR publicou o <strong>Manifesto pelas Liberdades Sexuais</strong>. A reação foi imediata e hostil: o general Galvão de Melo, um dos mais reacionários membros da Junta de Salvação Nacional, numa intervenção televisiva, afirmou que o 25 de Abril não tinha sido feito para prostitutas e homossexuais reivindicarem direitos.</p>

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<p><img src="https://i.snap.as/1JZffCIh.jpg" alt=""/></p>

<h6 id="manifesto-mahr-publicado-no-diário-de-lisboa-no-dia-13-de-maio-de-1974" id="manifesto-mahr-publicado-no-diário-de-lisboa-no-dia-13-de-maio-de-1974">Manifesto MAHR, publicado no Diário de Lisboa no dia 13 de maio de 1974</h6>

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<p>Mais tarde, em 1980, surgiu <strong>o CHOR — Colectivo de Homossexuais Revolucionários</strong>, e, em 1982, realizaram-se os Encontros <strong>Ser (Homo)sexual</strong>, promovidos pelo <strong>Centro Nacional de Cultura</strong>. Apesar da sua relevância pioneira, estes movimentos e iniciativas foram de curta duração e com impacto social limitado, num país ainda profundamente conservador e cuirfóbico.</p>

<p>Foi apenas a 28 de junho de 2000 que Lisboa acolheu a sua <strong>primeira Marcha do Orgulho LGBTQIA+</strong>, organizada pela <strong>ILGA-Portugal</strong>, <strong>Safo</strong>, <strong>Opus Gay</strong> e <strong>GTH — Grupo de Trabalho Homossexual</strong>, no âmbito da <strong>Primeira Semana do Orgulho Gay, Lésbico, Bi e Transgender</strong>. O percurso começou no Jardim do Príncipe Real, atravessou a Baixa lisboeta, incluindo o Largo de Camões e a Rua do Alecrim, e terminou junto à Ribeira das Naus. Entre 500 a 1000 pessoas participaram, muitas das quais usaram máscaras triangulares para proteger a identidade — máscaras que, ao longo da marcha, foram sendo gradualmente retiradas, num gesto simbólico de afirmação e visibilidade.</p>

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<p><img src="https://i.snap.as/9OQqOCrE.jpg" alt=""/></p>

<h6 id="fotografia-da-1ª-marcha-do-orgulho-gay-lésbico-bi-transgender-em-lisboa-no-ano-2000-centro-documentação-gonçalo-diniz-ilga-portugal-disponível-em-https-www-museudoaljube-pt-evento-antes-de-ser-orgulho-foi-revolta-utm-source-chatgpt-com" id="fotografia-da-1ª-marcha-do-orgulho-gay-lésbico-bi-transgender-em-lisboa-no-ano-2000-centro-documentação-gonçalo-diniz-ilga-portugal-disponível-em-https-www-museudoaljube-pt-evento-antes-de-ser-orgulho-foi-revolta-utm-source-chatgpt-com">Fotografia da 1ª Marcha do Orgulho Gay, Lésbico, Bi &amp; Transgender em Lisboa no ano 2000. Centro Documentação Gonçalo Diniz, ILGA – Portugal — Disponível em <a href="https://www.museudoaljube.pt/evento/antes-de-ser-orgulho-foi-revolta/?utm_source=chatgpt.com">https://www.museudoaljube.pt/evento/antes-de-ser-orgulho-foi-revolta/?utm_source=chatgpt.com</a></h6>

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<p>Apesar dos avanços significativos tanto em Portugal como na Europa e no mundo, a luta está longe de estar concluída. Persistem discursos que insinuam que já conseguimos tudo, já temos o que queremos: podemos casar, dar as mãos em público, sair do armário — como se estes gestos encerrassem a luta. Mas os direitos não são troféus — são processos contínuos que exigem vigilância e participação. Casar não pode ser apresentado como o ponto final de um percurso de libertação.</p>

<h3 id="os-limites-da-respeitabilidade-da-tolerância-à-dignidade-plena" id="os-limites-da-respeitabilidade-da-tolerância-à-dignidade-plena">Os Limites da Respeitabilidade: Da Tolerância à Dignidade Plena</h3>

<h5 id="portugal-conquistou-direitos-fundamentais-mas-permanece-preso-a-uma-lógica-de-tolerância-que-limita-o-reconhecimento-pleno-e-a-dignidade-das-vidas-cuir" id="portugal-conquistou-direitos-fundamentais-mas-permanece-preso-a-uma-lógica-de-tolerância-que-limita-o-reconhecimento-pleno-e-a-dignidade-das-vidas-cuir">Portugal conquistou direitos fundamentais, mas permanece preso a uma lógica de tolerância que limita o reconhecimento pleno e a dignidade das vidas cuir.</h5>

<p>Portugal tem sido destacado internacionalmente como um país tolerante, mas a tolerância é um conceito insuficiente. Tolerar é admitir algo que se desaprova. Ninguém diz a uma pessoa heterossexual que será tolerada — porque essa ideia, nesse contexto, seria absurda. Não queremos ser tolerados. Queremos existir com dignidade plena, sem necessidade de legitimação.</p>

<p>A chamada respeitabilidade não se constrói pela reprodução de modelos heteronormativos, pela exploração do outro ou pela exclusão e silenciamento das vozes mais dissidentes dentro da própria comunidade. A legitimidade das nossas vivências não precisa de se encaixar nos moldes sociais dominantes, não precisa ser homonormativa. Todos, em maior ou menor grau, fomos e somos cúmplices da homofobia e da cuirfobia estrutural que atravessa as instituições e o quotidiano.</p>

<h3 id="a-violência-que-persiste-crimes-de-ódio-e-resistência-no-presente" id="a-violência-que-persiste-crimes-de-ódio-e-resistência-no-presente">A Violência que Persiste: Crimes de Ódio e Resistência no Presente</h3>

<h5 id="as-conquistas-legais-não-eliminaram-a-violência-crimes-de-ódio-agressões-e-ameaças-continuam-a-marcar-o-quotidiano-das-pessoas-lgbtqia-em-portugal" id="as-conquistas-legais-não-eliminaram-a-violência-crimes-de-ódio-agressões-e-ameaças-continuam-a-marcar-o-quotidiano-das-pessoas-lgbtqia-em-portugal">As conquistas legais não eliminaram a violência: crimes de ódio, agressões e ameaças continuam a marcar o quotidiano das pessoas LGBTQIA+ em Portugal.</h5>

<p>A luta não é apenas contra a extrema-direita, que vocaliza o ódio sem pudor, mas também contra as formas subtis e enraizadas de discriminação — aquelas que se escondem nos silêncios, nos olhares, nas microagressões, e até nas dinâmicas internas da própria comunidade LGBTQIA+. Apesar dos avanços consagrados na Lei n.º 38/2018, que reconhece o direito à autodeterminação da identidade e expressão de género, as pessoas trans* em Portugal continuam hoje a enfrentar obstáculos institucionais, resistências sociais e procedimentos que, na prática, persistem em exigir validações externas para o simples exercício do seu direito de existir plenamente.</p>

<p>A Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) define crime de ódio como qualquer infração motivada pela pertença real ou presumida da vítima a um grupo social — seja por orientação sexual, identidade de género, etnia, religião ou outra característica. Mesmo que a vítima não pertença efetivamente a esse grupo, a perceção do agressor é suficiente para configurar o crime.</p>

<p>Nos últimos anos, têm-se multiplicado os ataques organizados por forças neonazis e neofascistas contra pessoas e eventos LGBTQIA+ em Portugal. Em março de 2023, registaram-se agressões na Marcha Trans de Lisboa e tentativas de intimidação em iniciativas culturais e educativas promovidas por coletivos queer. Mais recentemente, estas forças intensificaram a sua atividade, protagonizando invasões de conferências LGBTQIA+, onde realizaram saudações nazis. Estiveram mesmo implicadas na preparação de crimes de ódio com potencial terrorista, desmantelados pela Polícia Judiciária em 2025. Têm também interrompido eventos do Orgulho em cidades como Évora e Lisboa, espalhado cartazes transfóbicos e difundido propaganda anti-género em espaços públicos e nas redes sociais. Casos como o assassinato brutal de Samuel Luiz, em julho de 2021, em La Coruña — espancado até à morte ao som de insultos homofóbicos — expõem de forma crua que o caminho para uma sociedade verdadeiramente segura e inclusiva está longe de estar concluído. Também em Portugal, o assassinato de Gisberta Salce Júnior, em fevereiro de 2006, uma mulher trans* brutalmente torturada e assassinada no Porto, permanece como uma ferida aberta e um lembrete da violência extrema que atravessa as vidas das pessoas LGBTQIA+, especialmente das mais vulneráveis. Estes episódios revelam que, mesmo quando as violências não resultam em morte, continuam a ser sistematicamente desvalorizadas ou mal-enquadradas pelas autoridades, que frequentemente optam por classificá-las como meras desordens ou agressões comuns, apagando a sua motivação homofóbica ou transfóbica. O reconhecimento pleno dos crimes de ódio permanece um passo por cumprir na construção de uma sociedade verdadeiramente livre e segura para todas, todos e todes. Hoje, mais do que nunca, importa reforçar que os nossos direitos não dependem da concessão de terceiros, nem da necessidade de performance de respeitabilidade que nos é imposta. A luta continua — nas ruas, nas escolas, nos locais de trabalho e dentro de cada espaço onde a diferença ainda é vista como uma ameaça. A visibilidade é apenas o princípio. A dignidade, essa, ainda precisa de ser conquistada todos os dias.</p>

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<p>A luta LGBTQIA+ nunca foi linear, nunca foi homogénea. O orgulho, as leis e as celebrações públicas não encerram o percurso. Continuam a existir silêncios, exclusões e violências que nos desafiam a permanecer ativamente vigilantes. Os nossos direitos não são concessões: são territórios conquistados, mantidos e ampliados diariamente. A dignidade não é um prémio – é uma condição que continuamos a exigir, até que todas as existências cuir possam respirar livremente.</p>

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<p><a href="https://kuircuir.pt/tag:stonewall"><a href="https://kuircuir.pt/tag:stonewall" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">stonewall</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:stonewallinn"><a href="https://kuircuir.pt/tag:stonewallinn" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">stonewallinn</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:hist%C3%B3ria"><a href="https://kuircuir.pt/tag:hist%C3%B3ria" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">história</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:eua"><a href="https://kuircuir.pt/tag:eua" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">eua</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:homofobia"><a href="https://kuircuir.pt/tag:homofobia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">homofobia</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtq"><a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtq" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lgbtq</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbt"><a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbt" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lgbt</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtqia"><a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtqia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lgbtqia</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:livros"><a href="https://kuircuir.pt/tag:livros" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">livros</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:cuir"><a href="https://kuircuir.pt/tag:cuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">cuir</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:kuir"><a href="https://kuircuir.pt/tag:kuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">kuir</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:cuirfobia"><a href="https://kuircuir.pt/tag:cuirfobia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">cuirfobia</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:Caderno1"><a href="https://kuircuir.pt/tag:Caderno1" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">Caderno1</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:desdeasmargens"><a href="https://kuircuir.pt/tag:desdeasmargens" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">desdeasmargens</span></a></a></p>

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<em>Por Orlando Figueiredo, desde as margens.</em></p><br>---<br><p>Queres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! <br>
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      <guid>https://kuircuir.pt/do-pos-guerra-a-stonewall-parte-viii-depois-de-stonewall-fendas-fronteiras</guid>
      <pubDate>Sat, 28 Jun 2025 07:21:55 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Do pós-guerra a Stonewall — Parte VII: Entre a Respeitabilidade e a Revolta</title>
      <link>https://kuircuir.pt/do-pos-guerra-a-stonewall-parte-vii-entre-a-respeitabilidade-e-a-revolta?pk_campaign=rss-feed</link>
      <description>&lt;![CDATA[Da homonormatividade à libertação radical: confrontos internos e externos na luta pelos direitos cuir - Fraturas na unidade LGBTQIA+ pós-Stonewall&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Ao longo desta série, percorremos os caminhos sinuosos da resistência LGBTQIA+: da ameaça lavanda e dos silêncios institucionais (Parte I e II), às revoltas antes de Stonewall (Parte III e IV), ao grito de libertação de Stonewall (Parte V) e ao apagamento político e mediático que se seguiu (Parte VI). Nesta Parte VII, entramos no campo das tensões internas: as disputas entre estratégias de assimilação e visibilidade radical, os confrontos entre a busca pela respeitabilidade e a necessidade de romper com a norma heterossexual. É o início de um debate ainda hoje vivo: quem cabe no orgulho e quem continua a ser deixado de fora?&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;O Peso da Respeitabilidade: A Mattachine Society e a Homonormatividade Inicial&#xA;&#xA;As estratégias de assimilação não nasceram por acaso: emergiram de um contexto de perseguição feroz, mas depressa começaram a excluir as vozes dissidentes.&#xA;&#xA;As tentativas de apropriação das lutas LGBTQIA+ por parte de setores homonormativos da comunidade gay sempre estiveram presentes — e continuam a manifestar-se. Desde as primeiras fases do ativismo institucionalizado, surgiram dentro do próprio coletivo associações que promoviam, com firmeza, a assimilação. O objetivo era alinhar-se com os padrões heterossexuais e corresponder às expectativas da heteronormatividade; apresentar a população LGBTQIA+ como uma extensão aceitável da sociedade dominante, procurando demonstrar que podíamos — e devíamos — ser tão respeitáveis quanto os heterossexuais. Esta estratégia procurava conquistar direitos através da imitação da norma, muitas vezes em detrimento das experiências mais dissidentes e marginalizadas dentro da comunidade.&#xA;&#xA;Um dos grupos mais emblemáticos dessa postura foi a Mattachine Society, que criticou abertamente os motins de Stonewall, considerando que a resistência física e o confronto direto com a polícia prejudicavam a imagem da comunidade gay e era uma expressão de desordem protagonizada por lésbicas, travestis e outros elementos marginais. Os seu líderes estavam particularmente preocupados com a forma como a imprensa e a sociedade poderiam interpretar os motins. Temiam que os protestos pusessem em risco os tímidos avanços que tinham conseguido através da negociação e do ativismo bem-comportado.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Dick Leitsvh, presidente da Mattachine Society nas instalações desta sociedade. Nova Iorque, 30 de dezembro de 1965. Foto por Louis Liotta/New York Post.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;Fundanda em Los Angeles, em 1950, por Harry Hay e outros ativistas LGBTQIA+, a Mattachine Society foi a primeira organização homófila dos E.U.A. Focava-se sobretudo em criar solidariedade, consciência e identidade coletiva entre homens gays, num período de forte repressão social e legal. A sociedade organizou grupos de discussão para criar espaço de partilha segura e reflexão sobre a condição de ser homossexual. Tinha um cariz inicial mais radical, influenciado pelas ideias marxistas de Harry Hay, que via as pessoas gay como um grupo oprimido com potencial revolucionário. A partir de 1953, com a saída de Harry Hay e dos fundadores originais, a Mattachine Society tornou-se progressivamente mais conservadora, assimilacionista e homonormativa, procurando a aceitação social através da promoção de uma imagem respeitável dos gays e enfatizando o seu desejo de integração na sociedade heteronormativa.&#xA;&#xA;Annual Reminders: O Último Protesto da Respeitabilidade&#xA;&#xA;Entre o desejo de aceitação e a necessidade de visibilidade, o último Annual Reminder expôs um racha irreparável dentro do movimento.&#xA;&#xA;Apesar das resistências externas e internas, Stonewall viria a ser o ponto de viragem na luta LGBTQIA+ nos E.U.A. Pouco a pouco, esse impacto espalhou-se pelo mundo ocidental e pelo resto do planeta. A 4 de julho de 1969, em Filadélfia, em frente ao Independence Hall, decorreu o 4th (e último) Annual Reminder. Os Annual Reminders foram manifestações organizadas entre 1965 e 1969 pelas primeiras organizações homófilas dos EUA. Entre estas contavam-se a Mattachine Society de Washington, a Daughters of Bilitis e a Janus Society. O objetivo era lembrar o governo e a sociedade de que as pessoas homossexuais eram cidadãs americanas que não gozavam de direitos iguais.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Annual Remider de 1969, realizado no dia 4 de junho, em Filadélfia. Fonte: New York Public Library Digital Collections&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Os Annual Reminders exigiam dos seus participantes um dress code rigoroso e um comportamento disciplinado. Os homens deviam usar fato e gravata e as mulheres, vestidos ou saias. Em relação ao comportamento, exigia-se discrição; nada de expressões públicas de afeto, gritos ou símbolos extravagantes. O foco era parecerem bons americanos que apenas pediam igualdade de direitos. Era uma estratégia consciente para mostrar respeitabilidade e tentar combater estereótipos negativos. Nesse ano, um casal gay decidiu dar as mãos durante o protesto. O organizador Frank Kameny, uma figura proeminente da Mattachine Society, terá inicialmente repreendido o casal, insistindo na manutenção da imagem respeitável. Mas Craig Rodwell, ativista mais jovem e menos conformista, reagiu incentivando todos os presentes a darem as mãos, promovendo um gesto de visibilidade que desafiava a postura de contenção dos protestos anteriores. Este momento é frequentemente interpretado como um ponto de transição entre o ativismo conservador e homonormativo, e o movimento de libertação gay que emergiu com força após os motins de Stonewall, que tinham ocorrido apenas alguns dias antes, a 28 de junho de 1969. Este foi o último Annual Reminder. No ano seguinte, o evento foi substituído pela primeira Marcha do Orgulho Gay, organizada em Nova Iorque, para assinalar o primeiro aniversário de Stonewall.&#xA;&#xA;Da Libertação ao Confronto: O Nascimento da Gay Liberation Front e da Gay Activist Alliance&#xA;&#xA;A energia de Stonewall rapidamente se canalizou para novas formas de resistência: mais radicais, mais interseccionais, mais visíveis.&#xA;&#xA;Estas tensões evidenciaram a necessidade de rutura com o comportamento domesticado e a imagem de respeitabilidade heteronormativa. Foi assim que nasceu a Gay Liberation Front, o primeiro grupo de defesa dos direitos homossexuais a utilizar a palavra gay na sua designação. A sua formação deu-se em julho de 1969, cerca de um mês depois dos protestos de Stonewall, por um grupo de dissidentes da Mattachine Society. Reivindicava liberdade não apenas para gays, mas para todas as pessoas oprimidas, alinhando-se com movimentos contracultura como os Black Panthers Negras, movimentos feminista e contra a guerra no Vietname. Organizaram marchas e piquetes e publicaram a revista Come Out!, que circulou entre 1969 e 1972.&#xA;&#xA;Em dezembro do mesmo ano, dinamizada por dissidentes da GLF, surgia a Gay Activist Alliance, que procurou uma abordagem mais focada e institucional, atuando dentro do sistema político e com o enfoque mais direcionado para a comunidade gay. Sempre que um político realizava um evento, surgiam ativistas para confrontá-lo com as questões da discriminação, incluindo o presidente da câmara de Nova Iorque.&#xA;&#xA;Snake-Pit: Quando a Violência Policial Volta a Bater à Porta&#xA;&#xA;Stonewall não foi o fim da repressão: novos episódios brutais reacenderam a urgência da mobilização nas ruas.&#xA;&#xA;Porém, a repressão policial não cessou. No dia 8 de março de 1970, uma rusga ao bar Snake-Pit, em Greenwich Village, terminou com 167 pessoas detidas. Um jovem argentino, Diego Viñales, ao tentar fugir pela janela com medo de ser deportado, caiu sobre uma barra de ferro e ficou empalado. Sobreviveu, mas o caso causou indignação e mais de 500 manifestantes dirigiram-se à esquadra para exigir justiça. O comportamento dos polícias presentes foi desumano — chegaram a referir-se à vítima com insultos como faggot, num tom desprezível e impiedoso.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Capa do Daily News, no dia 9 de março de 1970&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Este trágico incidente teve uma enorme visibilidade pública. No dia a seguir ao incidente, a edição do Daily News tinha uma foto de Viñales empalado na barra de ferro, na primeira página do jornal. A tragédia gerou uma grande onda de solidariedade dentro da comunidade LGBTQIA+.&#xA;&#xA;Christopher Street Liberation Day: O Orgulho Ocupa as Ruas&#xA;&#xA;Da dor e da resistência nasceu um gesto coletivo que viria a marcar para sempre o calendário e a história LGBTQIA+: a primeira Marcha do Orgulho.&#xA;&#xA;A Gay Liberation Front e a Gay Activist Alliance, em colaboração com outras organizações LGBTQIA+ e feministas nova-iorquinas bem como com vários militantes independentes, formaram o Christopher Street Liberation Day Committee. Este comité organizou a Christopher Street Liberation Day March, no dia 28 de junho de 1970, para celebrar o 1.º aniversário dos motins de Stonewall.&#xA;&#xA;A marcha partiu da 6th Avenue em Nova Iorque e seguiu até ao Central Park. Sendo considerada a primeira Marcha do Orgulho LGBTQIA+ da história, e contribuiu para a promoção da visibilidade, do orgulho e da luta contra a opressão social e policial. Este evento deu origem ao modelo das marchas do orgulho que rapidamente se espalhou por outras cidades dos EUA e do mundo.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Christopher Street Liberation Day March. 29 de junho de 1970. Foto de  Fred W. McDarrah.&#xA;&#xA;Além de Nova Iorque, no mesmo dia realizaram-se marchas semelhantes em Los Angeles, Chicago e São Francisco, marcando o início do movimento global de celebração e luta LGBTQIA+.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Além de Nova Iorque, no mesmo dia realizaram-se marchas semelhantes em Los Angeles, Chicago e São Francisco, marcando o início do movimento global de celebração e luta LGBTQIA+.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;O pós-Stonewall não foi uma caminhada linear rumo à liberdade. Foi — e continua a ser — um campo de disputa entre quem procura ser aceite e quem exige ser livre, entre quem negocia espaço dentro da norma e quem a quer desmantelar. Este legado é plural, atravessado por tensões que ainda hoje moldam os contornos do orgulho e os limites da inclusão.&#xA;&#xA;A noite de 28 de junho de 1969 desencadeou uma energia transformadora, mas não apagou os conflitos internos nem as exclusões dentro do próprio movimento. As tensões entre respeitabilidade e revolução, visibilidade e assimilação, continuaram a desenhar fronteiras — ora explícitas, ora disfarçadas — que delimitavam quem era visto, quem era ouvido e quem permanecia na margem. À medida que o movimento se expandia, também cresciam as suas contradições. As lutas pela libertação queer, trans e cuir não cessaram com o direito à marcha, nem com os gestos públicos de orgulho.&#xA;&#xA;O que veio depois? Quem ficou pelo caminho e quem continuou a resistir? É isso que exploramos na próxima parte, onde seguimos os ecos desta revolta — das alianças e fraturas nos Estados Unidos às primeiras faíscas do ativismo em Portugal, num percurso que nos traz até ao presente. Porque a luta nunca foi apenas contra a opressão externa: também se trava nas fissuras internas e nas batalhas quotidianas por dignidade plena.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;#stonewall #stonewallinn #história #eua #homofobia #lgbtq #lgbt #lgbtqia #livros #cuir #kuir #cuirfobia #Caderno1 #desdeasmargens&#xA;&#xA;phr style=&#34;border: none; border-top: 1px solid #ff69b4;&#34;&#xD;&#xA;emPor Orlando Figueiredo, desde as margens./em/pbr---brpQueres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! br&#xD;&#xA;!--emailsub--/p]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<h2 id="da-homonormatividade-à-libertação-radical-confrontos-internos-e-externos-na-luta-pelos-direitos-cuir-fraturas-na-unidade-lgbtqia-pós-stonewall" id="da-homonormatividade-à-libertação-radical-confrontos-internos-e-externos-na-luta-pelos-direitos-cuir-fraturas-na-unidade-lgbtqia-pós-stonewall">Da homonormatividade à libertação radical: confrontos internos e externos na luta pelos direitos cuir – Fraturas na unidade LGBTQIA+ pós-Stonewall</h2>

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<h5 id="ao-longo-desta-série-percorremos-os-caminhos-sinuosos-da-resistência-lgbtqia-da-ameaça-lavanda-e-dos-silêncios-institucionais-parte-i-e-ii-às-revoltas-antes-de-stonewall-parte-iii-e-iv-ao-grito-de-libertação-de-stonewall-parte-v-e-ao-apagamento-político-e-mediático-que-se-seguiu-parte-vi-nesta-parte-vii-entramos-no-campo-das-tensões-internas-as-disputas-entre-estratégias-de-assimilação-e-visibilidade-radical-os-confrontos-entre-a-busca-pela-respeitabilidade-e-a-necessidade-de-romper-com-a-norma-heterossexual-é-o-início-de-um-debate-ainda-hoje-vivo-quem-cabe-no-orgulho-e-quem-continua-a-ser-deixado-de-fora" id="ao-longo-desta-série-percorremos-os-caminhos-sinuosos-da-resistência-lgbtqia-da-ameaça-lavanda-e-dos-silêncios-institucionais-parte-i-e-ii-às-revoltas-antes-de-stonewall-parte-iii-e-iv-ao-grito-de-libertação-de-stonewall-parte-v-e-ao-apagamento-político-e-mediático-que-se-seguiu-parte-vi-nesta-parte-vii-entramos-no-campo-das-tensões-internas-as-disputas-entre-estratégias-de-assimilação-e-visibilidade-radical-os-confrontos-entre-a-busca-pela-respeitabilidade-e-a-necessidade-de-romper-com-a-norma-heterossexual-é-o-início-de-um-debate-ainda-hoje-vivo-quem-cabe-no-orgulho-e-quem-continua-a-ser-deixado-de-fora">Ao longo desta série, percorremos os caminhos sinuosos da resistência LGBTQIA+: da ameaça lavanda e dos silêncios institucionais (Parte I e II), às revoltas antes de Stonewall (Parte III e IV), ao grito de libertação de Stonewall (Parte V) e ao apagamento político e mediático que se seguiu (Parte VI). Nesta Parte VII, entramos no campo das tensões internas: as disputas entre estratégias de assimilação e visibilidade radical, os confrontos entre a busca pela respeitabilidade e a necessidade de romper com a norma heterossexual. É o início de um debate ainda hoje vivo: quem cabe no orgulho e quem continua a ser deixado de fora?</h5>

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<h3 id="o-peso-da-respeitabilidade-a-mattachine-society-e-a-homonormatividade-inicial" id="o-peso-da-respeitabilidade-a-mattachine-society-e-a-homonormatividade-inicial">O Peso da Respeitabilidade: A Mattachine Society e a Homonormatividade Inicial</h3>

<h5 id="as-estratégias-de-assimilação-não-nasceram-por-acaso-emergiram-de-um-contexto-de-perseguição-feroz-mas-depressa-começaram-a-excluir-as-vozes-dissidentes" id="as-estratégias-de-assimilação-não-nasceram-por-acaso-emergiram-de-um-contexto-de-perseguição-feroz-mas-depressa-começaram-a-excluir-as-vozes-dissidentes">As estratégias de assimilação não nasceram por acaso: emergiram de um contexto de perseguição feroz, mas depressa começaram a excluir as vozes dissidentes.</h5>

<p>As tentativas de apropriação das lutas LGBTQIA+ por parte de setores homonormativos da comunidade gay sempre estiveram presentes — e continuam a manifestar-se. Desde as primeiras fases do ativismo institucionalizado, surgiram dentro do próprio coletivo associações que promoviam, com firmeza, a assimilação. O objetivo era alinhar-se com os padrões heterossexuais e corresponder às expectativas da heteronormatividade; apresentar a população LGBTQIA+ como uma extensão aceitável da sociedade dominante, procurando demonstrar que podíamos — e devíamos — ser tão respeitáveis quanto os heterossexuais. Esta estratégia procurava conquistar direitos através da imitação da norma, muitas vezes em detrimento das experiências mais dissidentes e marginalizadas dentro da comunidade.</p>

<p>Um dos grupos mais emblemáticos dessa postura foi a <em>Mattachine Society</em>, que criticou abertamente os motins de Stonewall, considerando que a resistência física e o confronto direto com a polícia prejudicavam a imagem da comunidade gay e era uma expressão de desordem protagonizada por lésbicas, travestis e outros <em>elementos marginais</em>. Os seu líderes estavam particularmente preocupados com a forma como a imprensa e a sociedade poderiam interpretar os motins. Temiam que os protestos pusessem em risco os tímidos avanços que tinham conseguido através da negociação e do ativismo <em>bem-comportado</em>.</p>

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<p><img src="https://i.snap.as/gDWX7rYF.jpg" alt=""/></p>

<h5 id="dick-leitsvh-presidente-da-mattachine-society-nas-instalações-desta-sociedade-nova-iorque-30-de-dezembro-de-1965-foto-por-louis-liotta-new-york-post" id="dick-leitsvh-presidente-da-mattachine-society-nas-instalações-desta-sociedade-nova-iorque-30-de-dezembro-de-1965-foto-por-louis-liotta-new-york-post">Dick Leitsvh, presidente da Mattachine Society nas instalações desta sociedade. Nova Iorque, 30 de dezembro de 1965. Foto por Louis Liotta/New York Post.</h5>

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<p>Fundanda em Los Angeles, em 1950, por Harry Hay e outros ativistas LGBTQIA+, a Mattachine Society foi a primeira organização homófila dos E.U.A. Focava-se sobretudo em criar solidariedade, consciência e identidade coletiva entre homens gays, num período de forte repressão social e legal. A sociedade organizou grupos de discussão para criar espaço de partilha segura e reflexão sobre a condição de ser homossexual. Tinha um cariz inicial mais radical, influenciado pelas ideias marxistas de Harry Hay, que via as pessoas gay como um grupo oprimido com potencial revolucionário. A partir de 1953, com a saída de Harry Hay e dos fundadores originais, a Mattachine Society tornou-se progressivamente mais conservadora, assimilacionista e homonormativa, procurando a aceitação social através da promoção de uma imagem <em>respeitável</em> dos gays e enfatizando o seu desejo de integração na sociedade heteronormativa.</p>

<h3 id="annual-reminders-o-último-protesto-da-respeitabilidade" id="annual-reminders-o-último-protesto-da-respeitabilidade">Annual Reminders: O Último Protesto da Respeitabilidade</h3>

<h5 id="entre-o-desejo-de-aceitação-e-a-necessidade-de-visibilidade-o-último-annual-reminder-expôs-um-racha-irreparável-dentro-do-movimento" id="entre-o-desejo-de-aceitação-e-a-necessidade-de-visibilidade-o-último-annual-reminder-expôs-um-racha-irreparável-dentro-do-movimento">Entre o desejo de aceitação e a necessidade de visibilidade, o último Annual Reminder expôs um racha irreparável dentro do movimento.</h5>

<p>Apesar das resistências externas e internas, Stonewall viria a ser o ponto de viragem na luta LGBTQIA+ nos E.U.A. Pouco a pouco, esse impacto espalhou-se pelo mundo ocidental e pelo resto do planeta. A 4 de julho de 1969, em Filadélfia, em frente ao Independence Hall, decorreu o 4th (e último) Annual Reminder. Os Annual Reminders foram manifestações organizadas entre 1965 e 1969 pelas primeiras organizações homófilas dos EUA. Entre estas contavam-se a Mattachine Society de Washington, a Daughters of Bilitis e a Janus Society. O objetivo era lembrar o governo e a sociedade de que as pessoas homossexuais eram cidadãs americanas que não gozavam de direitos iguais.</p>

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<p><img src="https://i.snap.as/Xm9CQA4g.jpg" alt=""/></p>

<h5 id="annual-remider-de-1969-realizado-no-dia-4-de-junho-em-filadélfia-fonte-new-york-public-library-digital-collections" id="annual-remider-de-1969-realizado-no-dia-4-de-junho-em-filadélfia-fonte-new-york-public-library-digital-collections">Annual Remider de 1969, realizado no dia 4 de junho, em Filadélfia. Fonte: New York Public Library Digital Collections</h5>

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<p>Os Annual Reminders exigiam dos seus participantes um <em>dress code</em> rigoroso e um comportamento disciplinado. Os homens deviam usar fato e gravata e as mulheres, vestidos ou saias. Em relação ao comportamento, exigia-se discrição; nada de expressões públicas de afeto, gritos ou símbolos <em>extravagantes</em>. O foco era parecerem <em>bons americanos</em> que apenas pediam igualdade de direitos. Era uma estratégia consciente para mostrar <em>respeitabilidade</em> e tentar combater estereótipos negativos. Nesse ano, um casal gay decidiu dar as mãos durante o protesto. O organizador Frank Kameny, uma figura proeminente da Mattachine Society, terá inicialmente repreendido o casal, insistindo na manutenção da imagem <em>respeitável</em>. Mas Craig Rodwell, ativista mais jovem e menos conformista, reagiu incentivando todos os presentes a darem as mãos, promovendo um gesto de visibilidade que desafiava a postura de contenção dos protestos anteriores. Este momento é frequentemente interpretado como um ponto de transição entre o ativismo conservador e homonormativo, e o movimento de libertação gay que emergiu com força após os motins de Stonewall, que tinham ocorrido apenas alguns dias antes, a 28 de junho de 1969. Este foi o último Annual Reminder. No ano seguinte, o evento foi substituído pela primeira Marcha do Orgulho Gay, organizada em Nova Iorque, para assinalar o primeiro aniversário de Stonewall.</p>

<h3 id="da-libertação-ao-confronto-o-nascimento-da-gay-liberation-front-e-da-gay-activist-alliance" id="da-libertação-ao-confronto-o-nascimento-da-gay-liberation-front-e-da-gay-activist-alliance">Da Libertação ao Confronto: O Nascimento da Gay Liberation Front e da Gay Activist Alliance</h3>

<h5 id="a-energia-de-stonewall-rapidamente-se-canalizou-para-novas-formas-de-resistência-mais-radicais-mais-interseccionais-mais-visíveis" id="a-energia-de-stonewall-rapidamente-se-canalizou-para-novas-formas-de-resistência-mais-radicais-mais-interseccionais-mais-visíveis">A energia de Stonewall rapidamente se canalizou para novas formas de resistência: mais radicais, mais interseccionais, mais visíveis.</h5>

<p>Estas tensões evidenciaram a necessidade de rutura com o comportamento domesticado e a imagem de respeitabilidade heteronormativa. Foi assim que nasceu a Gay Liberation Front, o primeiro grupo de defesa dos direitos homossexuais a utilizar a palavra <em>gay</em> na sua designação. A sua formação deu-se em julho de 1969, cerca de um mês depois dos protestos de Stonewall, por um grupo de dissidentes da Mattachine Society. Reivindicava liberdade não apenas para gays, mas para todas as pessoas oprimidas, alinhando-se com movimentos contracultura como os Black Panthers Negras, movimentos feminista e contra a guerra no Vietname. Organizaram marchas e piquetes e publicaram a revista <em>Come Out!,</em> que circulou entre 1969 e 1972.</p>

<p>Em dezembro do mesmo ano, dinamizada por dissidentes da GLF, surgia a Gay Activist Alliance, que procurou uma abordagem mais focada e institucional, atuando dentro do sistema político e com o enfoque mais direcionado para a comunidade gay. Sempre que um político realizava um evento, surgiam ativistas para confrontá-lo com as questões da discriminação, incluindo o presidente da câmara de Nova Iorque.</p>

<h3 id="snake-pit-quando-a-violência-policial-volta-a-bater-à-porta" id="snake-pit-quando-a-violência-policial-volta-a-bater-à-porta">Snake-Pit: Quando a Violência Policial Volta a Bater à Porta</h3>

<h5 id="stonewall-não-foi-o-fim-da-repressão-novos-episódios-brutais-reacenderam-a-urgência-da-mobilização-nas-ruas" id="stonewall-não-foi-o-fim-da-repressão-novos-episódios-brutais-reacenderam-a-urgência-da-mobilização-nas-ruas">Stonewall não foi o fim da repressão: novos episódios brutais reacenderam a urgência da mobilização nas ruas.</h5>

<p>Porém, a repressão policial não cessou. No dia 8 de março de 1970, uma rusga ao bar Snake-Pit, em Greenwich Village, terminou com 167 pessoas detidas. Um jovem argentino, Diego Viñales, ao tentar fugir pela janela com medo de ser deportado, caiu sobre uma barra de ferro e ficou empalado. Sobreviveu, mas o caso causou indignação e mais de 500 manifestantes dirigiram-se à esquadra para exigir justiça. O comportamento dos polícias presentes foi desumano — chegaram a referir-se à vítima com insultos como <em>faggot</em>, num tom desprezível e impiedoso.</p>

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<p><img src="https://i.snap.as/nINJal0l.jpeg" alt=""/></p>

<h5 id="capa-do-daily-news-no-dia-9-de-março-de-1970" id="capa-do-daily-news-no-dia-9-de-março-de-1970">Capa do Daily News, no dia 9 de março de 1970</h5>

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<p>Este trágico incidente teve uma enorme visibilidade pública. No dia a seguir ao incidente, a edição do Daily News tinha uma foto de Viñales empalado na barra de ferro, na primeira página do jornal. A tragédia gerou uma grande onda de solidariedade dentro da comunidade LGBTQIA+.</p>

<h3 id="christopher-street-liberation-day-o-orgulho-ocupa-as-ruas" id="christopher-street-liberation-day-o-orgulho-ocupa-as-ruas">Christopher Street Liberation Day: O Orgulho Ocupa as Ruas</h3>

<h5 id="da-dor-e-da-resistência-nasceu-um-gesto-coletivo-que-viria-a-marcar-para-sempre-o-calendário-e-a-história-lgbtqia-a-primeira-marcha-do-orgulho" id="da-dor-e-da-resistência-nasceu-um-gesto-coletivo-que-viria-a-marcar-para-sempre-o-calendário-e-a-história-lgbtqia-a-primeira-marcha-do-orgulho">Da dor e da resistência nasceu um gesto coletivo que viria a marcar para sempre o calendário e a história LGBTQIA+: a primeira Marcha do Orgulho.</h5>

<p>A Gay Liberation Front e a Gay Activist Alliance, em colaboração com outras organizações LGBTQIA+ e feministas nova-iorquinas bem como com vários militantes independentes, formaram o Christopher Street Liberation Day Committee. Este comité organizou a Christopher Street Liberation Day March, no dia 28 de junho de 1970, para celebrar o 1.º aniversário dos motins de Stonewall.</p>

<p>A marcha partiu da 6th Avenue em Nova Iorque e seguiu até ao Central Park. Sendo considerada a primeira Marcha do Orgulho LGBTQIA+ da história, e contribuiu para a promoção da visibilidade, do orgulho e da luta contra a opressão social e policial. Este evento deu origem ao modelo das marchas do orgulho que rapidamente se espalhou por outras cidades dos EUA e do mundo.</p>

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<p><img src="https://i.snap.as/N99reyBe.jpeg" alt=""/></p>

<h5 id="christopher-street-liberation-day-march-29-de-junho-de-1970-foto-de-fred-w-mcdarrah" id="christopher-street-liberation-day-march-29-de-junho-de-1970-foto-de-fred-w-mcdarrah"><strong>Christopher Street Liberation Day March. 29 de junho de 1970. Foto de  Fred W. McDarrah.</strong></h5>

<h5 id="além-de-nova-iorque-no-mesmo-dia-realizaram-se-marchas-semelhantes-em-los-angeles-chicago-e-são-francisco-marcando-o-início-do-movimento-global-de-celebração-e-luta-lgbtqia" id="além-de-nova-iorque-no-mesmo-dia-realizaram-se-marchas-semelhantes-em-los-angeles-chicago-e-são-francisco-marcando-o-início-do-movimento-global-de-celebração-e-luta-lgbtqia">Além de Nova Iorque, no mesmo dia realizaram-se marchas semelhantes em Los Angeles, Chicago e São Francisco, marcando o início do movimento global de celebração e luta LGBTQIA+.</h5>

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<p>Além de Nova Iorque, no mesmo dia realizaram-se marchas semelhantes em Los Angeles, Chicago e São Francisco, marcando o início do movimento global de celebração e luta LGBTQIA+.</p>

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<p>O pós-Stonewall não foi uma caminhada linear rumo à liberdade. Foi — e continua a ser — um campo de disputa entre quem procura ser aceite e quem exige ser livre, entre quem negocia espaço dentro da norma e quem a quer desmantelar. Este legado é plural, atravessado por tensões que ainda hoje moldam os contornos do orgulho e os limites da inclusão.</p>

<p>A noite de 28 de junho de 1969 desencadeou uma energia transformadora, mas não apagou os conflitos internos nem as exclusões dentro do próprio movimento. As tensões entre respeitabilidade e revolução, visibilidade e assimilação, continuaram a desenhar fronteiras — ora explícitas, ora disfarçadas — que delimitavam quem era visto, quem era ouvido e quem permanecia na margem. À medida que o movimento se expandia, também cresciam as suas contradições. As lutas pela libertação queer, trans e cuir não cessaram com o direito à marcha, nem com os gestos públicos de orgulho.</p>

<p>O que veio depois? Quem ficou pelo caminho e quem continuou a resistir? É isso que exploramos na próxima parte, onde seguimos os ecos desta revolta — das alianças e fraturas nos Estados Unidos às primeiras faíscas do ativismo em Portugal, num percurso que nos traz até ao presente. Porque a luta nunca foi apenas contra a opressão externa: também se trava nas fissuras internas e nas batalhas quotidianas por dignidade plena.</p>

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<p><a href="https://kuircuir.pt/tag:stonewall"><a href="https://kuircuir.pt/tag:stonewall" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">stonewall</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:stonewallinn"><a href="https://kuircuir.pt/tag:stonewallinn" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">stonewallinn</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:hist%C3%B3ria"><a href="https://kuircuir.pt/tag:hist%C3%B3ria" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">história</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:eua"><a href="https://kuircuir.pt/tag:eua" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">eua</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:homofobia"><a href="https://kuircuir.pt/tag:homofobia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">homofobia</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtq"><a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtq" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lgbtq</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbt"><a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbt" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lgbt</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtqia"><a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtqia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lgbtqia</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:livros"><a href="https://kuircuir.pt/tag:livros" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">livros</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:cuir"><a href="https://kuircuir.pt/tag:cuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">cuir</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:kuir"><a href="https://kuircuir.pt/tag:kuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">kuir</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:cuirfobia"><a href="https://kuircuir.pt/tag:cuirfobia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">cuirfobia</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:Caderno1"><a href="https://kuircuir.pt/tag:Caderno1" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">Caderno1</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:desdeasmargens"><a href="https://kuircuir.pt/tag:desdeasmargens" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">desdeasmargens</span></a></a></p>

<p><hr style="border: none; border-top: 1px solid #ff69b4;">
<em>Por Orlando Figueiredo, desde as margens.</em></p><br>---<br><p>Queres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! <br>
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      <guid>https://kuircuir.pt/do-pos-guerra-a-stonewall-parte-vii-entre-a-respeitabilidade-e-a-revolta</guid>
      <pubDate>Fri, 27 Jun 2025 06:31:15 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Do pós-guerra a Stonewall — Parte VI: A Imprensa e o Apagamento Político</title>
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      <description>&lt;![CDATA[A sublevação em Stonewall não foi encenada, foi uma resposta crua e urgente à violência sistemática&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Nos dias que se seguiram à revolta de Stonewall, os grandes jornais de Nova Iorque escolheram não amplificar a luta por direitos: preferiram escarnecer, distorcer ou silenciar. Entre títulos sensacionalistas, descrições burlescas e uma linguagem carregada de preconceitos, a imprensa representou os manifestantes como figuras excêntricas e perigosas, apagando-lhes a agência política. O protesto foi tratado como desordem, não como resistência. Este artigo revisita essas manchetes, desmonta o tratamento jornalístico da época e mostra como a homofobia — explícita ou estrutural — foi a verdadeira protagonista das primeiras páginas.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Sensacionalismo e escárnio: o olhar do The New York Daily News&#xA;&#xA;A  abordagem sensacionalista do The New York Daily News não só ignorou as razões políticas do protesto, como recorreu a linguagem abertamente ofensiva e desumanizadora.&#xA;&#xA;Os motins de Stonewall foram notícia em vários jornais nova-iorquinos, como o New York Daily News, e tabloide sensacionalista não poupou a comunidade. No dia 6 de julho, fiel ao estilo medíocre que ainda hoje o caracteriza, o NY Daily News, fez dos motins notícia de primeira página, pela pena de Jerry Lisker, com o título mordaz e irónico Homo Nest Raided, Queen Bees Are Stinging Mad. A ilustrar a primeira página, surge a única foto conhecida cuja origem na noite de 28 de junho é confirmada, e que acompanha o texto do artigo anterior. No lide, primeiro parágrafo da notícia, o sarcasmo homofóbico continua na senda do cabeçalho:&#xA;&#xA;  She sat there with her legs crossed, the lashes of her mascara‑coated eyes beating like the wings of a hummingbird. She was hungry. She was upset she hadn’t bothered to shave. A day-old stubble was beginning to push through the pancake makeup. She was a he. A queen of Christopher Street. \[1\]&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Reprodução digital da página do The NY Daily News onde se desenvolve a notícia sobre os motins de Stonewall — na época, a edição de domingo do The NY Daily News trazia o nome mais antigo do jornal, Sunday News.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;Recorrendo a um estilo sensacionalista, típico da imprensa tablóide, o NY Daily News não apenas relatou o que aconteceu — ridicularizou-o de maneira inequívoca e intencionalmente homofóbica, tanto na cobertura dos acontecimentos, como na escolha vocabular do título e no tom geral do texto da notícia. Houve escárnio, ironia desrespeitosa e objetificação, que reforçaram preconceitos da época contra pessoas LGBTQ+.&#xA;&#xA;Homofobia estrutural disfarçada de neutralidade&#xA;&#xA;Mesmo sem insultos explícitos, jornais como o The New York Times reforçaram preconceitos, tratando a revolta como simples perturbação da ordem.&#xA;&#xA;O The New York Times e o The New York Post também cobriram os acontecimentos, mas nenhum deles fez do episódio notícia de primeira página como o The NY Daily News. O NYT publicou dois artigos no dia 29 de junho de 1969. O primeiro, intitulado 4 Policemen Hurt in “Village” Raid; Melee Near Sheridan Square Follows Action at Bar; o segundo tinha por cabeçalho Police Again Rout &#39;Village&#39; Youths; Outbreak by 400 Follows a Near‑Riot Over Raid. Ambos os artigos foram produzidos como relatos básicos, possivelmente redigidos diretamente na redação, sem atribuição a repórteres.&#xA;&#xA;Ainda que o NYT tenha evitado os insultos abertos do The NY Daily News, tratou os eventos de Stonewall como um misto de curiosidade e problema de polícia, e não como um levante legítimo por direitos. Desta vez, a homofobia era estrutural na forma e no conteúdo. A linguagem, embora formal, está carregada de preconceitos. A homossexualidade é vista como uma característica pertinente em contexto criminal e as manifestações são tratadas como motins infundados. O tom geral privilegia a ordem pública sobre os direitos civis e reflete os preconceitos sociais vigentes — a ideia de que a polícia estava a fazer o seu trabalho ao controlar aqueles frequentadores de um bar gay não denota qualquer empatia pelas vítimas da opressão ou compreensão das razões que levaram ao motim. Os próprios termos usados — rampage, melee e hostile crowd —, bem como a absoluta ausência de vozes dos manifestantes, evidenciam uma cobertura alinhada com uma visão discriminatória da comunidade cuir.&#xA;&#xA;O corpo cuir como espetáculo: da marginalização à caricatura&#xA;&#xA;Ao ridicularizar e exotizar os manifestantes, os jornais negaram-lhes voz e apagaram o sentido político das suas ações.&#xA;&#xA;A cobertura jornalística dos acontecimentos de 28 de junho de 1969 em Greenwich Village foi feita em dois tons de homofobia — a do escárnio e a estrutural — com consequências devastadoras para a comunidade cuir.&#xA;&#xA;As pessoas LGBTQIA+ foram retratadas como figuras estéticas excêntricas e não como sujeitos políticos conscientes, o que levou ao apagamento do significado político dos protestos, que passaram a ser descritos como um momento teatral, senão mesmo surreal. A ausência de vozes da comunidade na generalidade dos meios de comunicação da época levou a que as pessoas LGBTQIA+ fossem vistas como um outro exótico e excêntrico.&#xA;&#xA;Na noite seguinte, os distúrbios recomeçaram. Milhares reuniram-se frente ao bar Stonewall Inn, que reabrira, acabando por encher a Christopher Street e as artérias adjacentes. Aparentemente o medo tinha desaparecido. Pessoas da comunidade manifestavam livremente o seu afeto — beijando-se, abraçando-se, expressando-se em público. Mas a realidade é mais dura. Stonewall foi um protesto, uma manifestação de luta por direitos sonegados, e a violência policial fez parte dos acontecimentos. Mais de uma centena de polícias foram destacados para a zona. A polícia de choque chegou por volta das duas da manhã. Houve perseguições e detenções e a multidão insurgiu-se contra os polícias, tentando libertar os manifestantes que eram detidos. Os confrontos prolongaram-se até às 4h00 da madrugada.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;A comunidade cuir, nas imediações do bar Stonewall Inn, nos dias que se seguiram aos motins de 28 de junho. Larry Morris/The New York Times.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Nos dias seguintes, em particular na madrugada de 3 de julho, a chuva trouxe alguma calma às ruas de Greenwich Village. No entanto, os manifestantes aproveitaram a oportunidade para se organizarem. Nasceu um movimento que propunha o boicote aos bares controlados pela máfia — como o Stonewall — e exigia ao mayor de Nova Iorque o fim da discriminação contra a comunidade LGBTQIA+. Contudo, as divergências internas não tardaram em surgir. Alguns setores da comunidade gay, que defendiam uma homossexualidade respeitável, discreta e heteronormativa, repudiaram os motins, criticando a presença de travestis, drags, gays afeminados e demais expressões não conformes. Chegaram mesmo a aplaudir o encerramento de espaços como o Stonewall, que consideravam decadentes e prejudiciais à reputação do Village e da comunidade cuir heteronormativa.&#xA;&#xA;O The Village Voice e a traição da imprensa progressista&#xA;&#xA;Mesmo vindo da contracultura, o The Village Voice reproduziu os mesmos preconceitos, expondo os limites da aliança progressista com a causa queer.&#xA;&#xA;No dia 3 de julho saíam dois artigos no jornal local de Greenwich Village, The Village Voice, um jornal alternativo com raízes na contracultura nova-iorquina, e próximo do universo hippie em termos de contexto sociocultural, ainda que nãofosse um veículo ativo dessa corrente cultural. Os artigos intitulados Gay Power Comes to Sheridan Square, escrito por Lucian K. Truscott IV, e Full Moon Over the Stonewall, de Howard Smith, mostram bem a prevalência das duas instâncias de homofobia com que a imprensa da época cobriu os acontecimentos.&#xA;&#xA;O artigo de Truscott é particularmente ofensivo e não mostra qualquer solidariedade para com a comunidade cuir, nem o menor esforço de compreensão dos motivos que levaram à revolta. A própria expressão Gay Power usada no título não valoriza a afirmação política, pelo contrario, retrata os acontecimentos como uma provocação ruidosa comunidade cuir. A linguagem de que Truscott se socorre é fortemente pejorativa, e o autor usa termos como faggot, faggotry e fag follies, reconhecidos hoje e à época como insultos homofóbicos, empregados para humilhar e desumanizar as pessoas cuir. O escárnio e a ridicularização estão bem presentes no texto, em expressões como:&#xA;&#xA;  “The forces of faggotry \[…\]”, “\[…\] the Sunday fag follies \[…\]”, “\[…\] the queen in question had lost her wig and her mascara was running \[…\]”, “\[…\] a full-blown queen \[…\]” ou ainda \[…\] his voice was a falsetto shriek of rage \[…\]” \[2\]&#xA;&#xA;que denotam uma estereotipagem burlesca, com ênfase no aspeto físico e emocional das pessoas, em detrimento das causas políticas que as levaram ali.&#xA;&#xA;O enquadramento enviesado, visível em expressões como:&#xA;&#xA;  “the action was very diverting…” ou “it was all just a good show…” \[3\]&#xA;&#xA;trata os confrontos como uma excentricidade urbana e retira agência política à comunidade, minimizando a importância da luta pelos direitos civis.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Digitalização da página 3 da edição de 3 de julho do The Village Voice.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;O tom do artigo de Howard Smith é bastante diferente do anterior, mas ainda assim revela indícios de homofobia estrutural implícita e uma linguagem ambígua. Logo no título, através da expressão Full moon madness, estabelece-se uma relação entre o comportamento das pessoas cuir e o descontrolo, a loucura e a irracionalidade. A homofobia continua, com a hiperssexualização dos corpos cuir — tidos como exóticos ou estranhos — presente em expressões como “boys in tight pants” ou “gyrating hips”. Além desta hiperssexualização, encontramos uma fetichização das pessoas LGBTQIA+ enquanto figuras estéticas excêntricas, em frases como “The street had a carnival air” e “Slick-haired boys with hips of mercury”. Por fim, a ausência de qualquer contextualização política e de luta pelos direitos civis, associada a um enfoque exclusivo na espetacularidade da noite — patente em frases como “I stood there, watching the drag queens shriek and the cops retreat” — contribui para o apagamento do significado político dos protestos e da agência da comunidade cuir na reivindicação dos seus direitos e do respeito que é devido a todos os seres humanos.&#xA;&#xA;A comunidade LGBTQIA+ ficou particularmente zangada e dececionada com a forma como o jornal tratou o assunto. Tendo este, desde a sua fundação em 1955, um pendor progressista e de contracultura urbana, esperava-se maior seriedade, solidariedade e compreensão ao noticiar os motins.&#xA;&#xA;A coragem dos que não podiam recuar&#xA;&#xA;Stonewall foi possível porque os mais vulneráveis disseram basta. Foram eles que abriram caminho para a revolução que se seguiu.&#xA;&#xA;Os motins de Stonewall Inn estão longe de ser obra de um grupo de exaltados alucinados numa madrugada, como a imprensa da época descreve, recorrendo alternadamente a uma homofobia estrutural ou ao sarcasmo homofóbico. Os motins representaram a visibilização de toda a comunidade LGBTQIA+: pessoas cuir, não só do grupo heteronormativo e tido como respeitável, mas sobretudo dos marginalizados dentro do próprio movimento. A eles devemos o início da luta, pois foram essas pessoas — as que pouco ou nada tinham a perder — que arriscaram tudo: a reputação, a integridade física e a própria vida, para dizer basta.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Notas:&#xA;&#xA;\[1\] Ela estava sentada com as pernas cruzadas, as pestanas dos olhos cobertos de rímel a bater como as asas de um beija-flor. Tinha fome. Estava incomodada por não ter feito a barba. A barba por fazer, de um dia, começava a romper pela base da maquilhagem espessa. Ela era um ele. Uma rainha da Christopher Street.&#xA;&#xA;\[2\] «As forças da bichice \[…\]», «\[…\] as folias domingueiras das bichas \[…\]», «\[…\] a rainha em questão perdera a peruca e o rímel escorria-lhe pela cara \[…\]», «\[…\] uma rainha em todo o seu esplendor \[…\]» ou ainda «\[…\] a sua voz era um falsete estridente de raiva \[…\]»&#xA;&#xA;\[3\] «a ação era muito divertida…» ou «foi tudo apenas um bom espetáculo…»&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;#stonewall #stonewallinn #história #eua #homofobia #lgbtq #lgbt #lgbtqia #livros #cuir #kuir #cuirfobia #Caderno1 #desdeasmargens&#xA;&#xA;phr style=&#34;border: none; border-top: 1px solid #ff69b4;&#34;&#xD;&#xA;emPor Orlando Figueiredo, desde as margens./em/pbr---brpQueres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! br&#xD;&#xA;!--emailsub--/p]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<h2 id="a-sublevação-em-stonewall-não-foi-encenada-foi-uma-resposta-crua-e-urgente-à-violência-sistemática" id="a-sublevação-em-stonewall-não-foi-encenada-foi-uma-resposta-crua-e-urgente-à-violência-sistemática">A sublevação em Stonewall não foi encenada, foi uma resposta crua e urgente à violência sistemática</h2>

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<h5 id="nos-dias-que-se-seguiram-à-revolta-de-stonewall-os-grandes-jornais-de-nova-iorque-escolheram-não-amplificar-a-luta-por-direitos-preferiram-escarnecer-distorcer-ou-silenciar-entre-títulos-sensacionalistas-descrições-burlescas-e-uma-linguagem-carregada-de-preconceitos-a-imprensa-representou-os-manifestantes-como-figuras-excêntricas-e-perigosas-apagando-lhes-a-agência-política-o-protesto-foi-tratado-como-desordem-não-como-resistência-este-artigo-revisita-essas-manchetes-desmonta-o-tratamento-jornalístico-da-época-e-mostra-como-a-homofobia-explícita-ou-estrutural-foi-a-verdadeira-protagonista-das-primeiras-páginas" id="nos-dias-que-se-seguiram-à-revolta-de-stonewall-os-grandes-jornais-de-nova-iorque-escolheram-não-amplificar-a-luta-por-direitos-preferiram-escarnecer-distorcer-ou-silenciar-entre-títulos-sensacionalistas-descrições-burlescas-e-uma-linguagem-carregada-de-preconceitos-a-imprensa-representou-os-manifestantes-como-figuras-excêntricas-e-perigosas-apagando-lhes-a-agência-política-o-protesto-foi-tratado-como-desordem-não-como-resistência-este-artigo-revisita-essas-manchetes-desmonta-o-tratamento-jornalístico-da-época-e-mostra-como-a-homofobia-explícita-ou-estrutural-foi-a-verdadeira-protagonista-das-primeiras-páginas">Nos dias que se seguiram à revolta de Stonewall, os grandes jornais de Nova Iorque escolheram não amplificar a luta por direitos: preferiram escarnecer, distorcer ou silenciar. Entre títulos sensacionalistas, descrições burlescas e uma linguagem carregada de preconceitos, a imprensa representou os manifestantes como figuras excêntricas e perigosas, apagando-lhes a agência política. O protesto foi tratado como desordem, não como resistência. Este artigo revisita essas manchetes, desmonta o tratamento jornalístico da época e mostra como a homofobia — explícita ou estrutural — foi a verdadeira protagonista das primeiras páginas.</h5>

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<h3 id="sensacionalismo-e-escárnio-o-olhar-do-the-new-york-daily-news" id="sensacionalismo-e-escárnio-o-olhar-do-the-new-york-daily-news">Sensacionalismo e escárnio: o olhar do The New York Daily News</h3>

<h5 id="a-abordagem-sensacionalista-do-the-new-york-daily-news-não-só-ignorou-as-razões-políticas-do-protesto-como-recorreu-a-linguagem-abertamente-ofensiva-e-desumanizadora" id="a-abordagem-sensacionalista-do-the-new-york-daily-news-não-só-ignorou-as-razões-políticas-do-protesto-como-recorreu-a-linguagem-abertamente-ofensiva-e-desumanizadora">A  abordagem sensacionalista do The New York Daily News não só ignorou as razões políticas do protesto, como recorreu a linguagem abertamente ofensiva e desumanizadora.</h5>

<p>Os motins de Stonewall foram notícia em vários jornais nova-iorquinos, como o <em>New York Daily News</em>, e tabloide sensacionalista não poupou a comunidade. No dia 6 de julho, fiel ao estilo medíocre que ainda hoje o caracteriza, o <em>NY Daily News,</em> fez dos motins notícia de primeira página, pela pena de Jerry Lisker, com o título mordaz e irónico <em>Homo Nest Raided, Queen Bees Are Stinging Mad</em>. A ilustrar a primeira página, surge a única foto conhecida cuja origem na noite de 28 de junho é confirmada, e que acompanha o texto do <a href="https://kuircuir.pt/do-pos-guerra-a-stonewall-parte-v-stonewall-a-noite-em-que-a-revolta">artigo anterior</a>. No lide, primeiro parágrafo da notícia, o sarcasmo homofóbico continua na senda do cabeçalho:</p>

<blockquote><p><em>She sat there with her legs crossed, the lashes of her mascara‑coated eyes beating like the wings of a hummingbird. She was hungry. She was upset she hadn’t bothered to shave. A day-old stubble was beginning to push through the pancake makeup. She was a he. A queen of Christopher Street. [1]</em></p></blockquote>

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<p><img src="https://i.snap.as/1ojN7pkl.jpeg" alt=""/></p>

<p>Reprodução digital da página do The NY Daily News onde se desenvolve a notícia sobre os motins de Stonewall — na época, a edição de domingo do The NY Daily News trazia o nome mais antigo do jornal, <em>Sunday News</em>.</p>

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<p>Recorrendo a um estilo sensacionalista, típico da imprensa tablóide, o <em>NY Daily News</em> não apenas relatou o que aconteceu — ridicularizou-o de maneira inequívoca e intencionalmente homofóbica, tanto na cobertura dos acontecimentos, como na escolha vocabular do título e no tom geral do texto da notícia. Houve escárnio, ironia desrespeitosa e objetificação, que reforçaram preconceitos da época contra pessoas LGBTQ+.</p>

<h3 id="homofobia-estrutural-disfarçada-de-neutralidade" id="homofobia-estrutural-disfarçada-de-neutralidade">Homofobia estrutural disfarçada de neutralidade</h3>

<h5 id="mesmo-sem-insultos-explícitos-jornais-como-o-the-new-york-times-reforçaram-preconceitos-tratando-a-revolta-como-simples-perturbação-da-ordem" id="mesmo-sem-insultos-explícitos-jornais-como-o-the-new-york-times-reforçaram-preconceitos-tratando-a-revolta-como-simples-perturbação-da-ordem">Mesmo sem insultos explícitos, jornais como o The New York Times reforçaram preconceitos, tratando a revolta como simples perturbação da ordem.</h5>

<p>O <strong>The New York Times</strong> e o <strong>The New York Post</strong> também cobriram os acontecimentos, mas nenhum deles fez do episódio notícia de primeira página como o The NY Daily News. O <em>NYT</em> publicou dois artigos no dia 29 de junho de 1969. O primeiro, intitulado <em><a href="https://www.nytimes.com/1969/06/29/archives/4-policemen-hurt-in-village-raid-melee-near-sheridan-square-follows.html">4 Policemen Hurt in “Village” Raid; Melee Near Sheridan Square Follows Action at Bar</a></em>; o segundo tinha por cabeçalho <em><a href="https://www.nytimes.com/1969/06/30/archives/police-again-rout-village-youths-outbreak-by-400-follows-a-nearriot.html">Police Again Rout &#39;Village&#39; Youths; Outbreak by 400 Follows a Near‑Riot Over Raid</a></em>. Ambos os artigos foram produzidos como relatos básicos, possivelmente redigidos diretamente na redação, sem atribuição a repórteres.</p>

<p>Ainda que o <em>NYT</em> tenha evitado os insultos abertos do The NY Daily News, tratou os eventos de Stonewall como um misto de curiosidade e problema de polícia, e não como um levante legítimo por direitos. Desta vez, a homofobia era estrutural na forma e no conteúdo. A linguagem, embora formal, está carregada de preconceitos. A homossexualidade é vista como uma característica pertinente em contexto criminal e as manifestações são tratadas como motins infundados. O tom geral privilegia a ordem pública sobre os direitos civis e reflete os preconceitos sociais vigentes — a ideia de que a polícia estava a fazer o seu trabalho ao controlar aqueles frequentadores de um bar gay não denota qualquer empatia pelas vítimas da opressão ou compreensão das razões que levaram ao motim. Os próprios termos usados — <em>rampage</em>, <em>melee</em> e <em>hostile crowd</em> —, bem como a absoluta ausência de vozes dos manifestantes, evidenciam uma cobertura alinhada com uma visão discriminatória da comunidade cuir.</p>

<h3 id="o-corpo-cuir-como-espetáculo-da-marginalização-à-caricatura" id="o-corpo-cuir-como-espetáculo-da-marginalização-à-caricatura">O corpo cuir como espetáculo: da marginalização à caricatura</h3>

<h5 id="ao-ridicularizar-e-exotizar-os-manifestantes-os-jornais-negaram-lhes-voz-e-apagaram-o-sentido-político-das-suas-ações" id="ao-ridicularizar-e-exotizar-os-manifestantes-os-jornais-negaram-lhes-voz-e-apagaram-o-sentido-político-das-suas-ações">Ao ridicularizar e exotizar os manifestantes, os jornais negaram-lhes voz e apagaram o sentido político das suas ações.</h5>

<p>A cobertura jornalística dos acontecimentos de 28 de junho de 1969 em Greenwich Village foi feita em dois tons de homofobia — a do escárnio e a estrutural — com consequências devastadoras para a comunidade cuir.</p>

<p>As pessoas LGBTQIA+ foram retratadas como figuras estéticas excêntricas e não como sujeitos políticos conscientes, o que levou ao apagamento do significado político dos protestos, que passaram a ser descritos como um momento teatral, senão mesmo surreal. A ausência de vozes da comunidade na generalidade dos meios de comunicação da época levou a que as pessoas LGBTQIA+ fossem vistas como um <em>outro exótico e excêntrico</em>.</p>

<p>Na noite seguinte, os distúrbios recomeçaram. Milhares reuniram-se frente ao bar Stonewall Inn, que reabrira, acabando por encher a Christopher Street e as artérias adjacentes. Aparentemente o medo tinha desaparecido. Pessoas da comunidade manifestavam livremente o seu afeto — beijando-se, abraçando-se, expressando-se em público. Mas a realidade é mais dura. Stonewall foi um protesto, uma manifestação de luta por direitos sonegados, e a violência policial fez parte dos acontecimentos. Mais de uma centena de polícias foram destacados para a zona. A polícia de choque chegou por volta das duas da manhã. Houve perseguições e detenções e a multidão insurgiu-se contra os polícias, tentando libertar os manifestantes que eram detidos. Os confrontos prolongaram-se até às 4h00 da madrugada.</p>

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<h6 id="https-i-snap-as-ptp3xpkt-webp" id="https-i-snap-as-ptp3xpkt-webp"><img src="https://i.snap.as/PtP3xpKt.webp" alt=""/></h6>

<h6 id="a-comunidade-cuir-nas-imediações-do-bar-stonewall-inn-nos-dias-que-se-seguiram-aos-motins-de-28-de-junho-larry-morris-the-new-york-times" id="a-comunidade-cuir-nas-imediações-do-bar-stonewall-inn-nos-dias-que-se-seguiram-aos-motins-de-28-de-junho-larry-morris-the-new-york-times">A comunidade cuir, nas imediações do bar Stonewall Inn, nos dias que se seguiram aos motins de 28 de junho. Larry Morris/The New York Times.</h6>

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<p>Nos dias seguintes, em particular na madrugada de 3 de julho, a chuva trouxe alguma calma às ruas de Greenwich Village. No entanto, os manifestantes aproveitaram a oportunidade para se organizarem. Nasceu um movimento que propunha o boicote aos bares controlados pela máfia — como o Stonewall — e exigia ao <em>mayor</em> de Nova Iorque o fim da discriminação contra a comunidade LGBTQIA+. Contudo, as divergências internas não tardaram em surgir. Alguns setores da comunidade gay, que defendiam uma homossexualidade respeitável, discreta e heteronormativa, repudiaram os motins, criticando a presença de travestis, <em>drags</em>, gays afeminados e demais expressões não conformes. Chegaram mesmo a aplaudir o encerramento de espaços como o Stonewall, que consideravam decadentes e prejudiciais à reputação do Village e da comunidade cuir heteronormativa.</p>

<h3 id="o-the-village-voice-e-a-traição-da-imprensa-progressista" id="o-the-village-voice-e-a-traição-da-imprensa-progressista">O The Village Voice e a traição da imprensa progressista</h3>

<h5 id="mesmo-vindo-da-contracultura-o-the-village-voice-reproduziu-os-mesmos-preconceitos-expondo-os-limites-da-aliança-progressista-com-a-causa-queer" id="mesmo-vindo-da-contracultura-o-the-village-voice-reproduziu-os-mesmos-preconceitos-expondo-os-limites-da-aliança-progressista-com-a-causa-queer">Mesmo vindo da contracultura, o The <em>Village Voice</em> reproduziu os mesmos preconceitos, expondo os limites da aliança progressista com a causa queer.</h5>

<p>No dia 3 de julho saíam dois artigos no jornal local de Greenwich Village, <em><a href="https://www.villagevoice.com">The Village Voice</a></em>, um jornal alternativo com raízes na contracultura nova-iorquina, e próximo do universo <em>hippie</em> em termos de contexto sociocultural, ainda que nãofosse um veículo ativo dessa corrente cultural. Os artigos intitulados <em><a href="https://www.villagevoice.com/gay-power-comes-to-sheridan-square/">Gay Power Comes to Sheridan Square</a></em>, escrito por Lucian K. Truscott IV, e <em><a href="https://www.villagevoice.com/full-moon-over-the-stonewall/">Full Moon Over the Stonewall</a></em>, de Howard Smith, mostram bem a prevalência das duas instâncias de homofobia com que a imprensa da época cobriu os acontecimentos.</p>

<p>O artigo de Truscott é particularmente ofensivo e não mostra qualquer solidariedade para com a comunidade cuir, nem o menor esforço de compreensão dos motivos que levaram à revolta. A própria expressão <em>Gay Power</em> usada no título não valoriza a afirmação política, pelo contrario, retrata os acontecimentos como uma provocação ruidosa comunidade cuir. A linguagem de que Truscott se socorre é fortemente pejorativa, e o autor usa termos como <em>faggot</em>, <em>faggotry</em> e <em>fag follies</em>, reconhecidos hoje e à época como insultos homofóbicos, empregados para humilhar e desumanizar as pessoas cuir. O escárnio e a ridicularização estão bem presentes no texto, em expressões como:</p>

<blockquote><p><em>“The forces of faggotry […]”, “[…] the Sunday fag follies […]”, “[…] the queen in question had lost her wig and her mascara was running […]”, “[…] a full-blown queen […]”</em> ou ainda <em>[…] his voice was a falsetto shriek of rage […]” [2]</em></p></blockquote>

<p>que denotam uma estereotipagem burlesca, com ênfase no aspeto físico e emocional das pessoas, em detrimento das causas políticas que as levaram ali.</p>

<p>O enquadramento enviesado, visível em expressões como:</p>

<blockquote><p><em>“the action was very diverting…” ou “it was all just a good show…” [3]</em></p></blockquote>

<p>trata os confrontos como uma excentricidade urbana e retira agência política à comunidade, minimizando a importância da luta pelos direitos civis.</p>

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<p><img src="https://i.snap.as/tLX0vy60.jpg" alt=""/></p>

<h6 id="digitalização-da-página-3-da-edição-de-3-de-julho-do-the-village-voice" id="digitalização-da-página-3-da-edição-de-3-de-julho-do-the-village-voice">Digitalização da página 3 da edição de 3 de julho do The Village Voice.</h6>

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<p>O tom do artigo de Howard Smith é bastante diferente do anterior, mas ainda assim revela indícios de homofobia estrutural implícita e uma linguagem ambígua. Logo no título, através da expressão <em>Full moon madness</em>, estabelece-se uma relação entre o comportamento das pessoas cuir e o descontrolo, a loucura e a irracionalidade. A homofobia continua, com a hiperssexualização dos corpos cuir — tidos como exóticos ou estranhos — presente em expressões como <em>“boys in tight pants”</em> ou <em>“gyrating hips”</em>. Além desta hiperssexualização, encontramos uma fetichização das pessoas LGBTQIA+ enquanto figuras estéticas excêntricas, em frases como <em>“The street had a carnival air”</em> e <em>“Slick-haired boys with hips of mercury”</em>. Por fim, a ausência de qualquer contextualização política e de luta pelos direitos civis, associada a um enfoque exclusivo na espetacularidade da noite — patente em frases como <em>“I stood there, watching the drag queens shriek and the cops retreat”</em> — contribui para o apagamento do significado político dos protestos e da agência da comunidade cuir na reivindicação dos seus direitos e do respeito que é devido a todos os seres humanos.</p>

<p>A comunidade LGBTQIA+ ficou particularmente zangada e dececionada com a forma como o jornal tratou o assunto. Tendo este, desde a sua fundação em 1955, um pendor progressista e de contracultura urbana, esperava-se maior seriedade, solidariedade e compreensão ao noticiar os motins.</p>

<h3 id="a-coragem-dos-que-não-podiam-recuar" id="a-coragem-dos-que-não-podiam-recuar">A coragem dos que não podiam recuar</h3>

<h5 id="stonewall-foi-possível-porque-os-mais-vulneráveis-disseram-basta-foram-eles-que-abriram-caminho-para-a-revolução-que-se-seguiu" id="stonewall-foi-possível-porque-os-mais-vulneráveis-disseram-basta-foram-eles-que-abriram-caminho-para-a-revolução-que-se-seguiu">Stonewall foi possível porque os mais vulneráveis disseram basta. Foram eles que abriram caminho para a revolução que se seguiu.</h5>

<p>Os motins de Stonewall Inn estão longe de ser obra de um grupo de exaltados alucinados numa madrugada, como a imprensa da época descreve, recorrendo alternadamente a uma homofobia estrutural ou ao sarcasmo homofóbico. Os motins representaram a visibilização de toda a comunidade LGBTQIA+: pessoas cuir, não só do grupo heteronormativo e tido como respeitável, mas sobretudo dos marginalizados dentro do próprio movimento. A eles devemos o início da luta, pois foram essas pessoas — as que pouco ou nada tinham a perder — que arriscaram tudo: a reputação, a integridade física e a própria vida, para dizer basta.</p>

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<h5 id="notas" id="notas">Notas:</h5>

<h6 id="1-ela-estava-sentada-com-as-pernas-cruzadas-as-pestanas-dos-olhos-cobertos-de-rímel-a-bater-como-as-asas-de-um-beija-flor-tinha-fome-estava-incomodada-por-não-ter-feito-a-barba-a-barba-por-fazer-de-um-dia-começava-a-romper-pela-base-da-maquilhagem-espessa-ela-era-um-ele-uma-rainha-da-christopher-street" id="1-ela-estava-sentada-com-as-pernas-cruzadas-as-pestanas-dos-olhos-cobertos-de-rímel-a-bater-como-as-asas-de-um-beija-flor-tinha-fome-estava-incomodada-por-não-ter-feito-a-barba-a-barba-por-fazer-de-um-dia-começava-a-romper-pela-base-da-maquilhagem-espessa-ela-era-um-ele-uma-rainha-da-christopher-street">[1] Ela estava sentada com as pernas cruzadas, as pestanas dos olhos cobertos de rímel a bater como as asas de um beija-flor. Tinha fome. Estava incomodada por não ter feito a barba. A barba por fazer, de um dia, começava a romper pela base da maquilhagem espessa. Ela era um ele. Uma rainha da Christopher Street.</h6>

<h6 id="2-as-forças-da-bichice-as-folias-domingueiras-das-bichas-a-rainha-em-questão-perdera-a-peruca-e-o-rímel-escorria-lhe-pela-cara-uma-rainha-em-todo-o-seu-esplendor-ou-ainda-a-sua-voz-era-um-falsete-estridente-de-raiva" id="2-as-forças-da-bichice-as-folias-domingueiras-das-bichas-a-rainha-em-questão-perdera-a-peruca-e-o-rímel-escorria-lhe-pela-cara-uma-rainha-em-todo-o-seu-esplendor-ou-ainda-a-sua-voz-era-um-falsete-estridente-de-raiva">[2] «As forças da bichice […]», «[…] as folias domingueiras das bichas […]», «[…] a rainha em questão perdera a peruca e o rímel escorria-lhe pela cara […]», «[…] uma rainha em todo o seu esplendor […]» ou ainda «[…] a sua voz era um falsete estridente de raiva […]»</h6>

<h6 id="3-a-ação-era-muito-divertida-ou-foi-tudo-apenas-um-bom-espetáculo" id="3-a-ação-era-muito-divertida-ou-foi-tudo-apenas-um-bom-espetáculo">[3] «a ação era muito divertida…» ou «foi tudo apenas um bom espetáculo…»</h6>

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<p><a href="https://kuircuir.pt/tag:stonewall"><a href="https://kuircuir.pt/tag:stonewall" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">stonewall</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:stonewallinn"><a href="https://kuircuir.pt/tag:stonewallinn" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">stonewallinn</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:hist%C3%B3ria"><a href="https://kuircuir.pt/tag:hist%C3%B3ria" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">história</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:eua"><a href="https://kuircuir.pt/tag:eua" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">eua</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:homofobia"><a href="https://kuircuir.pt/tag:homofobia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">homofobia</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtq"><a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtq" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lgbtq</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbt"><a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbt" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lgbt</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtqia"><a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtqia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lgbtqia</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:livros"><a href="https://kuircuir.pt/tag:livros" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">livros</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:cuir"><a href="https://kuircuir.pt/tag:cuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">cuir</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:kuir"><a href="https://kuircuir.pt/tag:kuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">kuir</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:cuirfobia"><a href="https://kuircuir.pt/tag:cuirfobia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">cuirfobia</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:Caderno1"><a href="https://kuircuir.pt/tag:Caderno1" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">Caderno1</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:desdeasmargens"><a href="https://kuircuir.pt/tag:desdeasmargens" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">desdeasmargens</span></a></a></p>

<p><hr style="border: none; border-top: 1px solid #ff69b4;">
<em>Por Orlando Figueiredo, desde as margens.</em></p><br>---<br><p>Queres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! <br>
</p>
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      <pubDate>Sat, 14 Jun 2025 07:08:46 +0000</pubDate>
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      <title>Do pós-guerra a Stonewall – Parte V: Stonewall - A Noite em que a Revolta Começou</title>
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      <description>&lt;![CDATA[Da repressão à revolta: a noite em que corpos dissidentes deixaram de fugir e esconder.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Neste artigo retomo o relato dos acontecimentos que antecederam e despoletaram a revolta de Stonewall, centrando-me na noite de 28 de junho de 1969 e na rusga policial ao bar Stonewall Inn, em Nova Iorque. Através de uma narrativa cronológica e contextualizada, exploro o papel da máfia na gestão dos bares gay nova-iorquinos, o ambiente de constante repressão e chantagem policial. Denoto ainda a forma como estas dinâmicas culminaram num dos momentos mais emblemáticos da história da resistência LGBTQIA+. Destaco, em particular, a resposta firme e corajosa da comunidade — com especial relevo para as pessoas trans\, travestis, jovens sem-abrigo e trabalhadores do sexo — que enfrentaram a violência institucional com determinação. Este episódio marca o ponto de viragem que catalisou o movimento moderno pelos direitos LGBTQIA+, tornando-se símbolo de orgulho e de luta até aos dias de hoje.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;A Máfia e o Stonewall Inn&#xA;&#xA;Antes da revolta, os bares gay de Nova Iorque eram maioritariamente controlados por redes mafiosas que exploravam uma comunidade vulnerável e sem alternativas seguras de socialização.&#xA;&#xA;Durante a década de 1960, Fat Tony (Anthony Lauria), filho de um dos mais famosos mafiosos nova-iorquinos, decidiu, a descontento do seu pai, abrir um bar gay em Greenwich Village, Nova Iorque. O nome do bar: Stonewall Inn.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Fotografia da última noite de protestos na Christopher Street e arredores, onde se localiza Stonewall Inn. Foto: Larry Morris/The New York Times, 2 de julho de 1969.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;Como afirma David Carter, autor do livro Stonewall, The Riots that Sparked the Gay Revolution (2010, 1.ª edição publicada em 2004).&#xA;&#xA;  A Máfia ocupou o vazio existente para gerir bares gay, o que, por sua vez, criou um cenário propício à corrupção policial e à exploração dos clientes desses bares. As vítimas raramente se queixavam, pois não tinham outro lugar para onde ir e temiam a máfia. Além disso, o envolvimento da Máfia nos clubes gay aumentava ainda mais a vulnerabilidade legal de homens gay e de lésbicas (p. 18 - tradução do autor \[1\]).&#xA;&#xA;Carter mostra-nos como os proprietários do Stonewall e o seu gerente se dedicavam a chantagear os clientes mais abastados, em particular os que trabalhavam em Wall Street, o distrito financeiro de Nova Iorque. Ao que tudo indica, obtinham mais lucros através da extorsão do que com a venda de álcool no bar. Esta extorsão era feita em conluio com a polícia que também lucrava com ela. A dada altura, ao se aperceber de que não estava a receber a sua quota-parte, dos subornos oriundos da chantagem aos clientes homossexuais, decidiu que  Stonewall Inn deveria ser definitivamente encerrado.&#xA;&#xA;A Rusga da Madrugada&#xA;&#xA;Na noite de 27 para 28 de junho de 1969, uma operação policial viria a alterar o rumo da história LGBTQIA+. Tudo começou com uma rusga como tantas outras — mas esta teve um desfecho inesperado.&#xA;&#xA;Nessa noite, duas agentes à paisana e duas oficiais da unidade secreta entraram no bar Stonewall Inn, antes da maioria dos clientes chegar. O objetivo era a recolha de provas. Entretanto, a patrulha de moral pública aguardava no exterior, pronta para agir ao sinal combinado. Após reunidas as condições, os agentes infiltrados pediram reforços à esquadra número 6 de Nova Iorque, utilizando a cabine telefónica do próprio bar.&#xA;&#xA;Embora circulasse o rumor de uma rusga, os donos e funcionários do Stonewall não receberam qualquer aviso prévio — algo que era habitual em intervenções anteriores. À 1h20 da madrugada de sábado, 28 de junho de 1969, quatro polícias à paisana, envergando fatos escuros, e dois oficiais uniformizados, o detetive Charles Smyth e o subinspetor Seymour Pine, irromperam pelo Stonewall Inn. Pine, parou à entrada e anunciou: “Police! We’re taking the place!” (Carter 2004, p.137) A música cessou e as luzes principais foram acesas.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Organização do espaço do Stonewall Inn em 1969&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Naquela noite, encontravam-se cerca de 205 pessoas no bar. Aqueles que nunca tinham passado por uma rusga policial ficaram em estado de choque, e os poucos que compreenderam o que se passava tentaram escapar pelas portas e janelas das casas de banho, tentativa prontamente frustrada pela polícia, que bloqueou todas as saídas. No entanto, a operação não correu conforme o previsto.&#xA;&#xA;O procedimento habitual consistia em alinhar os clientes, verificar a sua identificação e fazer com que as agentes femininas conduzissem os indivíduos vestidos de mulher à casa de banho para confirmação do seu género. Qualquer pessoa de aparência masculina vestida com trajes femininos era automaticamente detida. Contudo, a situação começou a descambar quando os travestis presentes se recusaram a acompanhar as agentes. Simultaneamente, os homens na fila começaram a recusar-se a apresentar identificação.&#xA;&#xA;A polícia decidiu então levar todos os presentes para a esquadra, uma decisão tomada com brutal determinação. Após separar os suspeitos de travestismo para uma sala nos fundos do bar, o ambiente tornou-se rapidamente tenso e revoltado. Esta tensão aumentou com os abusos cometidos pela polícia contra algumas das mulheres lésbicas presentes, que foram revistadas de forma inapropriada.&#xA;&#xA;A Reação da Multidão&#xA;&#xA;O que era para ser mais uma rusga terminou numa explosão de indignação coletiva. A comunidade, cansada da repressão e da humilhação, respondeu de forma inédita.&#xA;&#xA;Em poucos minutos cerca de uma centena e meia de pessoas reuniram-se na rua em frente ao bar. Algumas tinham acabado de ser libertadas pela polícia e recusavam-se a abandonar o local, outras chegavam alertadas pela movimentação policial e pela multidão em crescimento. Apesar da tentativa da polícia de evacuar forçosamente alguns dos clientes, estes, ao juntarem-se a outros já libertos, responderam com ironia, teatralizando poses e cumprimentos exagerados, usando gestos ostensivos que provocaram risos e aplausos entre os presentes.&#xA;&#xA;Quando chegou a primeira carrinha da polícia, o número de pessoas concentradas à volta do Stonewall era já dez vezes superior ao número de detidos. Seguiu-se um silêncio tenso. Ao verem os donos do bar, membros da família mafiosa Genovese, serem colocados na viatura policial, a multidão rompeu em aplausos. Um transeunte gritou “Poder gay!” e entoaram “We Shall Overcome”.&#xA;&#xA;Essa canção de protesto, originária de um hino gospel composto pelo reverendo Charles Tindley, havia sido transformada numa balada folk por Peter Seeger, tornando-se o hino do Movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos e ecoando em múltiplas manifestações ao redor do mundo.&#xA;&#xA;Contudo, a tensão cresceu. A multidão reagia ainda com algum humor, mas uma crescente hostilidade começou a fazer-se sentir. A certa altura, um agente empurrou uma pessoa travestida, que reagiu batendo-lhe na cabeça com a mala. A multidão começou a apupar os polícias. Espalhou-se o rumor de que, dentro do bar, os agentes estavam a agredir os clientes e os detidos. Então, começaram a atirar moedas de um cêntimo, seguidas de garrafas de cerveja.&#xA;&#xA;O Corpo Que Se Recusou a Ceder&#xA;&#xA;O momento simbólico que desencadeou a violência foi protagonizado por uma mulher lésbica, cuja resistência catalisou a indignação generalizada da multidão.&#xA;&#xA;A revolta atingiu o auge quando uma mulher lésbica algemada foi conduzida à força várias vezes da porta do bar até à carrinha da polícia, resistindo a cada tentativa. Acabou por ser agredida na cabeça por um agente com à bastonada, quando protestou que tinha as algemas demasiado apertadas. Depois da bastonada, os agentes colocaram-na no interior da carrinha da polícia. Ferida e indignada, a mulher gritou à multidão: “Então não vão fazer nada?” E foi nesse instante que tudo explodiu.&#xA;&#xA;A Tomada das Ruas&#xA;&#xA;O confronto escalou para um verdadeiro motim urbano. A rua tornou-se o palco da revolta e do clamor por dignidade e justiça.&#xA;&#xA;A multidão tornou-se incontrolável, e as cargas físicas usadas pela polícia revelaram-se ineficazes para dispersar os manifestantes. Alguns dos detidos escaparam da carrinha, possivelmente com a conivência dos agentes. A população tentou virar os veículos policiais, cujos pneus tinham sido furados. Mais pessoas se juntavam ao caos, e quando alguém exclamou que a rusga se devia ao não pagamento de subornos, outro respondeu “então vamos pagar-lhes”, lançando moedas no ar em direção à polícia, que recebia também insultos e mais garrafas de cerveja.&#xA;&#xA;Ao recuar, a multidão encontrou-se numa obra em construção repleta de tijolos, que logo foram usados como projéteis. A polícia, em número muito inferior — entre 500 e 600 manifestantes —, deteve alguns indivíduos, mas, incapaz de conter a multidão, acabou por se refugiar no interior do próprio Stonewall Inn. Há quem defenda que tudo estava previamente planeado, embora tal hipótese seja não só contestada, mas historicamente refutada. Michael Fedor, uma testemunha ocular, recordava: “Estávamos fartos daquela merda. Não foi algo pensado, foi uma erupção acumulada. Aquela noite, naquele lugar, foi o limite. Foi a altura de lutar por tudo o que sempre nos haviam negado. Sabíamos que não havia retorno.”&#xA;&#xA;A Noite em Que Tudo Mudou&#xA;&#xA;Os mais marginalizados da comunidade LGBTQIA+ — travestis, pessoas trans\, trabalhadores do sexo e jovens sem-abrigo — assumiram a linha da frente da resistência. O que se passou naquela noite marcaria para sempre a história dos direitos queer.&#xA;&#xA;Com a polícia barricada no Stonewall, a turba começou a atirar caixotes de lixo, garrafas, pedras e tijolos contra o edifício, partindo as janelas. Os membros mais marginalizados da comunidade — trabalhadores do sexo, pessoas trans\, travestis e jovens LGBTQIA+ sem-abrigo — lideraram a resposta violenta. Arrancaram um parquímetro da rua, que usaram como aríete contra as portas do bar.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Esta fotografia – a única foto conhecida dos motins – apareceu na primeira página do The New York Daily News no domingo, 29 de junho de 1969. Aqui podem ver-se os jovens sem-abrigo que foram os primeiros a resistir à polícia. (Domínio público - Wikimedia Commons)&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Sylvia Rivera, uma das primeiras ativistas trans\ do movimento, juntamente com Marsha P. Johnson — ambas fundadoras de uma associação de apoio a mulheres trans\ sem-abrigo — recordava: “Trataram-nos como lixo durante anos. Agora é a nossa vez.” A multidão ateou fogo ao lixo e atirou-o pelas janelas partidas, enquanto os confrontos continuavam, e a polícia ameaçava abrir fogo. As forças de choque da cidade chegaram para libertar os agentes barricados no bar. Um oficial fora ferido com um golpe no olho e outros cinco apresentavam lesões diversas.&#xA;&#xA;Para os polícias, o escândalo era total: tinham sido derrotados por uma multidão de homossexuais, lésbicas, trans\ e travestis — algo que jamais imaginaram possível. Os agentes antidistúrbios formaram uma falange para dispersar os manifestantes, mas foram recebidos com escárnio. A multidão formou-se em linhas, dançando o cancã em provocação aberta. Quando a polícia carregou, os manifestantes retaliaram, perseguidos e perseguidores alternavam os papéis pelas ruas. Veículos foram virados para bloquear acessos e os tumultos prolongaram-se até às quatro da manhã.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;No próximo artigo regressamos às noites agitadas de junho de 1969, quando as ruas de Greenwitch Village ecoaram com os gritos de liberdade. Exploramos as noites seguintes ao primeiro motim, a reação dos media, as divisões internas do movimento e a chama que continuou a arder.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;\[1\] Texto original de David Carter: The Mafia entered into the vacuum to run gay bars, which in turn set up a scenario for police corruption and the exploitation of the bars’ customers. These victims were not likely to complain, because they had nowhere else to go and because they feared the mob. Moreover, the involvement of the Mafia in gay clubs further in- creased the legal vulnerability of gay men and lesbians.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;#stonewall #stonewallinn #história #eua #homofobia #lgbtq #lgbt #lgbtqia #livros #cuir #kuir #cuirfobia #Caderno1 #desdeasmargens&#xA;&#xA;phr style=&#34;border: none; border-top: 1px solid #ff69b4;&#34;&#xD;&#xA;emPor Orlando Figueiredo, desde as margens./em/pbr---brpQueres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! br&#xD;&#xA;!--emailsub--/p]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<h2 id="da-repressão-à-revolta-a-noite-em-que-corpos-dissidentes-deixaram-de-fugir-e-esconder" id="da-repressão-à-revolta-a-noite-em-que-corpos-dissidentes-deixaram-de-fugir-e-esconder"><strong>Da repressão à revolta: a noite em que corpos dissidentes deixaram de fugir e esconder.</strong></h2>

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<h5 id="neste-artigo-retomo-o-relato-dos-acontecimentos-que-antecederam-e-despoletaram-a-revolta-de-stonewall-centrando-me-na-noite-de-28-de-junho-de-1969-e-na-rusga-policial-ao-bar-stonewall-inn-em-nova-iorque-através-de-uma-narrativa-cronológica-e-contextualizada-exploro-o-papel-da-máfia-na-gestão-dos-bares-gay-nova-iorquinos-o-ambiente-de-constante-repressão-e-chantagem-policial-denoto-ainda-a-forma-como-estas-dinâmicas-culminaram-num-dos-momentos-mais-emblemáticos-da-história-da-resistência-lgbtqia-destaco-em-particular-a-resposta-firme-e-corajosa-da-comunidade-com-especial-relevo-para-as-pessoas-trans-travestis-jovens-sem-abrigo-e-trabalhadores-do-sexo-que-enfrentaram-a-violência-institucional-com-determinação-este-episódio-marca-o-ponto-de-viragem-que-catalisou-o-movimento-moderno-pelos-direitos-lgbtqia-tornando-se-símbolo-de-orgulho-e-de-luta-até-aos-dias-de-hoje" id="neste-artigo-retomo-o-relato-dos-acontecimentos-que-antecederam-e-despoletaram-a-revolta-de-stonewall-centrando-me-na-noite-de-28-de-junho-de-1969-e-na-rusga-policial-ao-bar-stonewall-inn-em-nova-iorque-através-de-uma-narrativa-cronológica-e-contextualizada-exploro-o-papel-da-máfia-na-gestão-dos-bares-gay-nova-iorquinos-o-ambiente-de-constante-repressão-e-chantagem-policial-denoto-ainda-a-forma-como-estas-dinâmicas-culminaram-num-dos-momentos-mais-emblemáticos-da-história-da-resistência-lgbtqia-destaco-em-particular-a-resposta-firme-e-corajosa-da-comunidade-com-especial-relevo-para-as-pessoas-trans-travestis-jovens-sem-abrigo-e-trabalhadores-do-sexo-que-enfrentaram-a-violência-institucional-com-determinação-este-episódio-marca-o-ponto-de-viragem-que-catalisou-o-movimento-moderno-pelos-direitos-lgbtqia-tornando-se-símbolo-de-orgulho-e-de-luta-até-aos-dias-de-hoje">Neste artigo retomo o relato dos acontecimentos que antecederam e despoletaram a revolta de Stonewall, centrando-me na noite de 28 de junho de 1969 e na rusga policial ao bar Stonewall Inn, em Nova Iorque. Através de uma narrativa cronológica e contextualizada, exploro o papel da máfia na gestão dos bares gay nova-iorquinos, o ambiente de constante repressão e chantagem policial. Denoto ainda a forma como estas dinâmicas culminaram num dos momentos mais emblemáticos da história da resistência LGBTQIA+. Destaco, em particular, a resposta firme e corajosa da comunidade — com especial relevo para as pessoas trans*, travestis, jovens sem-abrigo e trabalhadores do sexo — que enfrentaram a violência institucional com determinação. Este episódio marca o ponto de viragem que catalisou o movimento moderno pelos direitos LGBTQIA+, tornando-se símbolo de orgulho e de luta até aos dias de hoje.</h5>

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<h3 id="a-máfia-e-o-stonewall-inn" id="a-máfia-e-o-stonewall-inn">A Máfia e o Stonewall Inn</h3>

<h5 id="antes-da-revolta-os-bares-gay-de-nova-iorque-eram-maioritariamente-controlados-por-redes-mafiosas-que-exploravam-uma-comunidade-vulnerável-e-sem-alternativas-seguras-de-socialização" id="antes-da-revolta-os-bares-gay-de-nova-iorque-eram-maioritariamente-controlados-por-redes-mafiosas-que-exploravam-uma-comunidade-vulnerável-e-sem-alternativas-seguras-de-socialização">Antes da revolta, os bares gay de Nova Iorque eram maioritariamente controlados por redes mafiosas que exploravam uma comunidade vulnerável e sem alternativas seguras de socialização.</h5>

<p>Durante a década de 1960, Fat Tony (Anthony Lauria), filho de um dos mais famosos mafiosos nova-iorquinos, decidiu, a descontento do seu pai, abrir um bar gay em Greenwich Village, Nova Iorque. O nome do bar: <strong>Stonewall Inn</strong>.</p>

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<h6 id="https-i-snap-as-1warpnqu-jpg-fotografia-da-última-noite-de-protestos-na-christopher-street-e-arredores-onde-se-localiza-stonewall-inn-foto-larry-morris-the-new-york-times-2-de-julho-de-1969" id="https-i-snap-as-1warpnqu-jpg-fotografia-da-última-noite-de-protestos-na-christopher-street-e-arredores-onde-se-localiza-stonewall-inn-foto-larry-morris-the-new-york-times-2-de-julho-de-1969"><img src="https://i.snap.as/1waRPnQU.jpg" alt=""/><strong>Fotografia da última noite de protestos na Christopher Street e arredores, onde se localiza Stonewall Inn. Foto: Larry Morris/The New York Times, 2 de julho de 1969.</strong></h6>

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<p>Como afirma David Carter, autor do livro <em>Stonewall, The Riots that Sparked the Gay Revolution</em> (2010, 1.ª edição publicada em 2004).</p>

<blockquote><p><em>A Máfia ocupou o vazio existente para gerir bares gay, o que, por sua vez, criou um cenário propício à corrupção policial e à exploração dos clientes desses bares. As vítimas raramente se queixavam, pois não tinham outro lugar para onde ir e temiam a máfia. Além disso, o envolvimento da Máfia nos clubes gay aumentava ainda mais a vulnerabilidade legal de homens gay e de lésbicas</em> (p. 18 – tradução do autor [1]).</p></blockquote>

<p>Carter mostra-nos como os proprietários do Stonewall e o seu gerente se dedicavam a chantagear os clientes mais abastados, em particular os que trabalhavam em Wall Street, o distrito financeiro de Nova Iorque. Ao que tudo indica, obtinham mais lucros através da extorsão do que com a venda de álcool no bar. Esta extorsão era feita em conluio com a polícia que também lucrava com ela. A dada altura, ao se aperceber de que não estava a receber a sua quota-parte, dos subornos oriundos da chantagem aos clientes homossexuais, decidiu que  Stonewall Inn deveria ser definitivamente encerrado.</p>

<h3 id="a-rusga-da-madrugada" id="a-rusga-da-madrugada"><strong>A Rusga da Madrugada</strong></h3>

<h5 id="na-noite-de-27-para-28-de-junho-de-1969-uma-operação-policial-viria-a-alterar-o-rumo-da-história-lgbtqia-tudo-começou-com-uma-rusga-como-tantas-outras-mas-esta-teve-um-desfecho-inesperado" id="na-noite-de-27-para-28-de-junho-de-1969-uma-operação-policial-viria-a-alterar-o-rumo-da-história-lgbtqia-tudo-começou-com-uma-rusga-como-tantas-outras-mas-esta-teve-um-desfecho-inesperado">Na noite de 27 para 28 de junho de 1969, uma operação policial viria a alterar o rumo da história LGBTQIA+. Tudo começou com uma rusga como tantas outras — mas esta teve um desfecho inesperado.</h5>

<p>Nessa noite, duas agentes à paisana e duas oficiais da unidade secreta entraram no bar Stonewall Inn, antes da maioria dos clientes chegar. O objetivo era a recolha de provas. Entretanto, a patrulha de moral pública aguardava no exterior, pronta para agir ao sinal combinado. Após reunidas as condições, os agentes infiltrados pediram reforços à esquadra número 6 de Nova Iorque, utilizando a cabine telefónica do próprio bar.</p>

<p>Embora circulasse o rumor de uma rusga, os donos e funcionários do Stonewall não receberam qualquer aviso prévio — algo que era habitual em intervenções anteriores. À 1h20 da madrugada de sábado, 28 de junho de 1969, quatro polícias à paisana, envergando fatos escuros, e dois oficiais uniformizados, o detetive Charles Smyth e o subinspetor Seymour Pine, irromperam pelo Stonewall Inn. Pine, parou à entrada e anunciou: “Police! We’re taking the place!” (Carter 2004, p.137) A música cessou e as luzes principais foram acesas.</p>

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<p><img src="https://i.snap.as/GUWI17nU.png" alt=""/></p>

<h6 id="organização-do-espaço-do-stonewall-inn-em-1969" id="organização-do-espaço-do-stonewall-inn-em-1969">Organização do espaço do Stonewall Inn em 1969</h6>

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<p>Naquela noite, encontravam-se cerca de 205 pessoas no bar. Aqueles que nunca tinham passado por uma rusga policial ficaram em estado de choque, e os poucos que compreenderam o que se passava tentaram escapar pelas portas e janelas das casas de banho, tentativa prontamente frustrada pela polícia, que bloqueou todas as saídas. No entanto, a operação não correu conforme o previsto.</p>

<p>O procedimento habitual consistia em alinhar os clientes, verificar a sua identificação e fazer com que as agentes femininas conduzissem os indivíduos vestidos de mulher à casa de banho para confirmação do seu género. Qualquer pessoa de aparência masculina vestida com trajes femininos era automaticamente detida. Contudo, a situação começou a descambar quando os travestis presentes se recusaram a acompanhar as agentes. Simultaneamente, os homens na fila começaram a recusar-se a apresentar identificação.</p>

<p>A polícia decidiu então levar todos os presentes para a esquadra, uma decisão tomada com brutal determinação. Após separar os suspeitos de travestismo para uma sala nos fundos do bar, o ambiente tornou-se rapidamente tenso e revoltado. Esta tensão aumentou com os abusos cometidos pela polícia contra algumas das mulheres lésbicas presentes, que foram revistadas de forma inapropriada.</p>

<h3 id="a-reação-da-multidão" id="a-reação-da-multidão"><strong>A Reação da Multidão</strong></h3>

<h5 id="o-que-era-para-ser-mais-uma-rusga-terminou-numa-explosão-de-indignação-coletiva-a-comunidade-cansada-da-repressão-e-da-humilhação-respondeu-de-forma-inédita" id="o-que-era-para-ser-mais-uma-rusga-terminou-numa-explosão-de-indignação-coletiva-a-comunidade-cansada-da-repressão-e-da-humilhação-respondeu-de-forma-inédita">O que era para ser mais uma rusga terminou numa explosão de indignação coletiva. A comunidade, cansada da repressão e da humilhação, respondeu de forma inédita.</h5>

<p>Em poucos minutos cerca de uma centena e meia de pessoas reuniram-se na rua em frente ao bar. Algumas tinham acabado de ser libertadas pela polícia e recusavam-se a abandonar o local, outras chegavam alertadas pela movimentação policial e pela multidão em crescimento. Apesar da tentativa da polícia de evacuar forçosamente alguns dos clientes, estes, ao juntarem-se a outros já libertos, responderam com ironia, teatralizando poses e cumprimentos exagerados, usando gestos ostensivos que provocaram risos e aplausos entre os presentes.</p>

<p>Quando chegou a primeira carrinha da polícia, o número de pessoas concentradas à volta do Stonewall era já dez vezes superior ao número de detidos. Seguiu-se um silêncio tenso. Ao verem os donos do bar, membros da família mafiosa Genovese, serem colocados na viatura policial, a multidão rompeu em aplausos. Um transeunte gritou “Poder gay!” e entoaram “We Shall Overcome”.</p>

<p>Essa canção de protesto, originária de um hino gospel composto pelo reverendo Charles Tindley, havia sido transformada numa balada folk por Peter Seeger, tornando-se o hino do Movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos e ecoando em múltiplas manifestações ao redor do mundo.</p>

<p>Contudo, a tensão cresceu. A multidão reagia ainda com algum humor, mas uma crescente hostilidade começou a fazer-se sentir. A certa altura, um agente empurrou uma pessoa travestida, que reagiu batendo-lhe na cabeça com a mala. A multidão começou a apupar os polícias. Espalhou-se o rumor de que, dentro do bar, os agentes estavam a agredir os clientes e os detidos. Então, começaram a atirar moedas de um cêntimo, seguidas de garrafas de cerveja.</p>

<h3 id="o-corpo-que-se-recusou-a-ceder" id="o-corpo-que-se-recusou-a-ceder">O Corpo Que Se Recusou a Ceder</h3>

<h5 id="o-momento-simbólico-que-desencadeou-a-violência-foi-protagonizado-por-uma-mulher-lésbica-cuja-resistência-catalisou-a-indignação-generalizada-da-multidão" id="o-momento-simbólico-que-desencadeou-a-violência-foi-protagonizado-por-uma-mulher-lésbica-cuja-resistência-catalisou-a-indignação-generalizada-da-multidão">O momento simbólico que desencadeou a violência foi protagonizado por uma mulher lésbica, cuja resistência catalisou a indignação generalizada da multidão.</h5>

<p>A revolta atingiu o auge quando uma mulher lésbica algemada foi conduzida à força várias vezes da porta do bar até à carrinha da polícia, resistindo a cada tentativa. Acabou por ser agredida na cabeça por um agente com à bastonada, quando protestou que tinha as algemas demasiado apertadas. Depois da bastonada, os agentes colocaram-na no interior da carrinha da polícia. Ferida e indignada, a mulher gritou à multidão: “Então não vão fazer nada?” E foi nesse instante que tudo explodiu.</p>

<h3 id="a-tomada-das-ruas" id="a-tomada-das-ruas">A Tomada das Ruas</h3>

<h5 id="o-confronto-escalou-para-um-verdadeiro-motim-urbano-a-rua-tornou-se-o-palco-da-revolta-e-do-clamor-por-dignidade-e-justiça" id="o-confronto-escalou-para-um-verdadeiro-motim-urbano-a-rua-tornou-se-o-palco-da-revolta-e-do-clamor-por-dignidade-e-justiça">O confronto escalou para um verdadeiro motim urbano. A rua tornou-se o palco da revolta e do clamor por dignidade e justiça.</h5>

<p>A multidão tornou-se incontrolável, e as cargas físicas usadas pela polícia revelaram-se ineficazes para dispersar os manifestantes. Alguns dos detidos escaparam da carrinha, possivelmente com a conivência dos agentes. A população tentou virar os veículos policiais, cujos pneus tinham sido furados. Mais pessoas se juntavam ao caos, e quando alguém exclamou que a rusga se devia ao não pagamento de subornos, outro respondeu “então vamos pagar-lhes”, lançando moedas no ar em direção à polícia, que recebia também insultos e mais garrafas de cerveja.</p>

<p>Ao recuar, a multidão encontrou-se numa obra em construção repleta de tijolos, que logo foram usados como projéteis. A polícia, em número muito inferior — entre 500 e 600 manifestantes —, deteve alguns indivíduos, mas, incapaz de conter a multidão, acabou por se refugiar no interior do próprio Stonewall Inn. Há quem defenda que tudo estava previamente planeado, embora tal hipótese seja não só contestada, mas historicamente refutada. Michael Fedor, uma testemunha ocular, recordava: “Estávamos fartos daquela merda. Não foi algo pensado, foi uma erupção acumulada. Aquela noite, naquele lugar, foi o limite. Foi a altura de lutar por tudo o que sempre nos haviam negado. Sabíamos que não havia retorno.”</p>

<h3 id="a-noite-em-que-tudo-mudou" id="a-noite-em-que-tudo-mudou"><strong>A Noite em Que Tudo Mudou</strong></h3>

<h5 id="os-mais-marginalizados-da-comunidade-lgbtqia-travestis-pessoas-trans-trabalhadores-do-sexo-e-jovens-sem-abrigo-assumiram-a-linha-da-frente-da-resistência-o-que-se-passou-naquela-noite-marcaria-para-sempre-a-história-dos-direitos-queer" id="os-mais-marginalizados-da-comunidade-lgbtqia-travestis-pessoas-trans-trabalhadores-do-sexo-e-jovens-sem-abrigo-assumiram-a-linha-da-frente-da-resistência-o-que-se-passou-naquela-noite-marcaria-para-sempre-a-história-dos-direitos-queer">Os mais marginalizados da comunidade LGBTQIA+ — travestis, pessoas trans*, trabalhadores do sexo e jovens sem-abrigo — assumiram a linha da frente da resistência. O que se passou naquela noite marcaria para sempre a história dos direitos queer.</h5>

<p>Com a polícia barricada no Stonewall, a turba começou a atirar caixotes de lixo, garrafas, pedras e tijolos contra o edifício, partindo as janelas. Os membros mais marginalizados da comunidade — trabalhadores do sexo, pessoas trans*, travestis e jovens LGBTQIA+ sem-abrigo — lideraram a resposta violenta. Arrancaram um parquímetro da rua, que usaram como aríete contra as portas do bar.</p>

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<h6 id="https-i-snap-as-d86xwozv-jpg-esta-fotografia-a-única-foto-conhecida-dos-motins-apareceu-na-primeira-página-do-the-new-york-daily-news-no-domingo-29-de-junho-de-1969-aqui-podem-ver-se-os-jovens-sem-abrigo-que-foram-os-primeiros-a-resistir-à-polícia-domínio-público-wikimedia-commons" id="https-i-snap-as-d86xwozv-jpg-esta-fotografia-a-única-foto-conhecida-dos-motins-apareceu-na-primeira-página-do-the-new-york-daily-news-no-domingo-29-de-junho-de-1969-aqui-podem-ver-se-os-jovens-sem-abrigo-que-foram-os-primeiros-a-resistir-à-polícia-domínio-público-wikimedia-commons"><img src="https://i.snap.as/d86XWOzv.jpg" alt=""/>Esta fotografia – a única foto conhecida dos motins – apareceu na primeira página do The New York Daily News no domingo, 29 de junho de 1969. Aqui podem ver-se os jovens sem-abrigo que foram os primeiros a resistir à polícia. (Domínio público – Wikimedia Commons)</h6>

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<p>Sylvia Rivera, uma das primeiras ativistas trans* do movimento, juntamente com Marsha P. Johnson — ambas fundadoras de uma associação de apoio a mulheres trans* sem-abrigo — recordava: “Trataram-nos como lixo durante anos. Agora é a nossa vez.” A multidão ateou fogo ao lixo e atirou-o pelas janelas partidas, enquanto os confrontos continuavam, e a polícia ameaçava abrir fogo. As forças de choque da cidade chegaram para libertar os agentes barricados no bar. Um oficial fora ferido com um golpe no olho e outros cinco apresentavam lesões diversas.</p>

<p>Para os polícias, o escândalo era total: tinham sido derrotados por uma multidão de homossexuais, lésbicas, trans* e travestis — algo que jamais imaginaram possível. Os agentes antidistúrbios formaram uma falange para dispersar os manifestantes, mas foram recebidos com escárnio. A multidão formou-se em linhas, dançando o cancã em provocação aberta. Quando a polícia carregou, os manifestantes retaliaram, perseguidos e perseguidores alternavam os papéis pelas ruas. Veículos foram virados para bloquear acessos e os tumultos prolongaram-se até às quatro da manhã.</p>

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<p>No próximo artigo regressamos às noites agitadas de junho de 1969, quando as ruas de Greenwitch Village ecoaram com os gritos de liberdade. Exploramos as noites seguintes ao primeiro motim, a reação dos media, as divisões internas do movimento e a chama que continuou a arder.</p>

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<p>[1] Texto original de David Carter: The Mafia entered into the vacuum to run gay bars, which in turn set up a scenario for police corruption and the exploitation of the bars’ customers. These victims were not likely to complain, because they had nowhere else to go and because they feared the mob. Moreover, the involvement of the Mafia in gay clubs further in- creased the legal vulnerability of gay men and lesbians.</p>

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<p><a href="https://kuircuir.pt/tag:stonewall" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">stonewall</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:stonewallinn" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">stonewallinn</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:hist%C3%B3ria"><a href="https://kuircuir.pt/tag:hist%C3%B3ria" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">história</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:eua"><a href="https://kuircuir.pt/tag:eua" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">eua</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:homofobia"><a href="https://kuircuir.pt/tag:homofobia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">homofobia</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtq"><a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtq" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lgbtq</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbt"><a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbt" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lgbt</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtqia"><a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtqia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lgbtqia</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:livros"><a href="https://kuircuir.pt/tag:livros" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">livros</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:cuir"><a href="https://kuircuir.pt/tag:cuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">cuir</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:kuir"><a href="https://kuircuir.pt/tag:kuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">kuir</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:cuirfobia"><a href="https://kuircuir.pt/tag:cuirfobia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">cuirfobia</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:Caderno1"><a href="https://kuircuir.pt/tag:Caderno1" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">Caderno1</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:desdeasmargens"><a href="https://kuircuir.pt/tag:desdeasmargens" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">desdeasmargens</span></a></a></p>

<p><hr style="border: none; border-top: 1px solid #ff69b4;">
<em>Por Orlando Figueiredo, desde as margens.</em></p><br>---<br><p>Queres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! <br>
</p>
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      <guid>https://kuircuir.pt/do-pos-guerra-a-stonewall-parte-v-stonewall-a-noite-em-que-a-revolta</guid>
      <pubDate>Fri, 30 May 2025 19:06:04 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Do pós-guerra a Stonewall - Parte IV: Ecos de Rebeldia - Vozes Cuir Antes de Stonewall&#34; (1964–1968)</title>
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      <description>&lt;![CDATA[Raízes da revolta - A luta pelos direitos LGBTQIA+ antes de Stonewall&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Na parte IV deste caderno sobre Stonewall, detalho eventos importantes na luta pelos direitos LGBTQIA+ nos Estados Unidos antes dos famosos motins de Stonewall. Destaca-se a primeira manifestação conhecida em 1964, liderada por Randy Wicker, em resposta à quebra de confidencialidade pelo exército estadunidense, que propositadamente divulgou dados de homens gays que serviam na insituição. Em 1965, vários protestos ocorreram, incluindo um baile de máscaras em São Francisco que resultou em confrontos com a polícia, e os Dewey&#39;s sit-ins em Filadélfia, onde adolescentes e ativistas protestaram contra a discriminação num restaurante. Em 1966, houve protestos contra a discriminação em bares e a primeira manifestação de orgulho do mundo. A violência policial em Los Angeles em 1966/67 e a celebração do Dia de São Patrício por drag queens em 1968 também são mencionadas. O artigo encerra destacando a importância desses eventos na luta contínua pelos direitos LGBTQIA+.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Membros do Council of Religion and the Homosexual&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;1964: Randy Wicker e o Primeiro Protesto&#xA;&#xA;Em 1964, a repressão institucionalizada ainda era a norma, mas surgiam os primeiros sinais de resistência organizada.Randy Wicker liderou uma manifestação pioneira, marcando o início de uma luta pública pelos direitos da comunidade LGBTQIA+.&#xA;&#xA;Randy (Randolph) Wicker (1938 — ) foi um ativista e autor estadounidense envolvido na defesa dos direitos das pessoas LGBTQIA+ desde meados da década de 1950. Em 1964, Nova Iorque foi palco daquela que é frequentemente referenciada como a 1.ª manifestação pela defesa dos direitos humanos das pessoas cuir e foi Wicker quem esteve na sua origem. A manifestação decorreu no seguimento da quebra de confidencialidade de dados relativos a homens gay por parte de um centro de recrutamento do exército dos EUA.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Fotografia do piquete em frente ao centro de recrutamento do Exército dos EUA, considerado o primeiro protesto público pelos direitos LGBTQIA+ nos EUA. Da direita para a esquerda, Randy Wicker, Craig Rodwell, Nancy Garden, Renee Cafiero e Jack Dieter no protesto de 19 de setembro de 1964 (NYC LGBT Historic Sites Project)&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Nesse mesmo ano, e também em Nova Iorque, quatro membros da comunidade LGBTQIA+ irromperam numa conferência de um psicanalista que defendia que a homossexualidade era uma doença mental.&#xA;&#xA;1965: Da Catedral à Dewey&#39;s — Crescem os Protestos&#xA;&#xA;O ano de 1965 testemunhou uma intensificação dos protestos, desde confrontos em eventos religiosos até manifestações em espaços públicos. A comunidade LGBTQIA+ começava a articular-se de forma mais visível e determinada.&#xA;&#xA;Em 1965, surgiram sete ações de protesto. A primeira teve lugar em São Francisco, onde o Council of Religion and the Homosexual, formado por metodistas, luteranos e episcopalianos, organizou um baile de máscaras para angariação de fundos. Os membros do Conselho, como bons cristãos, pediram autorização à polícia, informando-a do local, data e hora do baile. No entanto, no momento do evento, a polícia apareceu para impedir a sua realização e deteve vários dos sacerdotes responsáveis pela organização.&#xA;&#xA;O evento acabou numa luta entre os membros do Conselho e a polícia. No seguimento destas detenções, que não ocorreram sem consequências penais, seguiu-se uma manifestação na catedral, em apoio a um dos reverendos condenados devido ao suporte que este prestava à comunidade cuir.&#xA;&#xA;Meses mais tarde, no início do mês de abril desse mesmo ano de 1965, em Washington DC e em Nova Iorque, houve protestos em frente à Casa Branca e em frente à sede das Nações Unidas, para contestar as políticas homofóbicas de Cuba, que enviava os homossexuais para campos de trabalho, e também pelas políticas discriminatórias dos próprios EUA, consideradas piores do que as de Cuba, da Rússia e de outros países que os EUA desprezavam.&#xA;&#xA;Dewey&#39;s Sit-ins: Resistência Juvenil e Organização&#xA;&#xA;Os protestos no restaurante Dewey&#39;s, em Filadélfia, destacaram a coragem dos jovens LGBTQIA+. Enfrentando a discriminação, organizaram-se e resistiram, demonstrando a força e a resiliência da juventude queer.&#xA;&#xA;No dia 25 de abril de 1965, os protestos ocorreram em Filadélfia (Pensilvânia) e ficaram conhecidos como os Dewey’s sit-ins, uma cadeia de restaurantes de hambúrgueres localizada na área metropolitana de Filadélfia. O primeiro Dewey&#39;s abriu em meados da década de 1930 em Atlantic City, e a cadeia, originalmente propriedade de Louis Yesner (1894-1979), acabou por crescer para quinze restaurantes. Dois desses locais - um na 208 S. Thirteenth Street e outro na 219 S. Seventeenth Street, em Filadélfia - tornaram-se locais de encontro para pessoas LGBTQIA+ na década de 1960. A manifestação a que aqui nos referimos, teve lugar no Dewey&#39;s da Seventeenth Street. Em resposta à frequência do local por grupo de adolescentes cuir, a gerência do Dewey&#39;s deu instruções ao pessoal para lhes recusar o serviço. Os empregados interpretaram esta instrução de forma generalizada, recusando o serviço a qualquer cliente que parecesse ser gay ou lésbica ou que desafiasse as convenções de género hegemónicas. A 25 de abril de 1965, no Dewey&#39;s da Seventeenth Street, foi recusado o serviço a 150 pessoas, incluindo homossexuais, mulheres masculinizadas, homens efeminados e pessoas que usavam roupas pouco convencionais e outros membros da comunidade cuir.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Manifestantes em frente ao restaurante Dewey’s, protestando contra a discriminação (OutHistory).&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Os adolescentes juntaram forças com a Janus Society, uma organização local de defesa dos direitos da comunidade cuir, para protestar contra esta política. A gestão do restaurante chamou a polícia e três adolescentes e o presidente da Janus Society, Clark Polak, foram detidos e considerados culpados de perturbação da ordem pública. Após as detenções, os ativistas da Janus Society protestaram em frente ao restaurante e distribuíram 1.500 panfletos a denunciar a política discriminatória da gerência. O protesto durou cinco dias e houve novamente conflitos entre os manifestantes e o restaurante, mas desta vez a polícia decidiu não intervir. A 2 de maio de 1965, teve lugar outra manifestação. Embora a polícia estivesse presente, não se realizaram detenções e, subsequentemente, a Dewey&#39;s suspendeu a sua política de recusar o serviço a pessoas que parecessem homossexuais ou melhor, a pessoas LGBTQIA+.&#xA;&#xA;1966: Bares, Bebidas e Discriminação&#xA;&#xA;A discriminação nos bares de Nova Iorque levou a comunidade a organizar protestos inovadores, como os &#34;sip-ins&#34;, desafiando as políticas que os excluíam dos espaços públicos. Estas ações marcaram um novo capítulo na luta por direitos civis.&#xA;&#xA;Entretanto, em Nova Iorque, a repressão contra a comunidade cuir ganhava novos contornos. As autoridades, em particular a Autoridade Estatal de Controlo de Bebidas Alcoólicas e o Departamento de Polícia, estavam empenhadas numa cruzada sistemática para fechar bares e espaços de convívio onde se reunissem pessoas não heterossexuais e não cisgénero. A venda de álcool a clientes queer era considerada, na prática, uma violação da “ordem pública”. Bares eram encerrados, licenças retiradas, clientes detidos. Não se tratava apenas de negar o direito a uma bebida, mas de reprimir a própria possibilidade de existência social e comunitária das pessoas LGBTQIA+.&#xA;&#xA;Face a esta hostilidade institucionalizada, um grupo de ativistas da Mattachine Society decidiu, em 1966, transformar o quotidiano em protesto político. Inspirando-se nos “sit-ins” do movimento negro pelos direitos civis — em que jovens afro-americanos ocupavam, pacificamente, restaurantes e balcões segregados no Sul dos EUA —, conceberam uma ação a que chamaram “sip-in”: uma ocupação pacífica de bares, mas com copos em vez de pratos, onde o ato de pedir uma bebida se tornava uma declaração de identidade e resistência.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;O protesto do “Sip-In” no bar Julius’, em Greenwich Village, a 21 de abril de 1966, foi liderado por Dick Leitsch (olhando fixamente para o barman), presidente da Mattachine Society de Nova Iorque, juntamente com três outros ativistas da organização. Da esquerda para a direita: John Timmins (virado para fora da câmara), Dick Leitsch, Craig Rodwell e Randy Wicker. A fotografia capta o momento em que o barman recusou servi-los, depois de os quatro anunciarem que eram homossexuais. (Foto de Fred W. McDarrah).&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Dick Leitsch, Craig Rodwell e John Timmons, três ativistas abertamente homossexuais, deram início ao plano: acompanhados por jornalistas, visitaram uma série de bares nova-iorquinos, declararam a sua orientação sexual e pediram para ser servidos. Nos três primeiros estabelecimentos, bastou afirmarem “somos homossexuais” para que lhes recusassem qualquer bebida. No quarto bar, foi-lhes negado todo e qualquer serviço, mesmo antes de formularem o pedido.&#xA;&#xA;Este gesto — simples, quotidiano, quase banal — expôs publicamente o caráter estrutural da discriminação. Os ativistas apresentaram uma queixa à Autoridade Estatal de Controlo de Bebidas Alcoólicas, que se recusou a intervir, legitimando, de facto, a exclusão. Mas a ação teve repercussão mediática suficiente para pressionar a Comissão de Direitos Humanos da cidade de Nova Iorque, que viria a declarar que a recusa de serviço com base na orientação sexual era ilegal e não poderia ser tolerada.&#xA;&#xA;Os “sip-ins” foram um dos primeiros exemplos de protesto queer com impacto institucional tangível. Demonstraram que a luta pelo direito à existência começava em gestos tão básicos como pedir um copo ao balcão. Ao desafiar as normas de respeitabilidade impostas pelo Estado e pela cultura dominante, estas ações colocaram o prazer, a visibilidade e a presença no centro da resistência. Numa época em que sair à rua de mãos dadas ou usar um vestido podia significar uma prisão, ocupar um bar como pessoa assumidamente queer era, sem dúvida, um ato revolucionário.&#xA;&#xA;1966: A primeira manifestação de orgulho do mundo&#xA;&#xA;Em 1966, diversas cidades dos EUA foram palco de manifestações simultâneas, protestando contra a exclusão das pessoas LGBTQIA+ das Forças Armadas. Estas ações coordenadas representaram um passo significativo na afirmação pública da comunidade.&#xA;&#xA;Organizada por diversas associações de apoio ao coletivo LGBTQIA+ em diferentes cidades: Nova Iorque, Filadélfia, São Francisco e Washington D.C., no dia 21 de maio de 1966, constituíram-se diversas manifestações simultâneas em todas estas cidades, para protestar contra a exclusão das pessoas cuir das Forças Armadas estado-unidenses. A comunidade cuir aproveitou o dia das Forças Armadas para se mobilizarem. Em Los Angeles organizaram-se numa parada com 15 veículos, enquanto nas outras cidades se marchou a pé. Esta iniciativa partiu da NACHO — North American Conference of Homophile Organizations, fundada em 1966, que surgiu a partir da ECHO — East Coast Homophile Organizations (fundada três anos antes).&#xA;&#xA;1966/67: Violência Policial e Alianças Contraculturais&#xA;&#xA;Na virada do ano, a brutalidade policial em Los Angeles provocou uma reação imediata da comunidade, que se manifestou espontaneamente contra a repressão. Este episódio evidenciou a crescente disposição para resistir abertamente à violência institucional.&#xA;&#xA;Na noite de Ano Novo de 1966/67 a Polícia de Los Angeles (LAPD) fez uma rusga brutal às festas de Passagem de Ano em dois bares cuir, o Black Cat Tavern e o New Faces. Vários clientes ficaram feridos e um barman foi hospitalizado com uma fratura no crânio.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Manifestação contra a violência policial após a rusga no bar Black Cat Tavern. (Los Angeles Times)&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Algumas horas depois, no dia 1 de janeiro algumas centenas de pessoas manifestaram-se espontaneamente na Sunset Boulevard e fizeram piquetes em frente ao Black Cat Tavern. Esta concentração voltou a repetir-se, desta vez em parceria com a comunidade hippie e outros grupos contracultura, que também eram alvo de perseguições policias.&#xA;&#xA;1968: Drag Queens e Celebração como Protesto&#xA;&#xA;Em 1968, drag queens organizaram uma celebração no Griffith Park, transformando um espaço frequentemente alvo de repressão num local de afirmação e resistência. Este evento destacou a importância da celebração como forma de protesto.&#xA;&#xA;No dia 17 de março de 1968, duas drag queens conhecidas como The Princess e The Duchess organizaram uma festa comemorativa do Dia de São Patrício no Griffith Park, um local popular para encontros e frequentemente alvo de ações policiais. Mais de 200 homens gay juntaram-se e celebraram durante todo o dia.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;No próximo artigo desta série, retomarei os acontecimentos de 1969 em Nova Iorque, no bar Stonewall Inn em Greenwich Village.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Nota Final&#xA;&#xA;Os acontecimentos aqui relatados encontram-se amplamente documentados, nomeadamente no livro Stonewall: The Riots that Sparked the Gay Revolution, de David Carter (2010, 1.ª ed. 2004), que foi a principal fonte para este artigo. A obra de Carter também inspirou o documentário Stonewall Uprising da série American Experience (2010).&#xA;&#xA;Outra fonte fundamental foi a antologia The Stonewall Reader (Penguin Classics, 2019), organizada pela New York Public Library por ocasião dos 50 anos da Revolta de Stonewall.&#xA;&#xA;Consultei também os artigos:&#xA;&#xA;The 1966 &#34;Sip-In&#34; at Julius&#39; Bar&#xA;&#xA;In Memoriam — Farewell Dick Leitsch&#xA;&#xA;e LGBTQ stories: The &#34;Sip-In&#34; paved the way for gay rights&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;#história #eua #homofobia #lgbtq #lgbt #lgbtqia #cuir #kuir #cuirfobia #Caderno1 #desdeasmargens&#xA;&#xA;\[Atualizado em 2025-05-28\]&#xA;&#xA;phr style=&#34;border: none; border-top: 1px solid #ff69b4;&#34;&#xD;&#xA;emPor Orlando Figueiredo, desde as margens./em/pbr---brpQueres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! br&#xD;&#xA;!--emailsub--/p]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<h2 id="raízes-da-revolta-a-luta-pelos-direitos-lgbtqia-antes-de-stonewall" id="raízes-da-revolta-a-luta-pelos-direitos-lgbtqia-antes-de-stonewall"><em>Raízes da revolta – A luta pelos direitos LGBTQIA+ antes de Stonewall</em></h2>

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<h5 id="na-parte-iv-deste-caderno-sobre-stonewall-detalho-eventos-importantes-na-luta-pelos-direitos-lgbtqia-nos-estados-unidos-antes-dos-famosos-motins-de-stonewall-destaca-se-a-primeira-manifestação-conhecida-em-1964-liderada-por-randy-wicker-em-resposta-à-quebra-de-confidencialidade-pelo-exército-estadunidense-que-propositadamente-divulgou-dados-de-homens-gays-que-serviam-na-insituição-em-1965-vários-protestos-ocorreram-incluindo-um-baile-de-máscaras-em-são-francisco-que-resultou-em-confrontos-com-a-polícia-e-os-dewey-s-sit-ins-em-filadélfia-onde-adolescentes-e-ativistas-protestaram-contra-a-discriminação-num-restaurante-em-1966-houve-protestos-contra-a-discriminação-em-bares-e-a-primeira-manifestação-de-orgulho-do-mundo-a-violência-policial-em-los-angeles-em-1966-67-e-a-celebração-do-dia-de-são-patrício-por-drag-queens-em-1968-também-são-mencionadas-o-artigo-encerra-destacando-a-importância-desses-eventos-na-luta-contínua-pelos-direitos-lgbtqia" id="na-parte-iv-deste-caderno-sobre-stonewall-detalho-eventos-importantes-na-luta-pelos-direitos-lgbtqia-nos-estados-unidos-antes-dos-famosos-motins-de-stonewall-destaca-se-a-primeira-manifestação-conhecida-em-1964-liderada-por-randy-wicker-em-resposta-à-quebra-de-confidencialidade-pelo-exército-estadunidense-que-propositadamente-divulgou-dados-de-homens-gays-que-serviam-na-insituição-em-1965-vários-protestos-ocorreram-incluindo-um-baile-de-máscaras-em-são-francisco-que-resultou-em-confrontos-com-a-polícia-e-os-dewey-s-sit-ins-em-filadélfia-onde-adolescentes-e-ativistas-protestaram-contra-a-discriminação-num-restaurante-em-1966-houve-protestos-contra-a-discriminação-em-bares-e-a-primeira-manifestação-de-orgulho-do-mundo-a-violência-policial-em-los-angeles-em-1966-67-e-a-celebração-do-dia-de-são-patrício-por-drag-queens-em-1968-também-são-mencionadas-o-artigo-encerra-destacando-a-importância-desses-eventos-na-luta-contínua-pelos-direitos-lgbtqia">Na parte IV deste caderno sobre Stonewall, detalho eventos importantes na luta pelos direitos LGBTQIA+ nos Estados Unidos antes dos famosos motins de Stonewall. Destaca-se a primeira manifestação conhecida em 1964, liderada por Randy Wicker, em resposta à quebra de confidencialidade pelo exército estadunidense, que propositadamente divulgou dados de homens gays que serviam na insituição. Em 1965, vários protestos ocorreram, incluindo um baile de máscaras em São Francisco que resultou em confrontos com a polícia, e os Dewey&#39;s sit-ins em Filadélfia, onde adolescentes e ativistas protestaram contra a discriminação num restaurante. Em 1966, houve protestos contra a discriminação em bares e a primeira manifestação de orgulho do mundo. A violência policial em Los Angeles em 1966/67 e a celebração do Dia de São Patrício por <em>drag queens</em> em 1968 também são mencionadas. O artigo encerra destacando a importância desses eventos na luta contínua pelos direitos LGBTQIA+.</h5>

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<p><img src="https://i.snap.as/2Xx0nm60.jpg" alt=""/></p>

<h6 id="membros-do-council-of-religion-and-the-homosexual" id="membros-do-council-of-religion-and-the-homosexual">Membros do <em>Council of Religion and the Homosexual</em></h6>

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<h3 id="1964-randy-wicker-e-o-primeiro-protesto" id="1964-randy-wicker-e-o-primeiro-protesto"><em><strong>1964: Randy Wicker e o Primeiro Protesto</strong></em></h3>

<h5 id="em-1964-a-repressão-institucionalizada-ainda-era-a-norma-mas-surgiam-os-primeiros-sinais-de-resistência-organizada-randy-wicker-liderou-uma-manifestação-pioneira-marcando-o-início-de-uma-luta-pública-pelos-direitos-da-comunidade-lgbtqia" id="em-1964-a-repressão-institucionalizada-ainda-era-a-norma-mas-surgiam-os-primeiros-sinais-de-resistência-organizada-randy-wicker-liderou-uma-manifestação-pioneira-marcando-o-início-de-uma-luta-pública-pelos-direitos-da-comunidade-lgbtqia">Em 1964, a repressão institucionalizada ainda era a norma, mas surgiam os primeiros sinais de resistência organizada.Randy Wicker liderou uma manifestação pioneira, marcando o início de uma luta pública pelos direitos da comunidade LGBTQIA+.</h5>

<p><a href="https://www.instagram.com/randolfewicker/">Randy (Randolph) Wicker (1938 — )</a> foi um ativista e autor estadounidense envolvido na defesa dos direitos das pessoas LGBTQIA+ desde meados da década de 1950. Em 1964, Nova Iorque foi palco daquela que é frequentemente referenciada como a 1.ª manifestação pela defesa dos direitos humanos das pessoas cuir e foi Wicker quem esteve na sua origem. A manifestação decorreu no seguimento da quebra de confidencialidade de dados relativos a homens gay por parte de um centro de recrutamento do exército dos EUA.</p>

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<h6 id="https-i-snap-as-vltzswd9-webp-fotografia-do-piquete-em-frente-ao-centro-de-recrutamento-do-exército-dos-eua-considerado-o-primeiro-protesto-público-pelos-direitos-lgbtqia-nos-eua-da-direita-para-a-esquerda-randy-wicker-craig-rodwell-nancy-garden-renee-cafiero-e-jack-dieter-no-protesto-de-19-de-setembro-de-1964-nyc-lgbt-historic-sites-project-https-www-nyclgbtsites-org-site-picket-in-front-of-u-s-army-building-first-ever-u-s-gay-rights-protest" id="https-i-snap-as-vltzswd9-webp-fotografia-do-piquete-em-frente-ao-centro-de-recrutamento-do-exército-dos-eua-considerado-o-primeiro-protesto-público-pelos-direitos-lgbtqia-nos-eua-da-direita-para-a-esquerda-randy-wicker-craig-rodwell-nancy-garden-renee-cafiero-e-jack-dieter-no-protesto-de-19-de-setembro-de-1964-nyc-lgbt-historic-sites-project-https-www-nyclgbtsites-org-site-picket-in-front-of-u-s-army-building-first-ever-u-s-gay-rights-protest"><img src="https://i.snap.as/vltzSwD9.webp" alt=""/>Fotografia do piquete em frente ao centro de recrutamento do Exército dos EUA, considerado o primeiro protesto público pelos direitos LGBTQIA+ nos EUA. Da direita para a esquerda, Randy Wicker, Craig Rodwell, Nancy Garden, Renee Cafiero e Jack Dieter no protesto de 19 de setembro de 1964 (<a href="https://www.nyclgbtsites.org/site/picket-in-front-of-u-s-army-building-first-ever-u-s-gay-rights-protest/">NYC LGBT Historic Sites Project</a>)</h6>

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<p>Nesse mesmo ano, e também em Nova Iorque, quatro membros da comunidade LGBTQIA+ irromperam numa conferência de um psicanalista que defendia que a homossexualidade era uma doença mental.</p>

<h3 id="1965-da-catedral-à-dewey-s-crescem-os-protestos" id="1965-da-catedral-à-dewey-s-crescem-os-protestos"><em><strong>1965: Da Catedral à Dewey&#39;s — Crescem os Protestos</strong></em></h3>

<h5 id="o-ano-de-1965-testemunhou-uma-intensificação-dos-protestos-desde-confrontos-em-eventos-religiosos-até-manifestações-em-espaços-públicos-a-comunidade-lgbtqia-começava-a-articular-se-de-forma-mais-visível-e-determinada" id="o-ano-de-1965-testemunhou-uma-intensificação-dos-protestos-desde-confrontos-em-eventos-religiosos-até-manifestações-em-espaços-públicos-a-comunidade-lgbtqia-começava-a-articular-se-de-forma-mais-visível-e-determinada">O ano de 1965 testemunhou uma intensificação dos protestos, desde confrontos em eventos religiosos até manifestações em espaços públicos. A comunidade LGBTQIA+ começava a articular-se de forma mais visível e determinada.</h5>

<p>Em 1965, surgiram sete ações de protesto. A primeira teve lugar em São Francisco, onde o Council of Religion and the Homosexual, formado por metodistas, luteranos e episcopalianos, organizou um baile de máscaras para angariação de fundos. Os membros do Conselho, como bons cristãos, pediram autorização à polícia, informando-a do local, data e hora do baile. No entanto, no momento do evento, a polícia apareceu para impedir a sua realização e deteve vários dos sacerdotes responsáveis pela organização.</p>

<p>O evento acabou numa luta entre os membros do Conselho e a polícia. No seguimento destas detenções, que não ocorreram sem consequências penais, seguiu-se uma manifestação na catedral, em apoio a um dos reverendos condenados devido ao suporte que este prestava à comunidade cuir.</p>

<p>Meses mais tarde, no início do mês de abril desse mesmo ano de 1965, em Washington DC e em Nova Iorque, houve protestos em frente à Casa Branca e em frente à sede das Nações Unidas, para contestar as políticas homofóbicas de Cuba, que enviava os homossexuais para campos de trabalho, e também pelas políticas discriminatórias dos próprios EUA, consideradas piores do que as de Cuba, da Rússia e de outros países que os EUA desprezavam.</p>

<h3 id="dewey-s-sit-ins-resistência-juvenil-e-organização" id="dewey-s-sit-ins-resistência-juvenil-e-organização"><em><strong>Dewey&#39;s Sit-ins: Resistência Juvenil e Organização</strong></em></h3>

<h5 id="os-protestos-no-restaurante-dewey-s-em-filadélfia-destacaram-a-coragem-dos-jovens-lgbtqia-enfrentando-a-discriminação-organizaram-se-e-resistiram-demonstrando-a-força-e-a-resiliência-da-juventude-queer" id="os-protestos-no-restaurante-dewey-s-em-filadélfia-destacaram-a-coragem-dos-jovens-lgbtqia-enfrentando-a-discriminação-organizaram-se-e-resistiram-demonstrando-a-força-e-a-resiliência-da-juventude-queer">Os protestos no restaurante Dewey&#39;s, em Filadélfia, destacaram a coragem dos jovens LGBTQIA+. Enfrentando a discriminação, organizaram-se e resistiram, demonstrando a força e a resiliência da juventude queer.</h5>

<p>No dia 25 de abril de 1965, os protestos ocorreram em Filadélfia (Pensilvânia) e ficaram conhecidos como os Dewey’s sit-ins, uma cadeia de restaurantes de hambúrgueres localizada na área metropolitana de Filadélfia. O primeiro Dewey&#39;s abriu em meados da década de 1930 em Atlantic City, e a cadeia, originalmente propriedade de Louis Yesner (1894-1979), acabou por crescer para quinze restaurantes. Dois desses locais – um na 208 S. Thirteenth Street e outro na 219 S. Seventeenth Street, em Filadélfia – tornaram-se locais de encontro para pessoas LGBTQIA+ na década de 1960. A manifestação a que aqui nos referimos, teve lugar no Dewey&#39;s da Seventeenth Street. Em resposta à frequência do local por grupo de adolescentes cuir, a gerência do Dewey&#39;s deu instruções ao pessoal para lhes recusar o serviço. Os empregados interpretaram esta instrução de forma generalizada, recusando o serviço a qualquer cliente que parecesse ser gay ou lésbica ou que desafiasse as convenções de género hegemónicas. A 25 de abril de 1965, no Dewey&#39;s da Seventeenth Street, foi recusado o serviço a 150 pessoas, incluindo homossexuais, mulheres masculinizadas, homens efeminados e pessoas que usavam roupas pouco convencionais e outros membros da comunidade cuir.</p>

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<p><img src="https://i.snap.as/HHGBZiCZ.jpg" alt=""/></p>

<h6 id="manifestantes-em-frente-ao-restaurante-dewey-s-protestando-contra-a-discriminação-outhistory-https-chatgpt-com-c-68323ede-6690-800f-bec7-9aeaa70650c7-text-fonte-outhistory" id="manifestantes-em-frente-ao-restaurante-dewey-s-protestando-contra-a-discriminação-outhistory-https-chatgpt-com-c-68323ede-6690-800f-bec7-9aeaa70650c7-text-fonte-outhistory">Manifestantes em frente ao restaurante Dewey’s, protestando contra a discriminação (<a href="https://chatgpt.com/c/68323ede-6690-800f-bec7-9aeaa70650c7#:~:text=Fonte:-,OutHistory">OutHistory</a>).</h6>

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<p>Os adolescentes juntaram forças com a Janus Society, uma organização local de defesa dos direitos da comunidade cuir, para protestar contra esta política. A gestão do restaurante chamou a polícia e três adolescentes e o presidente da Janus Society, Clark Polak, foram detidos e considerados culpados de perturbação da ordem pública. Após as detenções, os ativistas da Janus Society protestaram em frente ao restaurante e distribuíram 1.500 panfletos a denunciar a política discriminatória da gerência. O protesto durou cinco dias e houve novamente conflitos entre os manifestantes e o restaurante, mas desta vez a polícia decidiu não intervir. A 2 de maio de 1965, teve lugar outra manifestação. Embora a polícia estivesse presente, não se realizaram detenções e, subsequentemente, a Dewey&#39;s suspendeu a sua política de recusar o serviço a pessoas que parecessem homossexuais ou melhor, a pessoas LGBTQIA+.</p>

<h3 id="1966-bares-bebidas-e-discriminação" id="1966-bares-bebidas-e-discriminação"><em><strong>1966: Bares, Bebidas e Discriminação</strong></em></h3>

<h5 id="a-discriminação-nos-bares-de-nova-iorque-levou-a-comunidade-a-organizar-protestos-inovadores-como-os-sip-ins-desafiando-as-políticas-que-os-excluíam-dos-espaços-públicos-estas-ações-marcaram-um-novo-capítulo-na-luta-por-direitos-civis" id="a-discriminação-nos-bares-de-nova-iorque-levou-a-comunidade-a-organizar-protestos-inovadores-como-os-sip-ins-desafiando-as-políticas-que-os-excluíam-dos-espaços-públicos-estas-ações-marcaram-um-novo-capítulo-na-luta-por-direitos-civis">A discriminação nos bares de Nova Iorque levou a comunidade a organizar protestos inovadores, como os “sip-ins”, desafiando as políticas que os excluíam dos espaços públicos. Estas ações marcaram um novo capítulo na luta por direitos civis.</h5>

<p>Entretanto, em Nova Iorque, a repressão contra a comunidade cuir ganhava novos contornos. As autoridades, em particular a Autoridade Estatal de Controlo de Bebidas Alcoólicas e o Departamento de Polícia, estavam empenhadas numa cruzada sistemática para fechar bares e espaços de convívio onde se reunissem pessoas não heterossexuais e não cisgénero. A venda de álcool a clientes queer era considerada, na prática, uma violação da “ordem pública”. Bares eram encerrados, licenças retiradas, clientes detidos. Não se tratava apenas de negar o direito a uma bebida, mas de reprimir a própria possibilidade de existência social e comunitária das pessoas LGBTQIA+.</p>

<p>Face a esta hostilidade institucionalizada, um grupo de ativistas da Mattachine Society decidiu, em 1966, transformar o quotidiano em protesto político. Inspirando-se nos “sit-ins” do movimento negro pelos direitos civis — em que jovens afro-americanos ocupavam, pacificamente, restaurantes e balcões segregados no Sul dos EUA —, conceberam uma ação a que chamaram <strong>“sip-in”</strong>: uma ocupação pacífica de bares, mas com copos em vez de pratos, onde o ato de pedir uma bebida se tornava uma declaração de identidade e resistência.</p>

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<p><img src="https://i.snap.as/y4uuQvot.jpg" alt=""/></p>

<h6 id="o-protesto-do-sip-in-no-bar-julius-em-greenwich-village-a-21-de-abril-de-1966-foi-liderado-por-dick-leitsch-olhando-fixamente-para-o-barman-presidente-da-mattachine-society-de-nova-iorque-juntamente-com-três-outros-ativistas-da-organização-da-esquerda-para-a-direita-john-timmins-virado-para-fora-da-câmara-dick-leitsch-craig-rodwell-e-randy-wicker-a-fotografia-capta-o-momento-em-que-o-barman-recusou-servi-los-depois-de-os-quatro-anunciarem-que-eram-homossexuais-foto-de-fred-w-mcdarrah" id="o-protesto-do-sip-in-no-bar-julius-em-greenwich-village-a-21-de-abril-de-1966-foi-liderado-por-dick-leitsch-olhando-fixamente-para-o-barman-presidente-da-mattachine-society-de-nova-iorque-juntamente-com-três-outros-ativistas-da-organização-da-esquerda-para-a-direita-john-timmins-virado-para-fora-da-câmara-dick-leitsch-craig-rodwell-e-randy-wicker-a-fotografia-capta-o-momento-em-que-o-barman-recusou-servi-los-depois-de-os-quatro-anunciarem-que-eram-homossexuais-foto-de-fred-w-mcdarrah">O protesto do “Sip-In” no bar Julius’, em Greenwich Village, a 21 de abril de 1966, foi liderado por Dick Leitsch (olhando fixamente para o barman), presidente da Mattachine Society de Nova Iorque, juntamente com três outros ativistas da organização. Da esquerda para a direita: John Timmins (virado para fora da câmara), Dick Leitsch, Craig Rodwell e Randy Wicker. A fotografia capta o momento em que o barman recusou servi-los, depois de os quatro anunciarem que eram homossexuais. (Foto de Fred W. McDarrah).</h6>

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<p>Dick Leitsch, Craig Rodwell e John Timmons, três ativistas abertamente homossexuais, deram início ao plano: acompanhados por jornalistas, visitaram uma série de bares nova-iorquinos, declararam a sua orientação sexual e pediram para ser servidos. Nos três primeiros estabelecimentos, bastou afirmarem “somos homossexuais” para que lhes recusassem qualquer bebida. No quarto bar, foi-lhes negado todo e qualquer serviço, mesmo antes de formularem o pedido.</p>

<p>Este gesto — simples, quotidiano, quase banal — expôs publicamente o caráter estrutural da discriminação. Os ativistas apresentaram uma queixa à Autoridade Estatal de Controlo de Bebidas Alcoólicas, que se recusou a intervir, legitimando, de facto, a exclusão. Mas a ação teve repercussão mediática suficiente para pressionar a Comissão de Direitos Humanos da cidade de Nova Iorque, que viria a declarar que a recusa de serviço com base na orientação sexual era ilegal e não poderia ser tolerada.</p>

<p>Os “sip-ins” foram um dos primeiros exemplos de protesto queer com impacto institucional tangível. Demonstraram que a luta pelo direito à existência começava em gestos tão básicos como pedir um copo ao balcão. Ao desafiar as normas de respeitabilidade impostas pelo Estado e pela cultura dominante, estas ações colocaram o prazer, a visibilidade e a presença no centro da resistência. Numa época em que sair à rua de mãos dadas ou usar um vestido podia significar uma prisão, ocupar um bar como pessoa assumidamente queer era, sem dúvida, um ato revolucionário.</p>

<h3 id="1966-a-primeira-manifestação-de-orgulho-do-mundo" id="1966-a-primeira-manifestação-de-orgulho-do-mundo"><em>1966: A primeira manifestação de orgulho do mundo</em></h3>

<h5 id="em-1966-diversas-cidades-dos-eua-foram-palco-de-manifestações-simultâneas-protestando-contra-a-exclusão-das-pessoas-lgbtqia-das-forças-armadas-estas-ações-coordenadas-representaram-um-passo-significativo-na-afirmação-pública-da-comunidade" id="em-1966-diversas-cidades-dos-eua-foram-palco-de-manifestações-simultâneas-protestando-contra-a-exclusão-das-pessoas-lgbtqia-das-forças-armadas-estas-ações-coordenadas-representaram-um-passo-significativo-na-afirmação-pública-da-comunidade">Em 1966, diversas cidades dos EUA foram palco de manifestações simultâneas, protestando contra a exclusão das pessoas LGBTQIA+ das Forças Armadas. Estas ações coordenadas representaram um passo significativo na afirmação pública da comunidade.</h5>

<p>Organizada por diversas associações de apoio ao coletivo LGBTQIA+ em diferentes cidades: Nova Iorque, Filadélfia, São Francisco e Washington D.C., no dia 21 de maio de 1966, constituíram-se diversas manifestações simultâneas em todas estas cidades, para protestar contra a exclusão das pessoas cuir das Forças Armadas estado-unidenses. A comunidade cuir aproveitou o dia das Forças Armadas para se mobilizarem. Em Los Angeles organizaram-se numa parada com 15 veículos, enquanto nas outras cidades se marchou a pé. Esta iniciativa partiu da NACHO — North American Conference of Homophile Organizations, fundada em 1966, que surgiu a partir da ECHO — East Coast Homophile Organizations (fundada três anos antes).</p>

<h3 id="1966-67-violência-policial-e-alianças-contraculturais" id="1966-67-violência-policial-e-alianças-contraculturais"><em><strong>1966/67: Violência Policial e Alianças Contraculturais</strong></em></h3>

<h5 id="na-virada-do-ano-a-brutalidade-policial-em-los-angeles-provocou-uma-reação-imediata-da-comunidade-que-se-manifestou-espontaneamente-contra-a-repressão-este-episódio-evidenciou-a-crescente-disposição-para-resistir-abertamente-à-violência-institucional" id="na-virada-do-ano-a-brutalidade-policial-em-los-angeles-provocou-uma-reação-imediata-da-comunidade-que-se-manifestou-espontaneamente-contra-a-repressão-este-episódio-evidenciou-a-crescente-disposição-para-resistir-abertamente-à-violência-institucional">Na virada do ano, a brutalidade policial em Los Angeles provocou uma reação imediata da comunidade, que se manifestou espontaneamente contra a repressão. Este episódio evidenciou a crescente disposição para resistir abertamente à violência institucional.</h5>

<p>Na noite de Ano Novo de 1966/67 a Polícia de Los Angeles (LAPD) fez uma rusga brutal às festas de Passagem de Ano em dois bares cuir, o Black Cat Tavern e o New Faces. Vários clientes ficaram feridos e um barman foi hospitalizado com uma fratura no crânio.</p>

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<p><img src="https://i.snap.as/Ddamv7ge.webp" alt=""/></p>

<h6 id="manifestação-contra-a-violência-policial-após-a-rusga-no-bar-black-cat-tavern-los-angeles-times-https-chatgpt-com-c-68323ede-6690-800f-bec7-9aeaa70650c7-text-fonte-20los-20angeles-times" id="manifestação-contra-a-violência-policial-após-a-rusga-no-bar-black-cat-tavern-los-angeles-times-https-chatgpt-com-c-68323ede-6690-800f-bec7-9aeaa70650c7-text-fonte-20los-20angeles-times">Manifestação contra a violência policial após a rusga no bar Black Cat Tavern. (<a href="https://chatgpt.com/c/68323ede-6690-800f-bec7-9aeaa70650c7#:~:text=Fonte:%20Los%20Angeles-,Times">Los Angeles Times</a>)</h6>

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<p>Algumas horas depois, no dia 1 de janeiro algumas centenas de pessoas manifestaram-se espontaneamente na Sunset Boulevard e fizeram piquetes em frente ao Black Cat Tavern. Esta concentração voltou a repetir-se, desta vez em parceria com a comunidade hippie e outros grupos contracultura, que também eram alvo de perseguições policias.</p>

<h3 id="1968-drag-queens-e-celebração-como-protesto" id="1968-drag-queens-e-celebração-como-protesto"><em><strong>1968: Drag Queens e Celebração como Protesto</strong></em></h3>

<h5 id="em-1968-drag-queens-organizaram-uma-celebração-no-griffith-park-transformando-um-espaço-frequentemente-alvo-de-repressão-num-local-de-afirmação-e-resistência-este-evento-destacou-a-importância-da-celebração-como-forma-de-protesto" id="em-1968-drag-queens-organizaram-uma-celebração-no-griffith-park-transformando-um-espaço-frequentemente-alvo-de-repressão-num-local-de-afirmação-e-resistência-este-evento-destacou-a-importância-da-celebração-como-forma-de-protesto">Em 1968, drag queens organizaram uma celebração no Griffith Park, transformando um espaço frequentemente alvo de repressão num local de afirmação e resistência. Este evento destacou a importância da celebração como forma de protesto.</h5>

<p>No dia 17 de março de 1968, duas drag queens conhecidas como <em>The Princess</em> e <em>The Duchess</em> organizaram uma festa comemorativa do Dia de São Patrício no Griffith Park, um local popular para encontros e frequentemente alvo de ações policiais. Mais de 200 homens gay juntaram-se e celebraram durante todo o dia.</p>

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<p>No próximo artigo desta série, retomarei os acontecimentos de 1969 em Nova Iorque, no bar Stonewall Inn em Greenwich Village.</p>

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<h4 id="nota-final" id="nota-final"><em><strong>Nota Final</strong></em></h4>

<p>Os acontecimentos aqui relatados encontram-se amplamente documentados, nomeadamente no livro <em>Stonewall: The Riots that Sparked the Gay Revolution</em>, de David Carter (2010, 1.ª ed. 2004), que foi a principal fonte para este artigo. A obra de Carter também inspirou o documentário <em>Stonewall Uprising</em> da série American Experience (2010).</p>

<p>Outra fonte fundamental foi a antologia <em>The Stonewall Reader</em> (Penguin Classics, 2019), organizada pela New York Public Library por ocasião dos 50 anos da Revolta de Stonewall.</p>

<p>Consultei também os artigos:</p>
<ul><li><a href="https://www.nps.gov/ston/learn/historyculture/julius.htm">The 1966 “Sip-In” at Julius&#39; Bar</a></li></ul>

<p><a href="https://makinggayhistory.org/podcast/in-memoriam-farewell-dick-leitsch/?utm_source=chatgpt.com">In Memoriam — Farewell Dick Leitsch</a></p>

<p>e <a href="https://www.wshu.org/2022-02-04/lgbtq-stories-the-sip-in-paved-the-way-for-gay-rights">LGBTQ stories: The “Sip-In” paved the way for gay rights</a></p>

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<p><a href="https://kuircuir.pt/tag:hist%C3%B3ria"><a href="https://kuircuir.pt/tag:hist%C3%B3ria" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">história</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:eua"><a href="https://kuircuir.pt/tag:eua" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">eua</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:homofobia"><a href="https://kuircuir.pt/tag:homofobia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">homofobia</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtq"><a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtq" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lgbtq</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbt"><a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbt" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lgbt</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtqia"><a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtqia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lgbtqia</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:cuir"><a href="https://kuircuir.pt/tag:cuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">cuir</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:kuir"><a href="https://kuircuir.pt/tag:kuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">kuir</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:cuirfobia"><a href="https://kuircuir.pt/tag:cuirfobia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">cuirfobia</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:Caderno1"><a href="https://kuircuir.pt/tag:Caderno1" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">Caderno1</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:desdeasmargens" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">desdeasmargens</span></a></p>

<h6 id="atualizado-em-2025-05-28" id="atualizado-em-2025-05-28">[Atualizado em 2025-05-28]</h6>

<p><hr style="border: none; border-top: 1px solid #ff69b4;">
<em>Por Orlando Figueiredo, desde as margens.</em></p><br>---<br><p>Queres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! <br>
</p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://kuircuir.pt/parte-iv-antes-de-stonewall-protestos-prisoes-e-resistencia-1964-1968</guid>
      <pubDate>Sat, 24 May 2025 23:09:15 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Do pós-guerra a Stonewall – Parte III: Antes de Stonewall: Ecos de Rebelião Cuir em Nova Iorque e Los Angeles</title>
      <link>https://kuircuir.pt/do-pos-guerra-a-stonewall-parte-iii-antes-de-stonewall-ecos-de-rebeliao?pk_campaign=rss-feed</link>
      <description>&lt;![CDATA[Como duas noites de revolta prepararam o caminho para o nascimento do orgulho LGBTQIA+&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Neste terceiro artigo, da série Do pós-guerra a Stonewall, abordo dois dos mais importantes motins que antecederam a revolta de Stonewall Inn, no ano de 1969, em Nova Iorque. São duas as revoltas que tiveram lugar em cafetarias frequentadas por pessoas LGBTQIA+. A primeira, a revolta de Cooper Do-nuts, aconteceu em maio de 1959, no centro de Los Angeles, Califórnia e foi uma das primeiras revoltas conhecidas lideradas por pessoas LGBTQIA+ contra a opressão policial. A segunda, a revolta de Gene Compton&#39;s Cafeteria, aconteceu em agosto de 1966 no bairro de Tenderloin, em São Francisco, Califórnia. Antes, porém, irei apresentar uma breve síntese do contexto socio-político, que envolveu a implementção de um conjunto de medidas repressivas e discriminatórias das pessoas LGBTQIA+, dos EUA, que esteve na origem destas e doutras revoltas.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Os motins cuir de Cooper Do-nuts, em Los Angeles, deram o mote à revolta LGBTQIA+ 10 anos antes de Stonewall&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;Antes de Stonewall: As Primeiras Centelhas da Rebelião Cuir&#xA;&#xA;Antes do clamor de Stonewall, outros protestos surgiram nas sombras, mostrando que a luta cuir já fervilhava nos Estados Unidos. Conhecer estas rebeliões é perceber que o orgulho nasceu muito antes de ganhar nome e data.&#xA;&#xA;Durante os anos 50 e 60, o FBI e os departamentos e agências das policias de estado dos EUA elaboraram bases de dados de pessoas homossexuais. Os registos incluíam os nomes destas pessoas, sua residencia , locais que frequentavam, amizades e outros dados sobre a sua vida privada que fossem arbitrariamente considerados relevantes. Os serviços postais dos EUA mantinham uma base de dados com os endereços para onde era enviada correspondência relacionada com a homossexualidade. Como já foi referido em artigos anteriores, os governos estaduais e as autoridades locais não só colaboraram, como implementaram medidas persecutórias das pessoas LGBTQIA+ agravando e normalizando a violação dos seus direitos fundamentais.&#xA;&#xA;Ainda no mesmo contexto persecutório, foi proibida a venda de bebidas alcoólicas a pessoas cuir. Os bares gay que infringiam essa norma, porque serviam homossexuais, perdiam a licença, eram encerrados e os clientes presos e expostos publicamente pela imprensa – novos coming outs forçados, novas vidas destruídas. Fizeram-se campanhas, orquestradas pelas autoridades locais e estaduais, que visavam limpar os lendários bares, praias e parques dos homossexuais. Proibiu-se o uso de roupas que se consideravam ser do género oposto ao que era atribuído à pessoa na sua identificação legal – a lei obrigava ao uso de pelo menos três peças de roupa adequadas ao género descrito na sua identificação – ridículo...&#xA;&#xA;Nas universidades, professores suspeitos de serem homossexuais eram expulsos. Milhares de gays, lésbicas e pessoas transgénero foram publicamente humilhadas, acossadas, despedidas, encarceradas ou internadas em hospitais psiquiátricos. Às pessoas LGBTQIA+ não lhes restava outra opção senão a de levarem uma vida dupla, em que as suas vidas privadas tinham de ser vividas na clandestinidade, longe dos olhares e do conhecimento público e das suas vidas profissionais.&#xA;&#xA;Os Bares - Portas Fechadas, Mundos Abertos&#xA;&#xA;Em plena repressão, os bares LGBTQIA+ tornaram-se mais do que simples locais de convívio: eram refúgios, pontos de encontro e trincheiras de resistência. Neles, vidas cruzavam-se entre olhares cúmplices e estratégias de sobrevivência, construindo comunidade mesmo sob ameaça constante.&#xA;&#xA;As grandes cidades, como afirma Didier Eribon no seu livro Réflexions sur la question gay (1999), são desde sempre o habitat natural das pessoas LGBTQIA+. O anonimato e a aglomeração de uma população que foge dos meios pequenos onde, não só é difícil encontrar outras pessoas LGBTQIA+, mas também a discriminação e a ostracização se fazem sentir com mais intensidade, traz os homossexuais para os centros urbanos. E os anos 50 e 60 do século XX, com todas as dificuldades que colocaram às pessoas cuir, não foram exceção. Na época, mesmo nas grandes cidades, a população LGBTQIA+ não tinha outra opção se não a de se reunir em certos bairros urbanos, tidos por serem mais ou menos seguros.&#xA;&#xA;Em Nova Iorque a concentração de pessoas LGBTQIA+ fez-se no bairro de Greenwich Village. Tal aglomeração deu origem a uma revolução cultural a que não foi estranho o movimento Beatnik. Apesar de, em Nova Iorquem, haver uma grande população LGBTQIA+, não existiam muitos lugares, para além dos bares, onde a comunidade se pudesse reunir abertamente sem ser acossada, molestada ou mesmo presa pelas autoridades. No início dos anos 60 está em pleno apogeu uma campanha para “limpar” a cidade de Nova Iorque de bares gay. A pressão dos governos estadual e local causou grande pressão sobre os bares, que eram, na sua maioria, ilegais. Nenhum dos bares frequentados pela comunidade cuir de Greenwich Village (ou da cidade de Nova Iorque) eram propriedade de elementos da comunidade. Quase todos estavam na posse da máfia italiana que, obviamente, maltratava e menosprezava os seus clientes habituais, adulterando as bebidas e cobrando preços exorbitantes por estas. Além disso, os acordos ilegais com a polícia, que visavam evitar buscas demasiado frequentes, eram a regra. Ainda assim, e no que diz respeito aos clientes LGBTQIA+, a polícia fazia o que lhe apetecia. Um destes bares era o Stonewall Inn, localizado entre os números 51 e 53 da Christopher street. Tal como muitos outros estabelecimentos da cidade, o Stonewall Inn era propriedade da máfia genovesa. Em novembro de 1966 três membros desta família mafiosa investiram 3.000 dólares para converter Stonewall Inn num bar frequentado por travestis, homossexuais e pessoas transgénero. Desta forma asseguravam que os clientes, eles próprios discriminados e perseguidos pela polícia, não iriam denunciar as deploráveis condições do local.&#xA;&#xA;Apesar dos subornos, a polícia tinha de manter as aparências e as rusgas a estes bares eram frequentes. Ocorriam, quase sempre, uma vez por mês em cada bar. Porém, os bares estavam preparados para qualquer contingência. As bebidas podiam ser armazenadas em compartimentos secretos ou em veículos estacionados à sua porta. Assim, mesmo depois de um possível arresto do álcool, o negócio poderia prosseguir depois da rusga. Os subornos não visavam evitar as rusgas, mas implesmente proteger os interesses dos donos dos bares. As rusgas mantinham-se, por interesse da polícia em manter as aparências. Os donos e gerentes dos bares eram alertados com antecedência do dia e hora em que a rusga ao seu bar iria acontecer. Estas ocorriam suficientemente cedo para que o negócio não fosse significativamente prejudicado e pudesse prosseguir pela noite dentro. Desta forma, os interesses dos donos dos bares e da polícia eram garantidos à custa da violação dos direitos das pessoas cuir que os frequentavem. Numa rusga típica, acendiam-se as luzes dos bares. Os clientes, na sua grande maioria já familiarizados com o procedimento, colocavam-se em fila e os seus documentos de identidade eram revistos pela polícia. Aqueles que não tinham documentos de identidade ou trajavam roupas tidas por serem do género oposto, eram presos. Os outros eram deixados em liberdade. Alguns dos homossexuais, travestis e pessoas transgénero, usavam os seus cartões de militares como documentos de identificação, o que era sempre uma surpesa para a polícia. As mulheres transgénero, que não usassem, no mínimo, três peças de roupa masculina, eram presas. Ainda que com menos frequência, a polícia também procedia à detenção dos funcionários e gerentes dos bares.&#xA;&#xA;Durante as semanas que antecederam o motim de Stonewall, no sábado 28 de junho de 1969, a polícia havia efetuado rusgas frequentes nos bares da zona. Stonewall Inn tinha sido sujeito a uma rusga na terça-feira anterior ao dia da revolta e dois outros clubes de Greenwich Village tinham sido encerrados pelas autoridades. Ainda que o motim de Stonewall, seja frequentemente tido como o início do movimento de libertação gay/LGBTQIA+/cuir moderno, houve várias outras manifestações de resistência civil que tiveram lugar antes dessa data.&#xA;&#xA;Cooper Do-nuts: Quando a Margem Se Revolta \[1\]&#xA;&#xA;Foi no modesto restaurante Cooper Do-nuts, em Los Angeles, que uma inesperada rebelião juntou pessoas cuir contra a violência policial. Este episódio quase esquecido marca uma das primeiras respostas públicas à repressão, antecipando futuras lutas.&#xA;&#xA;O Cooper Do-nuts era um café da Main Street, no bairro de Skid Rowm, no centro de Los Angeles. Aberto 24 horas, o estabelecimento comercial encontrava-se entre dois bares cuir, o Harod’s e o Waldorf. A sua clientela incluia uma larga quota de pessoas LGBTQIA+, em particular gays e pessoas transgénero que frequentavam os bares vizinhos. De um modo geral, as pessoas cuir eram bem-vindas ao estabelecimento comercial.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Pessoas cuir na CooperDonuts, Los Angeles&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Tal como já foi referido, nessa época, a lei obrigava a que as pessoas usassem, no mínimo, três peças de roupa tidas por serem adequadas ao género afixado nos seus documentos de identificação. Numa noite de maio de 1959, dez anos antes da revolta de Stonewall, dois policiais entraram no café e pediram a identificação de vários clientes emtre os quais se encontravam mulheres trans que violavam os requisitos legais relativos à vestimenta. Esta era uma forma comum de atuação de polícia na época. Os policiais tentaram prender duas Drag Queens, dois trabalhadores do sexo e um homossexual masculino. Uma das pessoas feita prisioneira, protestou, veementemente, pela falta de espaço no carro da polícia. As pessoas à volta, cansadas da perseguição e da discriminação, começaram a atacar a polícia com o que tinham à mão. Lixo, chávenas, café e até donuts foram arremessados à polícia que acabou por se pôr em fuga sem prender uma única pessoa.&#xA;&#xA;A oportunidade foi aproveitada e os protestos nas ruas de Los Angeles ganharam momento. Rapidamente a resposta violenta e selvagem da polícia se fez sentir. As ruas foram bloqueadas durante toda a noite e várias pessoas foram presas.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Imagem de um Cooper Do-nuts Cafe em LA que se pensa ser aquele onde começou a primeira revolta LGBTQIA+ dos EUA. A fotografia é retirada do filme &#34;The Exiles&#34; de Kent Mackenzie de 1961.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Entre as pessoas que se encontravam na cafetaria Cooper Do-nuts na noite dos acontecimentos, conta-se o escritor e romancista americano, de origem mexicana, John Rechy. No seu romance, City of Night, publicado em 1963, Rechy descreve o ambiente que se vivia na noite de LA na época dos acontecimentos.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Os motins LGBTQIA+ de Cooper Donuts, Los Angeles, 1959&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Compton’s Cafeteria: Noite de Insurreição Trans\[2\]&#xA;&#xA;Na Compton’s Cafeteria, em São Francisco, um grupo de pessoas trans e queer ergueu-se contra anos de humilhação e violência policial. Esta noite de revolta, pouco lembrada, foi pioneira na luta pela dignidade e respeito.&#xA;&#xA;Tida como a primeira revolta de pessoas transgénero que teve lugar nos EUA, o motim da Compton’s Cafeteria ocorre numa noite quente de agosto de 1966, três anos antes dos acontecimentos de Stonewall, no bairro de Tenderloin, em São Francisco.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Cafetaria Compton na década de 1960.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;A Compton&#39;s Cafeteria estava aberta e servia a sua clientela habitual que, entre outros, incluía trabalhadores do sexo e pessoas transgénero. Esta lugar era um dos poucos onde as pessoas trans se podiam reunir com alguma tranquilidade, dado que estas não era bem-vindas a bares gay frequentados por pessoas cisgénero. Na época, o travestismo era ilegal e a polícia usava as pessoas trans como pretexto para rusgas em bares gay, o que, frequentemente, culminava com o encerramento do local.&#xA;&#xA;Nos meses que antecederam o motim, uma associação de defesa dos direitos LGBTQIA+, a Vanguard, começou a reunir na cafetaria de Gene Compton. O gerente queixava-se que eles passavam demasiado tempo sentados nas mesas e consumiam muito pouco, o que prejudicava o negócio. Na noite do motim, o gerente da cafetaria, aborrecido com algum barulho proveniente de uma mesa onde se encontravam pessoas transgénero, chamou a polícia. As forças policiais brindavam, frequentemente, as pessoas transgénero com maus-tratos e abusos, e essa noite não foi exceção. Quando um polícia mal-humorado tentou prender uma das pessoas trans sentada na mesa, esta pegou na chávena de café e arremessou o seu conteúdo à cara do polícia. Estava dado o mote e iniciada a revolta. À polícia foram arremessados todos os objetos que estavam à mão: cadeiras, mesas, chávenas, pratos, açucareiros... os vidros das janelas foram estilhaçados e a confusão foi geral. A polícia viu-se obrigada a pedir reforços e o motim passou para a rua. Transeuntes LGBTQIA+ e aliados juntaram-se ao motim, e várias viaturas policiais ficaram com os vidros partidos.&#xA;&#xA;No dia seguinte a gestão da cafetaria não deixou que pessoas transgénero frequentassem o lugar, mas isso não foi impedimento para as manifestações de desagrado. O ajuntamento fez-se na rua, em frente à cafetaria, e os protestos prosseguiram.&#xA;&#xA;Depois do motim da Compton’s Cafeteria surgiu uma rede de apoio social, psicológico e médico a pessoas trans que culminou, em 1968, com o nascimento da National Transsexual Counseling Unit (NTCU), a primeira organização de apoio e defesa dos direitos humanos de pessoas transgénero em todo o mundo.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Durante os motins de 1966, em Los Angeles.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Em janeiro de 2006 foi colocada uma placa comemorativa a assinalar o 40.º aniversário do motim.&#xA;&#xA;Nesse San Diego junta-se a São Francisco e ao condado de Santa Clara, no Silicon VaLley, na declaração de Agosto como Mês da História Transgénero.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Placa comemorativa dos 40 anos dos motins a Cafetaria Compton.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;\[1\] Os episódios que acabámos de apresentar são apenas dois exemplos de motins que antecederam e pavimentaram o caminho para Stonewall. Porém, existem mais de 20 casos de motins e revoltas registados que vão desde Nova Iorque a Filadélfia, de Chicago a São Francisco, de Los Angeles a Washington D.C. O cansaço das pessoas LGBTQIA+ em função da discriminação, segregação e humilhação a que estavam sujeitas foram o mote para que estes episódios se espalhassem um pouco por todos os E.U.A. e as pessoas cuir se associassem para defender os seus direitos. No próximo artigo irei abordar, ainda que sumariamente, algins dos mais de 20 motins ocorridos antes da revolta de Stonewall Inn. Mantenham-se atentes.&#xA;&#xA;\2\] Os acontecimentos que alegadamente ocorreram na cidade de LA em maio de 1959 estão documentados por Lillian Faderman e Stuart Timmons na Introdução do livro [Gay L.A.: A History of Sexual Outlaws, Power Politics, and Lipstick Lesbians, publicada em 2009 pela University of California Press. No entanto, a veracidade desta história foi questionada pelo blogger Nathan Marsak, residente em L.A., em cinco artigos publicados no seu blog com o cabeçalho We Need to Talk About Cooper Do-Nuts - Part I, Part II, Part III, Part IV e Part V._&#xA;&#xA;O documentário Screaming Queens: The Riot at Compton&#39;s Cafeteria (2005) traça um retrato fiel e pertinente da revolta LGBTQIA+ ocorrida em agosto de 1966 na Gene Compton’s Cafeteria. Algumas filmagens da época apresentadas no documentário apresentam linguagem homofóbica e transfóbica, nomeadamente em notícias sobre as pessoas que frequentavam Tenderloin na época.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;#história #eua #homofobia #lgbtq #lgbt #lgbtqia #livros #cuir #kuir #cuirfobia #Caderno1 #desdeasmargens&#xA;&#xA;\[Atualizado em 2025-05-28\]&#xA;&#xA;phr style=&#34;border: none; border-top: 1px solid #ff69b4;&#34;&#xD;&#xA;emPor Orlando Figueiredo, desde as margens./em/pbr---brpQueres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? 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      <content:encoded><![CDATA[<h2 id="como-duas-noites-de-revolta-prepararam-o-caminho-para-o-nascimento-do-orgulho-lgbtqia" id="como-duas-noites-de-revolta-prepararam-o-caminho-para-o-nascimento-do-orgulho-lgbtqia"><em>Como duas noites de revolta prepararam o caminho para o nascimento do orgulho LGBTQIA+</em></h2>

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<h5 id="neste-terceiro-artigo-da-série-do-pós-guerra-a-stonewall-abordo-dois-dos-mais-importantes-motins-que-antecederam-a-revolta-de-stonewall-inn-no-ano-de-1969-em-nova-iorque-são-duas-as-revoltas-que-tiveram-lugar-em-cafetarias-frequentadas-por-pessoas-lgbtqia-a-primeira-a-revolta-de-cooper-do-nuts-aconteceu-em-maio-de-1959-no-centro-de-los-angeles-califórnia-e-foi-uma-das-primeiras-revoltas-conhecidas-lideradas-por-pessoas-lgbtqia-contra-a-opressão-policial-a-segunda-a-revolta-de-gene-compton-s-cafeteria-aconteceu-em-agosto-de-1966-no-bairro-de-tenderloin-em-são-francisco-califórnia-antes-porém-irei-apresentar-uma-breve-síntese-do-contexto-socio-político-que-envolveu-a-implementção-de-um-conjunto-de-medidas-repressivas-e-discriminatórias-das-pessoas-lgbtqia-dos-eua-que-esteve-na-origem-destas-e-doutras-revoltas" id="neste-terceiro-artigo-da-série-do-pós-guerra-a-stonewall-abordo-dois-dos-mais-importantes-motins-que-antecederam-a-revolta-de-stonewall-inn-no-ano-de-1969-em-nova-iorque-são-duas-as-revoltas-que-tiveram-lugar-em-cafetarias-frequentadas-por-pessoas-lgbtqia-a-primeira-a-revolta-de-cooper-do-nuts-aconteceu-em-maio-de-1959-no-centro-de-los-angeles-califórnia-e-foi-uma-das-primeiras-revoltas-conhecidas-lideradas-por-pessoas-lgbtqia-contra-a-opressão-policial-a-segunda-a-revolta-de-gene-compton-s-cafeteria-aconteceu-em-agosto-de-1966-no-bairro-de-tenderloin-em-são-francisco-califórnia-antes-porém-irei-apresentar-uma-breve-síntese-do-contexto-socio-político-que-envolveu-a-implementção-de-um-conjunto-de-medidas-repressivas-e-discriminatórias-das-pessoas-lgbtqia-dos-eua-que-esteve-na-origem-destas-e-doutras-revoltas">Neste terceiro artigo, da série <strong>Do pós-guerra a Stonewall</strong>, abordo dois dos mais importantes motins que antecederam a revolta de Stonewall Inn, no ano de 1969, em Nova Iorque. São duas as revoltas que tiveram lugar em cafetarias frequentadas por pessoas LGBTQIA+. A primeira, a revolta de <em>Cooper Do-nuts</em>, aconteceu em maio de 1959, no centro de Los Angeles, Califórnia e foi uma das primeiras revoltas conhecidas lideradas por pessoas LGBTQIA+ contra a opressão policial. A segunda, a revolta de <em>Gene Compton&#39;s Cafeteria</em>, aconteceu em agosto de 1966 no bairro de Tenderloin, em São Francisco, Califórnia. Antes, porém, irei apresentar uma breve síntese do contexto socio-político, que envolveu a implementção de um conjunto de medidas repressivas e discriminatórias das pessoas LGBTQIA+, dos EUA, que esteve na origem destas e doutras revoltas.</h5>

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<p><img src="https://i.snap.as/CznTuuxk.jpg" alt=""/></p>

<h6 id="os-motins-cuir-de-cooper-do-nuts-em-los-angeles-deram-o-mote-à-revolta-lgbtqia-10-anos-antes-de-stonewall" id="os-motins-cuir-de-cooper-do-nuts-em-los-angeles-deram-o-mote-à-revolta-lgbtqia-10-anos-antes-de-stonewall">Os motins cuir de Cooper Do-nuts, em Los Angeles, deram o mote à revolta LGBTQIA+ 10 anos antes de Stonewall</h6>

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<h3 id="antes-de-stonewall-as-primeiras-centelhas-da-rebelião-cuir" id="antes-de-stonewall-as-primeiras-centelhas-da-rebelião-cuir"><strong>Antes de Stonewall: As Primeiras Centelhas da Rebelião Cuir</strong></h3>

<h5 id="antes-do-clamor-de-stonewall-outros-protestos-surgiram-nas-sombras-mostrando-que-a-luta-cuir-já-fervilhava-nos-estados-unidos-conhecer-estas-rebeliões-é-perceber-que-o-orgulho-nasceu-muito-antes-de-ganhar-nome-e-data" id="antes-do-clamor-de-stonewall-outros-protestos-surgiram-nas-sombras-mostrando-que-a-luta-cuir-já-fervilhava-nos-estados-unidos-conhecer-estas-rebeliões-é-perceber-que-o-orgulho-nasceu-muito-antes-de-ganhar-nome-e-data">Antes do clamor de Stonewall, outros protestos surgiram nas sombras, mostrando que a luta cuir já fervilhava nos Estados Unidos. Conhecer estas rebeliões é perceber que o orgulho nasceu muito antes de ganhar nome e data.</h5>

<p>Durante os anos 50 e 60, o FBI e os departamentos e agências das policias de estado dos EUA elaboraram bases de dados de pessoas homossexuais. Os registos incluíam os nomes destas pessoas, sua residencia , locais que frequentavam, amizades e outros dados sobre a sua vida privada que fossem arbitrariamente considerados relevantes. Os serviços postais dos EUA mantinham uma base de dados com os endereços para onde era enviada correspondência relacionada com a homossexualidade. Como já foi referido em artigos anteriores, os governos estaduais e as autoridades locais não só colaboraram, como implementaram medidas persecutórias das pessoas LGBTQIA+ agravando e normalizando a violação dos seus direitos fundamentais.</p>

<p>Ainda no mesmo contexto persecutório, foi proibida a venda de bebidas alcoólicas a pessoas cuir. Os bares gay que infringiam essa norma, porque serviam homossexuais, perdiam a licença, eram encerrados e os clientes presos e expostos publicamente pela imprensa – novos <em>coming outs</em> forçados, novas vidas destruídas. Fizeram-se campanhas, orquestradas pelas autoridades locais e estaduais, que visavam <em>limpar</em> os lendários bares, praias e parques dos homossexuais. Proibiu-se o uso de roupas que se consideravam ser do género oposto ao que era atribuído à pessoa na sua identificação legal – a lei obrigava ao uso de pelo menos três peças de roupa adequadas ao género descrito na sua identificação – ridículo...</p>

<p>Nas universidades, professores suspeitos de serem homossexuais eram expulsos. Milhares de gays, lésbicas e pessoas transgénero foram publicamente humilhadas, acossadas, despedidas, encarceradas ou internadas em hospitais psiquiátricos. Às pessoas LGBTQIA+ não lhes restava outra opção senão a de levarem uma vida dupla, em que as suas vidas privadas tinham de ser vividas na clandestinidade, longe dos olhares e do conhecimento público e das suas vidas profissionais.</p>

<h3 id="os-bares-portas-fechadas-mundos-abertos" id="os-bares-portas-fechadas-mundos-abertos"><strong>Os Bares -</strong> Portas Fechadas, Mundos Abertos</h3>

<h5 id="em-plena-repressão-os-bares-lgbtqia-tornaram-se-mais-do-que-simples-locais-de-convívio-eram-refúgios-pontos-de-encontro-e-trincheiras-de-resistência-neles-vidas-cruzavam-se-entre-olhares-cúmplices-e-estratégias-de-sobrevivência-construindo-comunidade-mesmo-sob-ameaça-constante" id="em-plena-repressão-os-bares-lgbtqia-tornaram-se-mais-do-que-simples-locais-de-convívio-eram-refúgios-pontos-de-encontro-e-trincheiras-de-resistência-neles-vidas-cruzavam-se-entre-olhares-cúmplices-e-estratégias-de-sobrevivência-construindo-comunidade-mesmo-sob-ameaça-constante">Em plena repressão, os bares LGBTQIA+ tornaram-se mais do que simples locais de convívio: eram refúgios, pontos de encontro e trincheiras de resistência. Neles, vidas cruzavam-se entre olhares cúmplices e estratégias de sobrevivência, construindo comunidade mesmo sob ameaça constante.</h5>

<p>As grandes cidades, como afirma Didier Eribon no seu livro <em>Réflexions sur la question gay</em> (1999), são desde sempre o habitat natural das pessoas LGBTQIA+. O anonimato e a aglomeração de uma população que foge dos meios pequenos onde, não só é difícil encontrar outras pessoas LGBTQIA+, mas também a discriminação e a ostracização se fazem sentir com mais intensidade, traz os homossexuais para os centros urbanos. E os anos 50 e 60 do século XX, com todas as dificuldades que colocaram às pessoas cuir, não foram exceção. Na época, mesmo nas grandes cidades, a população LGBTQIA+ não tinha outra opção se não a de se reunir em certos bairros urbanos, tidos por serem <strong>mais ou menos</strong> seguros.</p>

<p>Em Nova Iorque a concentração de pessoas LGBTQIA+ fez-se no bairro de Greenwich Village. Tal aglomeração deu origem a uma revolução cultural a que não foi estranho o movimento Beatnik. Apesar de, em Nova Iorquem, haver uma grande população LGBTQIA+, não existiam muitos lugares, para além dos bares, onde a comunidade se pudesse reunir abertamente sem ser acossada, molestada ou mesmo presa pelas autoridades. No início dos anos 60 está em pleno apogeu uma campanha para “limpar” a cidade de Nova Iorque de bares gay. A pressão dos governos estadual e local causou grande pressão sobre os bares, que eram, na sua maioria, ilegais. Nenhum dos bares frequentados pela comunidade cuir de Greenwich Village (ou da cidade de Nova Iorque) eram propriedade de elementos da comunidade. Quase todos estavam na posse da máfia italiana que, obviamente, maltratava e menosprezava os seus clientes habituais, adulterando as bebidas e cobrando preços exorbitantes por estas. Além disso, os acordos ilegais com a polícia, que visavam evitar buscas demasiado frequentes, eram a regra. Ainda assim, e no que diz respeito aos clientes LGBTQIA+, a polícia fazia o que lhe apetecia. Um destes bares era o Stonewall Inn, localizado entre os números 51 e 53 da Christopher street. Tal como muitos outros estabelecimentos da cidade, o Stonewall Inn era propriedade da máfia genovesa. Em novembro de 1966 três membros desta família mafiosa investiram 3.000 dólares para converter Stonewall Inn num bar frequentado por travestis, homossexuais e pessoas transgénero. Desta forma asseguravam que os clientes, eles próprios discriminados e perseguidos pela polícia, não iriam denunciar as deploráveis condições do local.</p>

<p>Apesar dos subornos, a polícia tinha de manter as aparências e as rusgas a estes bares eram frequentes. Ocorriam, quase sempre, uma vez por mês em cada bar. Porém, os bares estavam preparados para qualquer contingência. As bebidas podiam ser armazenadas em compartimentos secretos ou em veículos estacionados à sua porta. Assim, mesmo depois de um possível arresto do álcool, o negócio poderia prosseguir depois da rusga. Os subornos não visavam evitar as rusgas, mas implesmente proteger os interesses dos donos dos bares. As rusgas mantinham-se, por interesse da polícia em manter as aparências. Os donos e gerentes dos bares eram alertados com antecedência do dia e hora em que a rusga ao seu bar iria acontecer. Estas ocorriam suficientemente cedo para que o negócio não fosse significativamente prejudicado e pudesse prosseguir pela noite dentro. Desta forma, os interesses dos donos dos bares e da polícia eram garantidos à custa da violação dos direitos das pessoas cuir que os frequentavem. Numa rusga típica, acendiam-se as luzes dos bares. Os clientes, na sua grande maioria já familiarizados com o procedimento, colocavam-se em fila e os seus documentos de identidade eram revistos pela polícia. Aqueles que não tinham documentos de identidade ou trajavam roupas tidas por serem do género oposto, eram presos. Os outros eram deixados em liberdade. Alguns dos homossexuais, travestis e pessoas transgénero, usavam os seus cartões de militares como documentos de identificação, o que era sempre uma surpesa para a polícia. As mulheres transgénero, que não usassem, no mínimo, três peças de roupa masculina, eram presas. Ainda que com menos frequência, a polícia também procedia à detenção dos funcionários e gerentes dos bares.</p>

<p>Durante as semanas que antecederam o <strong>motim de Stonewall, no sábado 28 de junho de 1969</strong>, a polícia havia efetuado rusgas frequentes nos bares da zona. Stonewall Inn tinha sido sujeito a uma rusga na terça-feira anterior ao dia da revolta e dois outros clubes de Greenwich Village tinham sido encerrados pelas autoridades. Ainda que o motim de Stonewall, seja frequentemente tido como o início do movimento de libertação gay/LGBTQIA+/cuir moderno, houve várias outras manifestações de resistência civil que tiveram lugar antes dessa data.</p>

<h3 id="cooper-do-nuts-quando-a-margem-se-revolta-1" id="cooper-do-nuts-quando-a-margem-se-revolta-1">Cooper Do-nuts: Quando a Margem Se Revolta [1]</h3>

<p>Foi no modesto restaurante Cooper Do-nuts, em Los Angeles, que uma inesperada rebelião juntou pessoas cuir contra a violência policial. Este episódio quase esquecido marca uma das primeiras respostas públicas à repressão, antecipando futuras lutas.</p>

<p>O <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Cooper_Do-nuts_Riot">Cooper Do-nuts</a> era um café da Main Street, no bairro de Skid Rowm, no centro de Los Angeles. Aberto 24 horas, o estabelecimento comercial encontrava-se entre dois bares cuir, o Harod’s e o Waldorf. A sua clientela incluia uma larga quota de pessoas LGBTQIA+, em particular gays e pessoas transgénero que frequentavam os bares vizinhos. De um modo geral, as pessoas cuir eram bem-vindas ao estabelecimento comercial.</p>

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<p><img src="https://i.snap.as/MPVyyEtL.jpeg" alt=""/></p>

<h6 id="pessoas-cuir-na-cooperdonuts-los-angeles" id="pessoas-cuir-na-cooperdonuts-los-angeles">Pessoas cuir na CooperDonuts, Los Angeles</h6>

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<p>Tal como já foi referido, nessa época, a lei obrigava a que as pessoas usassem, no mínimo, três peças de roupa tidas por serem adequadas ao género afixado nos seus documentos de identificação. Numa noite de maio de 1959, dez anos antes da revolta de Stonewall, dois policiais entraram no café e pediram a identificação de vários clientes emtre os quais se encontravam mulheres trans que violavam os requisitos legais relativos à vestimenta. Esta era uma forma comum de atuação de polícia na época. Os policiais tentaram prender duas Drag Queens, dois trabalhadores do sexo e um homossexual masculino. Uma das pessoas feita prisioneira, protestou, veementemente, pela falta de espaço no carro da polícia. As pessoas à volta, cansadas da perseguição e da discriminação, começaram a atacar a polícia com o que tinham à mão. Lixo, chávenas, café e até donuts foram arremessados à polícia que acabou por se pôr em fuga sem prender uma única pessoa.</p>

<p>A oportunidade foi aproveitada e os protestos nas ruas de Los Angeles ganharam momento. Rapidamente a resposta violenta e selvagem da polícia se fez sentir. As ruas foram bloqueadas durante toda a noite e várias pessoas foram presas.</p>

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<p><img src="https://i.snap.as/PIvA5BGr.jpeg" alt=""/></p>

<h6 id="imagem-de-um-cooper-do-nuts-cafe-em-la-que-se-pensa-ser-aquele-onde-começou-a-primeira-revolta-lgbtqia-dos-eua-a-fotografia-é-retirada-do-filme-the-exiles-de-kent-mackenzie-de-1961" id="imagem-de-um-cooper-do-nuts-cafe-em-la-que-se-pensa-ser-aquele-onde-começou-a-primeira-revolta-lgbtqia-dos-eua-a-fotografia-é-retirada-do-filme-the-exiles-de-kent-mackenzie-de-1961">Imagem de um Cooper Do-nuts Cafe em LA que se pensa ser aquele onde começou a primeira revolta LGBTQIA+ dos EUA. A fotografia é retirada do filme “The Exiles” de Kent Mackenzie de 1961.</h6>

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<p>Entre as pessoas que se encontravam na cafetaria Cooper Do-nuts na noite dos acontecimentos, conta-se o escritor e romancista americano, de origem mexicana, <a href="http://johnrechy.com/">John Rechy</a>. No seu romance, <a href="https://www.amazon.com/-/pt/dp/0802121535/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;crid=1VJ70HO9GSS14&amp;keywords=City+of+Night&amp;qid=1680951922&amp;sprefix=city+of+night%2Caps%2C434&amp;sr=8-1">City of Night</a>, publicado em 1963, <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/John_Rechy">Rechy</a> descreve o ambiente que se vivia na noite de LA na época dos acontecimentos.</p>

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<h6 id="https-i-snap-as-qwf2blqa-webp-os-motins-lgbtqia-de-cooper-donuts-los-angeles-1959" id="https-i-snap-as-qwf2blqa-webp-os-motins-lgbtqia-de-cooper-donuts-los-angeles-1959"><img src="https://i.snap.as/qWf2BlQA.webp" alt=""/>Os motins LGBTQIA+ de Cooper Donuts, Los Angeles, 1959</h6>

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<h3 id="compton-s-cafeteria-noite-de-insurreição-trans-2" id="compton-s-cafeteria-noite-de-insurreição-trans-2">Compton’s Cafeteria: Noite de Insurreição Trans[2]</h3>

<h5 id="na-compton-s-cafeteria-em-são-francisco-um-grupo-de-pessoas-trans-e-queer-ergueu-se-contra-anos-de-humilhação-e-violência-policial-esta-noite-de-revolta-pouco-lembrada-foi-pioneira-na-luta-pela-dignidade-e-respeito" id="na-compton-s-cafeteria-em-são-francisco-um-grupo-de-pessoas-trans-e-queer-ergueu-se-contra-anos-de-humilhação-e-violência-policial-esta-noite-de-revolta-pouco-lembrada-foi-pioneira-na-luta-pela-dignidade-e-respeito">Na Compton’s Cafeteria, em São Francisco, um grupo de pessoas trans e queer ergueu-se contra anos de humilhação e violência policial. Esta noite de revolta, pouco lembrada, foi pioneira na luta pela dignidade e respeito.</h5>

<p>Tida como a primeira revolta de pessoas transgénero que teve lugar nos EUA, o <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Compton%27s_Cafeteria_riot">motim da Compton’s Cafeteria</a> ocorre numa noite quente de agosto de 1966, três anos antes dos acontecimentos de Stonewall, no bairro de Tenderloin, em São Francisco.</p>

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<p><img src="https://i.snap.as/QLPV6Ve2.jpg" alt=""/></p>

<h6 id="cafetaria-compton-na-década-de-1960" id="cafetaria-compton-na-década-de-1960">Cafetaria Compton na década de 1960.</h6>

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<p>A Compton&#39;s Cafeteria estava aberta e servia a sua clientela habitual que, entre outros, incluía trabalhadores do sexo e pessoas transgénero. Esta lugar era um dos poucos onde as pessoas trans se podiam reunir com alguma tranquilidade, dado que estas não era bem-vindas a bares gay frequentados por pessoas cisgénero. Na época, o travestismo era ilegal e a polícia usava as pessoas trans como pretexto para rusgas em bares gay, o que, frequentemente, culminava com o encerramento do local.</p>

<p>Nos meses que antecederam o motim, uma associação de defesa dos direitos LGBTQIA+, a Vanguard, começou a reunir na cafetaria de Gene Compton. O gerente queixava-se que eles passavam demasiado tempo sentados nas mesas e consumiam muito pouco, o que prejudicava o negócio. Na noite do motim, o gerente da cafetaria, aborrecido com algum barulho proveniente de uma mesa onde se encontravam pessoas transgénero, chamou a polícia. As forças policiais brindavam, frequentemente, as pessoas transgénero com maus-tratos e abusos, e essa noite não foi exceção. Quando um polícia mal-humorado tentou prender uma das pessoas trans sentada na mesa, esta pegou na chávena de café e arremessou o seu conteúdo à cara do polícia. Estava dado o mote e iniciada a revolta. À polícia foram arremessados todos os objetos que estavam à mão: cadeiras, mesas, chávenas, pratos, açucareiros... os vidros das janelas foram estilhaçados e a confusão foi geral. A polícia viu-se obrigada a pedir reforços e o motim passou para a rua. Transeuntes LGBTQIA+ e aliados juntaram-se ao motim, e várias viaturas policiais ficaram com os vidros partidos.</p>

<p>No dia seguinte a gestão da cafetaria não deixou que pessoas transgénero frequentassem o lugar, mas isso não foi impedimento para as manifestações de desagrado. O ajuntamento fez-se na rua, em frente à cafetaria, e os protestos prosseguiram.</p>

<p>Depois do motim da Compton’s Cafeteria surgiu uma rede de apoio social, psicológico e médico a pessoas trans que culminou, em 1968, com o nascimento da <em>National Transsexual Counseling Unit (NTCU)</em>, a primeira organização de apoio e defesa dos direitos humanos de pessoas transgénero em todo o mundo.</p>

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<h6 id="https-i-snap-as-dmf0jcte-jpeg-durante-os-motins-de-1966-em-los-angeles" id="https-i-snap-as-dmf0jcte-jpeg-durante-os-motins-de-1966-em-los-angeles"><img src="https://i.snap.as/dMf0JCtE.jpeg" alt=""/>Durante os motins de 1966, em Los Angeles.</h6>

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<p>Em janeiro de 2006 foi colocada uma placa comemorativa a assinalar o 40.º aniversário do motim.</p>

<p>Nesse San Diego junta-se a São Francisco e ao condado de Santa Clara, no Silicon VaLley, na declaração de Agosto como Mês da História Transgénero.</p>

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<p><img src="https://i.snap.as/CvjFfhO7.webp" alt=""/></p>

<h6 id="placa-comemorativa-dos-40-anos-dos-motins-a-cafetaria-compton" id="placa-comemorativa-dos-40-anos-dos-motins-a-cafetaria-compton">Placa comemorativa dos 40 anos dos motins a Cafetaria Compton.</h6>

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<p>[1] Os episódios que acabámos de apresentar são apenas dois exemplos de motins que antecederam e pavimentaram o caminho para Stonewall. Porém, existem mais de 20 casos de motins e revoltas registados que vão desde Nova Iorque a Filadélfia, de Chicago a São Francisco, de Los Angeles a Washington D.C. O cansaço das pessoas LGBTQIA+ em função da discriminação, segregação e humilhação a que estavam sujeitas foram o mote para que estes episódios se espalhassem um pouco por todos os E.U.A. e as pessoas cuir se associassem para defender os seus direitos. No próximo artigo irei abordar, ainda que sumariamente, algins dos mais de 20 motins ocorridos antes da revolta de Stonewall Inn. Mantenham-se atentes.</p>

<p>[2] Os acontecimentos que alegadamente ocorreram na cidade de LA em maio de 1959 estão documentados por Lillian Faderman e Stuart Timmons na <em>Introdução</em> do livro <a href="https://www.amazon.com/-/pt/dp/0520260619/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;crid=14OIHKLADXYGY&amp;keywords=Gay+L.A.+A+History+of+Sexual+Outlaws%2C+Power+Politics%2C+and+Lipstick+Lesbians&amp;qid=1680950803&amp;sprefix=gay+l.a.+a+history+of+sexual+outlaws%2C+power+politics%2C+and+lipstick+lesbians%2Caps%2C224&amp;sr=8-1">Gay L.A.: A History of Sexual Outlaws, Power Politics, and Lipstick Lesbians,</a> publicada em 2009 pela University of California Press. No entanto, a veracidade desta história foi questionada pelo blogger Nathan Marsak, residente em L.A., em cinco artigos publicados no seu blog com o cabeçalho <em>We Need to Talk About Cooper Do-Nuts - <a href="https://bunkerhilllosangeles.com/2021/06/15/we-need-to-talk-about-cooper-do-nuts/">Part I</a>, <a href="https://bunkerhilllosangeles.com/2022/03/22/cooper-do-nuts-addenda/">Part II</a>, <a href="https://bunkerhilllosangeles.com/2022/06/11/cooper-do-nuts-pt-iii/">Part III</a>, <a href="https://bunkerhilllosangeles.com/2023/06/06/cooper-donuts-again/">Part IV </a></em>e <em><a href="https://bunkerhilllosangeles.com/2023/06/21/cooper-do-nuts-finale/">Part V</a>.</em></p>

<p>O documentário <a href="https://youtu.be/G-WASW9dRBU">Screaming Queens: The Riot at Compton&#39;s Cafeteria (2005)</a> traça um retrato fiel e pertinente da revolta LGBTQIA+ ocorrida em agosto de 1966 na Gene Compton’s Cafeteria. Algumas filmagens da época apresentadas no documentário apresentam linguagem homofóbica e transfóbica, nomeadamente em notícias sobre as pessoas que frequentavam Tenderloin na época.</p>

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<p><a href="https://kuircuir.pt/tag:hist%C3%B3ria"><a href="https://kuircuir.pt/tag:hist%C3%B3ria" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">história</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:eua"><a href="https://kuircuir.pt/tag:eua" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">eua</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:homofobia"><a href="https://kuircuir.pt/tag:homofobia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">homofobia</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtq"><a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtq" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lgbtq</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbt"><a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbt" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lgbt</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtqia"><a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtqia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lgbtqia</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:livros"><a href="https://kuircuir.pt/tag:livros" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">livros</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:cuir"><a href="https://kuircuir.pt/tag:cuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">cuir</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:kuir"><a href="https://kuircuir.pt/tag:kuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">kuir</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:cuirfobia"><a href="https://kuircuir.pt/tag:cuirfobia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">cuirfobia</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:Caderno1" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">Caderno1</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:desdeasmargens" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">desdeasmargens</span></a></p>

<h6 id="atualizado-em-2025-05-28" id="atualizado-em-2025-05-28">[Atualizado em 2025-05-28]</h6>

<p><hr style="border: none; border-top: 1px solid #ff69b4;">
<em>Por Orlando Figueiredo, desde as margens.</em></p><br>---<br><p>Queres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! <br>
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]]></content:encoded>
      <guid>https://kuircuir.pt/do-pos-guerra-a-stonewall-parte-iii-antes-de-stonewall-ecos-de-rebeliao</guid>
      <pubDate>Wed, 21 May 2025 21:46:44 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Do pós-guerra a Stonewall - Parte II: Ordem Executiva 10450 - Cartografia do Silêncio</title>
      <link>https://kuircuir.pt/do-pos-guerra-a-stonewall-parte-ii-a-ordem-executiva-10450?pk_campaign=rss-feed</link>
      <description>&lt;![CDATA[Ecos de uma ordem silenciosa&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Neste segundo artigo abordo as consequências de uma lei homofóbica e transfóbica, emitida pelo presidente Eisenhower em 1953, cujas repercussões se fazem sentir até aos nossos dias. Mais uma tentativa de melhor compreender os contextos socio-políticos estado-unidenses que antecederam os acontecimentos de Stonewall.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Quando o Estado decretou o medo: vidas queer sob o véu da Ordem Executiva 10450&#xA;&#xA;Sob a égide desta ordem, uma geração viu-se perseguida por silêncios impostos e suspeitas constantes. Foi neste clima sufocante que muitos aprenderam a sobreviver, resistindo nas sombras enquanto a esperança insistia em não morrer.&#xA;&#xA;Em janeiro de 1953 McCarthy completava o seu primeiro mandato \1\] como senador por Wisconsin e levava três anos de implementação efetiva da perseguição às pessoas LGBTQ+. Desde a sua em 1947, McCarthy teve pouca notoriedade enquanto senador. Foi em 1950 que se tornou famoso, quando afirmou ter uma lista de funcionários do departamento de estado que eram espiões comunistas. Na sequência dessa afirmação, iniciou-se, simultaneamente, a perseguição quimérica aos comunistas e às pessoas LGBTQ+ que referi na [Parte I desta série de artigos. Também nesse artigo, refiro que&#xA;&#xA;  em 1952, Dirksen afirmou que a vitória dos republicanos era a garantia da remoção dos lavender lads do departamento de estado.&#xA;&#xA;Eisenhower não demoreu a dar razão a Dirksen e a 27 de abril de 1953 emitiu a OE 10450 que entrou em vigor um mês depois, a 27 de maio. Esta lei estabelecia os padrões de segurança para o emprego federal e proibiu, literalmente, os homossexuais de trabalhar nas instituições do governo federal \[2\]. Em consequência, milhares de pessoas perderam os seus empregos.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Excerto de notícia sobre a OE 10450 e o despedimento de pessoas cuir do departamento de estado.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;O presidente não se limitou ao âmbito dos postos de trabalho no departamento de estado. O então presidente ampliou as políticas e procedimentos homofóbicos e transfóbicos de forma a incluir também as agências federais e as instituições privadas que tivessem contratos governamentais. No total, entre funcionários do departamento de estado, pessoal das forças armadas e privados, foram afetadas mais de 6 milhões de pessoas em todo o país. Para a comunidade LGBTQ+ as consequências foram devastadoras. Estima-se que entre 5 000 a 10 000 pessoas LGBTQ+ perderam o seu emprego – incluindo pessoal do departamento de estado, militares e privados que trabalhavam em empresas com relações contratuais com o departamento de estado – simplesmente por serem homossexuais.&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;Contudo, a calamidade não se ficou pela mera perda do posto de trabalho. A maior parte destas pessoas foram expostas publicamente – literalmente sujeitas a saídas forçadas do armário – como gays ou lésbicas a uma sociedade que as ostracizava e rejeitava. As consequências foram trágicas e os suicídios entre a comuidade LGBTQ+ aumentou consideravelmente.&#xA;&#xA;O livro Lavender Scare - The Cold War Persecution of Gays and Lesbians in the Federal Government, que teve uma edição revista que saiu no dia 23 de março (1.ª edição datada de 2004) e o documentário The Lavender Scare (2017) são excelentes documentos que descrevem este período trágico da nossa história.&#xA;&#xA;Cicatrizes no tempo: vidas e sonhos marcados pela Ordem Executiva 10450&#xA;&#xA;As repercussões da Ordem Executiva 10450 não se ficaram pelos corredores do poder — espalharam-se como sombra densa, deixando cicatrizes fundas em vidas queer, forçando adaptações, silêncios e, apesar de tudo, novos gestos de resistência.&#xA;&#xA;Por meados da década de 50, as medidas preconizadas na OE 10450 tinham sido adotadas pelos governos estaduais e autoridades locais e passadas a lei. A proibição de contratação de pessoas suspeitas de “perversão sexual” acabou por afetar mais de 12 milhões de pessoas, o que correspondia, na época, a mais de 20% da força laboral dos EUA. Os juramentos atestadores da “pureza moral” dos trabalhadores passaram a ser compulsórios para que estes conseguissem manter ou arranjar um posto de trabalho.&#xA;&#xA;Durante os anos 50 e 60, o FBI e os departamentos e agências das policias de estado dos EUA elaboraram bases de dados de homossexuais conhecidos. Os registos incluíam os nomes das pessoas, locais que estas frequentavam, suas amizades e outros dados sobre a sua vida privada que fossem arbitrariamente considerados relevantes. Os serviços postais dos EUA mantinham uma base de dados com os endereços para onde era enviada correspondência relacionada com a homossexualidade. Os governos estaduais e as autoridades locais não só colaboraram com as políticas federais, como implementaram medidas persecutórias idênticas.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Manifestações da comunidade cuir contra a discriminação consequência da OE 10450.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Foi proibida a venda de bebidas alcoólicas a pessoas LGBTQ+. Os bares gay que infringiam essa norma perdiam a licença e eram encerrados. Os clientes eram presos e expostos publicamente pela imprensa – como sempre, coming outs forçados é sinónimo de vidas destruídas entre a comnidade LGBTQ+. Fizeram-se campanhas, orquestradas pelas autoridades locais, que visavam limpar os bares, praias e parques de homossexuais e restantes membros da comunidade LGBTQ+. Proibiu-se o uso de roupas que consideravam ser do género oposto ao que era atribuído à pessoa na sua identificação – a lei obrigava ao uso de pelo menos três peças de roupa adequadas ao género descrito na sua identificação – ridículo...&#xA;&#xA;Nas universidades, professores suspeitos de serem homossexuais foram expulsos. Milhares de gays, lésbicas e pessoas transgénero foram publicamente humilhadas, acossadas, despedidas, encarceradas ou internadas em hospitais psiquiátricos. Às pessoas LGBTQ+ não lhes restava outra opção a não ser a de levarem uma existência dupla, em que as suas vidas privadas tinham de ser vividas na clandestinidade e longe dos olhares públicos e das suas vidas profissionais.&#xA;&#xA;Quando a lei cai, as cicatrizes permanecem: o lento adeus à Ordem Executiva 10450&#xA;&#xA;A revogação chegou sem alarde e sem restituição. Para quem sofreu, restou a ausência de reparação e o peso de feridas abertas. O passado, por vezes, demora a encontrar descanso mesmo quando as leis mudam.&#xA;&#xA;A sociedade estado-unidense não exerceu nenhuma pressão sobre as instituições federais e estatais para acabar com esta situação. Pelo contrário, a institucionalização da homofobia levou à sua normalização no contexto social, bem na tradição dos EUA.&#xA;&#xA;Até 1975, durante 22 anos, além de umas poucas e infrutíferas ações judiciais a OE 10450 continuou a excluir pessoas LGBTQ+ em todos os departamentos e agências estaduais e em empresas privadas com contratos com o departamento de estado. O incentivo aos governos estaduais e às autoridades locais para iplementarem políticas idênticas era a norma. O principal efeito da homofobia institucionalizada foi a sua normalização. Só em 1975 é que aU.S. Civil Service Commission, uma comissão destinada a avaliar os funcionários do departamento de estado pelo seu mérito, acabou com a exclusão de pessoas gays e lésbicas dos serviços federais civis e em 1977 o departamento de estado acabou com a segregação de pessoas gays e lésbicas dos serviços estrangeiros. Porém, as pessoas LGBTQ+ continuaram banidas de outros contextos, como as Forças Armadas. As políticas Don’t Ask, Don’t Tell (DADT), numa tentativa de resolver o &#34;problema&#34; das pessoas LGBTQ+ das forças armadas, foram implementadas por Bill Clinton em dezembro de 1993 e entraram em vigor em fevereiro de 1994. Estas políticas visaram acabar com a exclusão de pessoas LGBTQ+ das forças armadas, impediam os membros homossexuais e bisexuais das forças armadas estado-unidenses de revelar a sua orientação sexual, empurrando-os para o interior de um armário depressivo e dolorso.&#xA;&#xA;Só em 1995, 42 anos depois da assinatura por Eisenhower da OE 10450, é que Bill Clinton assinou a OE 12968 que diz, explicitamente, que&#xA;&#xA;  O Governo dos Estados Unidos não discrimina com base na raça, cor, religião, sexo, origem nacional, incapacidade, ou orientação sexual a concessão de acesso a informações classificadas.&#xA;&#xA;Porém, como as políticas (DADT) as pessoas LGBTQ+ das forças armadas estado -unidenses eram obrigadas a continuar armariadas e a levar uma vida dupla, obrigando-as a esconder a sua orientação homo ou bisexual e a manter sua vida amorosa separada e escondida da sua vida profissional, os resultados práticos foram poucos.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Manifestações da comunidade cuir contra a discriminação consequência da OE 10450.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;Três anos depois, em 1998, também pela mão de Bill Clinton, a OE 13087 repele o uso de linguagem relativa à orientação sexual dos funcionários constantes da OE 10450 que continua em vigor. Mas foi apenas no dia 17 de janeiro de 2017, 64 anos depois de entrar em vigor, que a OE 10450 foi explicita e formalmente revogada pele OE 13764, a última OE assinada pelo Presidente Barack Obama durante o seu segundo mandato. Foram 64 anos de perseguição institucionalizada pelo departamento de estado norte americano às pessoas LGBTQ+. Imagine-se as consequências para a comunidade.&#xA;&#xA;No próximo artigo irei apresentar duas revoltas da comunidade LGBTQ+ que antecederam a revolta de Stonewall Inn. Fiquem atentes.&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;\[1\] No EUA os mandatos de senador têm a duração de dois anos. Em 1953, McCarthy foi eleito para um segundo mandato que não chegou a completar, pois morreu no dia 2 de maio de 1947 na sequência de uma hepatite aguda.&#xA;&#xA;\2\] Na Sec. 8. a) estabelece os critérios de empregabilidade e no parágrafo (iii) desta secção foi incluido o termo sexual perversion que, à época, estava também associado à homossexualidade. A lei pode ser consultada [aqui (em inglês).&#xA;&#xA;Leituras adicionais:&#xA;&#xA;Executive Order 10450: Eisenhower and the Lavender Scare&#xA;&#xA;Milestones in the American Gay Rights Movement (American Experience)&#xA;&#xA;---&#xA;&#xA;#história #eua #homofobia #lgbtq #lgbt #lgbtqia #cuir #kuir #cuirfobia #Caderno1 #desdeasmargens&#xA;&#xA;\[Atualizado em 2025-05-28\]&#xA;&#xA;phr style=&#34;border: none; border-top: 1px solid #ff69b4;&#34;&#xD;&#xA;emPor Orlando Figueiredo, desde as margens./em/pbr---brpQueres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! br&#xD;&#xA;!--emailsub--/p]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<h2 id="ecos-de-uma-ordem-silenciosa" id="ecos-de-uma-ordem-silenciosa"><em><strong>Ecos de uma ordem silenciosa</strong></em></h2>

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<p>Neste segundo artigo abordo as consequências de uma lei homofóbica e transfóbica, emitida pelo presidente Eisenhower em 1953, cujas repercussões se fazem sentir até aos nossos dias. Mais uma tentativa de melhor compreender os contextos socio-políticos estado-unidenses que antecederam os acontecimentos de Stonewall.</p>

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<h3 id="quando-o-estado-decretou-o-medo-vidas-queer-sob-o-véu-da-ordem-executiva-10450" id="quando-o-estado-decretou-o-medo-vidas-queer-sob-o-véu-da-ordem-executiva-10450"><strong>Quando o Estado decretou o medo: vidas queer sob o véu da Ordem Executiva 10450</strong></h3>

<h5 id="sob-a-égide-desta-ordem-uma-geração-viu-se-perseguida-por-silêncios-impostos-e-suspeitas-constantes-foi-neste-clima-sufocante-que-muitos-aprenderam-a-sobreviver-resistindo-nas-sombras-enquanto-a-esperança-insistia-em-não-morrer" id="sob-a-égide-desta-ordem-uma-geração-viu-se-perseguida-por-silêncios-impostos-e-suspeitas-constantes-foi-neste-clima-sufocante-que-muitos-aprenderam-a-sobreviver-resistindo-nas-sombras-enquanto-a-esperança-insistia-em-não-morrer">Sob a égide desta ordem, uma geração viu-se perseguida por silêncios impostos e suspeitas constantes. Foi neste clima sufocante que muitos aprenderam a sobreviver, resistindo nas sombras enquanto a esperança insistia em não morrer.</h5>

<p>Em janeiro de 1953 McCarthy completava o seu primeiro mandato [1] como senador por Wisconsin e levava três anos de implementação efetiva da perseguição às pessoas LGBTQ+. Desde a sua em 1947, McCarthy teve pouca notoriedade enquanto senador. Foi em 1950 que se tornou famoso, quando afirmou ter uma lista de funcionários do departamento de estado que eram espiões comunistas. Na sequência dessa afirmação, iniciou-se, simultaneamente, a perseguição quimérica aos comunistas e às pessoas LGBTQ+ que referi na <a href="https://kuircuir.pt/do-pos-guerra-a-stonewall-parte-i-a-ameaca-lavanda">Parte I</a> desta série de artigos. Também <a href="https://kuircuir.pt/do-pos-guerra-a-stonewall-parte-i-a-ameaca-lavanda">nesse artigo</a>, refiro que</p>

<blockquote><p>em 1952, Dirksen afirmou que a vitória dos republicanos era a garantia da remoção dos <em>lavender lads</em> do departamento de estado.</p></blockquote>

<p>Eisenhower não demoreu a dar razão a Dirksen e a 27 de abril de 1953 emitiu a <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Executive_Order_10450">OE 10450</a> que entrou em vigor um mês depois, a 27 de maio. Esta lei estabelecia os padrões de segurança para o emprego federal e proibiu, literalmente, os homossexuais de trabalhar nas instituições do governo federal [2]. Em consequência, milhares de pessoas perderam os seus empregos.</p>

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<p><img src="https://i.snap.as/sVOYsiGE.jpg" alt=""/></p>

<h6 id="excerto-de-notícia-sobre-a-oe-10450-e-o-despedimento-de-pessoas-cuir-do-departamento-de-estado" id="excerto-de-notícia-sobre-a-oe-10450-e-o-despedimento-de-pessoas-cuir-do-departamento-de-estado">Excerto de notícia sobre a OE 10450 e o despedimento de pessoas cuir do departamento de estado.</h6>

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<p>O presidente não se limitou ao âmbito dos postos de trabalho no departamento de estado. O então presidente ampliou as políticas e procedimentos homofóbicos e transfóbicos de forma a incluir também as agências federais e as instituições privadas que tivessem contratos governamentais. No total, entre funcionários do departamento de estado, pessoal das forças armadas e privados, foram afetadas mais de 6 milhões de pessoas em todo o país. Para a comunidade LGBTQ+ as consequências foram devastadoras. Estima-se que entre 5 000 a 10 000 pessoas LGBTQ+ perderam o seu emprego – incluindo pessoal do departamento de estado, militares e privados que trabalhavam em empresas com relações contratuais com o departamento de estado – simplesmente por serem homossexuais.</p>



<p>Contudo, a calamidade não se ficou pela mera perda do posto de trabalho. A maior parte destas pessoas foram expostas publicamente – literalmente sujeitas a saídas forçadas do armário – como gays ou lésbicas a uma sociedade que as ostracizava e rejeitava. As consequências foram trágicas e os suicídios entre a comuidade LGBTQ+ aumentou consideravelmente.</p>

<p>O livro <em>Lavender Scare – The Cold War Persecution of Gays and Lesbians in the Federal Government</em>, que teve uma edição revista que saiu no dia 23 de março (1.ª edição datada de 2004) e o documentário <em><a href="https://www.imdb.com/title/tt2891456/">The Lavender Scare</a></em> (2017) são excelentes documentos que descrevem este período trágico da nossa história.</p>

<h3 id="cicatrizes-no-tempo-vidas-e-sonhos-marcados-pela-ordem-executiva-10450" id="cicatrizes-no-tempo-vidas-e-sonhos-marcados-pela-ordem-executiva-10450">Cicatrizes no tempo: vidas e sonhos marcados pela Ordem Executiva 10450</h3>

<h5 id="as-repercussões-da-ordem-executiva-10450-não-se-ficaram-pelos-corredores-do-poder-espalharam-se-como-sombra-densa-deixando-cicatrizes-fundas-em-vidas-queer-forçando-adaptações-silêncios-e-apesar-de-tudo-novos-gestos-de-resistência" id="as-repercussões-da-ordem-executiva-10450-não-se-ficaram-pelos-corredores-do-poder-espalharam-se-como-sombra-densa-deixando-cicatrizes-fundas-em-vidas-queer-forçando-adaptações-silêncios-e-apesar-de-tudo-novos-gestos-de-resistência">As repercussões da Ordem Executiva 10450 não se ficaram pelos corredores do poder — espalharam-se como sombra densa, deixando cicatrizes fundas em vidas queer, forçando adaptações, silêncios e, apesar de tudo, novos gestos de resistência.</h5>

<p>Por meados da década de 50, as medidas preconizadas na OE 10450 tinham sido adotadas pelos governos estaduais e autoridades locais e passadas a lei. A proibição de contratação de pessoas suspeitas de “perversão sexual” acabou por afetar mais de 12 milhões de pessoas, o que correspondia, na época, a mais de 20% da força laboral dos EUA. Os juramentos atestadores da “pureza moral” dos trabalhadores passaram a ser compulsórios para que estes conseguissem manter ou arranjar um posto de trabalho.</p>

<p>Durante os anos 50 e 60, o FBI e os departamentos e agências das policias de estado dos EUA elaboraram bases de dados de homossexuais conhecidos. Os registos incluíam os nomes das pessoas, locais que estas frequentavam, suas amizades e outros dados sobre a sua vida privada que fossem arbitrariamente considerados relevantes. Os serviços postais dos EUA mantinham uma base de dados com os endereços para onde era enviada correspondência relacionada com a homossexualidade. Os governos estaduais e as autoridades locais não só colaboraram com as políticas federais, como implementaram medidas persecutórias idênticas.</p>

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<p><img src="https://i.snap.as/W73LA0ZF.jpg" alt=""/></p>

<h6 id="manifestações-da-comunidade-cuir-contra-a-discriminação-consequência-da-oe-10450" id="manifestações-da-comunidade-cuir-contra-a-discriminação-consequência-da-oe-10450">Manifestações da comunidade cuir contra a discriminação consequência da OE 10450.</h6>

<hr/>

<p>Foi proibida a venda de bebidas alcoólicas a pessoas LGBTQ+. Os bares gay que infringiam essa norma perdiam a licença e eram encerrados. Os clientes eram presos e expostos publicamente pela imprensa – como sempre, <em>coming outs</em> forçados é sinónimo de vidas destruídas entre a comnidade LGBTQ+. Fizeram-se campanhas, orquestradas pelas autoridades locais, que visavam <em>limpar</em> os bares, praias e parques de homossexuais e restantes membros da comunidade LGBTQ+. Proibiu-se o uso de roupas que consideravam ser do género oposto ao que era atribuído à pessoa na sua identificação – a lei obrigava ao uso de pelo menos três peças de roupa adequadas ao género descrito na sua identificação – ridículo...</p>

<p>Nas universidades, professores suspeitos de serem homossexuais foram expulsos. Milhares de gays, lésbicas e pessoas transgénero foram publicamente humilhadas, acossadas, despedidas, encarceradas ou internadas em hospitais psiquiátricos. Às pessoas LGBTQ+ não lhes restava outra opção a não ser a de levarem uma existência dupla, em que as suas vidas privadas tinham de ser vividas na clandestinidade e longe dos olhares públicos e das suas vidas profissionais.</p>

<h3 id="quando-a-lei-cai-as-cicatrizes-permanecem-o-lento-adeus-à-ordem-executiva-10450" id="quando-a-lei-cai-as-cicatrizes-permanecem-o-lento-adeus-à-ordem-executiva-10450">Quando a lei cai, as cicatrizes permanecem: o lento adeus à Ordem Executiva 10450</h3>

<h5 id="a-revogação-chegou-sem-alarde-e-sem-restituição-para-quem-sofreu-restou-a-ausência-de-reparação-e-o-peso-de-feridas-abertas-o-passado-por-vezes-demora-a-encontrar-descanso-mesmo-quando-as-leis-mudam" id="a-revogação-chegou-sem-alarde-e-sem-restituição-para-quem-sofreu-restou-a-ausência-de-reparação-e-o-peso-de-feridas-abertas-o-passado-por-vezes-demora-a-encontrar-descanso-mesmo-quando-as-leis-mudam">A revogação chegou sem alarde e sem restituição. Para quem sofreu, restou a ausência de reparação e o peso de feridas abertas. O passado, por vezes, demora a encontrar descanso mesmo quando as leis mudam.</h5>

<p>A sociedade estado-unidense não exerceu nenhuma pressão sobre as instituições federais e estatais para acabar com esta situação. Pelo contrário, a institucionalização da homofobia levou à sua normalização no contexto social, bem na tradição dos EUA.</p>

<p>Até 1975, durante 22 anos, além de umas poucas e infrutíferas ações judiciais a OE 10450 continuou a excluir pessoas LGBTQ+ em todos os departamentos e agências estaduais e em empresas privadas com contratos com o departamento de estado. O incentivo aos governos estaduais e às autoridades locais para iplementarem políticas idênticas era a norma. O principal efeito da homofobia institucionalizada foi a sua normalização. Só em 1975 é que a<em>U.S. Civil Service Commission</em>, uma comissão destinada a avaliar os funcionários do departamento de estado pelo seu mérito, acabou com a exclusão de pessoas gays e lésbicas dos serviços federais civis e em 1977 o departamento de estado acabou com a segregação de pessoas gays e lésbicas dos serviços estrangeiros. Porém, as pessoas LGBTQ+ continuaram banidas de outros contextos, como as Forças Armadas. As políticas <em>Don’t Ask, Don’t Tell (DADT)</em>, numa tentativa de resolver o “problema” das pessoas LGBTQ+ das forças armadas, foram implementadas por Bill Clinton em dezembro de 1993 e entraram em vigor em fevereiro de 1994. Estas políticas visaram acabar com a exclusão de pessoas LGBTQ+ das forças armadas, impediam os membros homossexuais e bisexuais das forças armadas estado-unidenses de revelar a sua orientação sexual, empurrando-os para o interior de um armário depressivo e dolorso.</p>

<p>Só em 1995, 42 anos depois da assinatura por Eisenhower da OE 10450, é que Bill Clinton assinou a <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Executive_Order_12968">OE 12968</a> que diz, explicitamente, que</p>

<blockquote><p>O Governo dos Estados Unidos não discrimina com base na raça, cor, religião, sexo, origem nacional, incapacidade, ou orientação sexual a concessão de acesso a informações classificadas.</p></blockquote>

<p>Porém, como as políticas (DADT) as pessoas LGBTQ+ das forças armadas estado -unidenses eram obrigadas a continuar armariadas e a levar uma vida dupla, obrigando-as a esconder a sua orientação homo ou bisexual e a manter sua vida amorosa separada e escondida da sua vida profissional, os resultados práticos foram poucos.</p>

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<p><img src="https://i.snap.as/UjiZttfl.webp" alt=""/></p>

<h6 id="manifestações-da-comunidade-cuir-contra-a-discriminação-consequência-da-oe-10450-1" id="manifestações-da-comunidade-cuir-contra-a-discriminação-consequência-da-oe-10450-1">Manifestações da comunidade cuir contra a discriminação consequência da OE 10450.</h6>

<hr/>

<p>Três anos depois, em 1998, também pela mão de Bill Clinton, a <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Executive_Order_13087">OE 13087</a> repele o uso de linguagem relativa à orientação sexual dos funcionários constantes da OE 10450 que continua em vigor. Mas foi apenas no dia 17 de janeiro de 2017, 64 anos depois de entrar em vigor, que a OE 10450 foi explicita e formalmente revogada pele <a href="https://en.wikisource.org/wiki/Executive_Order_13764">OE 13764</a>, a última OE assinada pelo Presidente Barack Obama durante o seu segundo mandato. Foram 64 anos de perseguição institucionalizada pelo departamento de estado norte americano às pessoas LGBTQ+. Imagine-se as consequências para a comunidade.</p>

<p>No próximo artigo irei apresentar duas revoltas da comunidade LGBTQ+ que antecederam a revolta de Stonewall Inn. Fiquem atentes.</p>

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<p>[1] No EUA os mandatos de senador têm a duração de dois anos. Em 1953, McCarthy foi eleito para um segundo mandato que não chegou a completar, pois morreu no dia 2 de maio de 1947 na sequência de uma hepatite aguda.</p>

<p>[2] Na Sec. 8. a) estabelece os critérios de empregabilidade e no parágrafo (iii) desta secção foi incluido o termo <em>sexual perversion</em> que, à época, estava também associado à homossexualidade. A lei pode ser consultada <a href="https://www.archives.gov/federal-register/codification/executive-order/10450.html">aqui (em inglês)</a>.</p>

<h3 id="leituras-adicionais" id="leituras-adicionais">Leituras adicionais:</h3>

<p><a href="https://www.nps.gov/articles/000/lavender-scare.htm?utm_source=chatgpt.com">Executive Order 10450: Eisenhower and the Lavender Scare</a></p>

<p><a href="https://www.pbs.org/wgbh/americanexperience/features/stonewall-milestones-american-gay-rights-movement/?utm_source=chatgpt.com">Milestones in the American Gay Rights Movement (American Experience)</a></p>

<hr/>

<p><a href="https://kuircuir.pt/tag:hist%C3%B3ria"><a href="https://kuircuir.pt/tag:hist%C3%B3ria" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">história</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:eua"><a href="https://kuircuir.pt/tag:eua" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">eua</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:homofobia"><a href="https://kuircuir.pt/tag:homofobia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">homofobia</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtq"><a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtq" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lgbtq</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbt"><a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbt" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lgbt</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtqia"><a href="https://kuircuir.pt/tag:lgbtqia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">lgbtqia</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:cuir"><a href="https://kuircuir.pt/tag:cuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">cuir</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:kuir"><a href="https://kuircuir.pt/tag:kuir" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">kuir</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:cuirfobia"><a href="https://kuircuir.pt/tag:cuirfobia" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">cuirfobia</span></a></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:Caderno1" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">Caderno1</span></a> <a href="https://kuircuir.pt/tag:desdeasmargens" class="hashtag"><span>#</span><span class="p-category">desdeasmargens</span></a></p>

<h6 id="atualizado-em-2025-05-28" id="atualizado-em-2025-05-28">[Atualizado em 2025-05-28]</h6>

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<em>Por Orlando Figueiredo, desde as margens.</em></p><br>---<br><p>Queres receber as próximas palavras nas margens da tua caixa de entrada? Subscreve o blogue! <br>
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      <guid>https://kuircuir.pt/do-pos-guerra-a-stonewall-parte-ii-a-ordem-executiva-10450</guid>
      <pubDate>Mon, 19 May 2025 17:49:57 +0000</pubDate>
    </item>
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